Publicidade
Justiça

Mensagens pressionam Kassio no TSE

Conversas surgem quando presidente do TSE já enfrenta pedido de investigação sobre relação com entorno do Banco Master

Kassio Nunes Marques
PF cita “Kassio” e um “ministro” em festa de Daniel Vorcaro Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Mensagens apreendidas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro acrescentaram um novo episódio às suspeitas que alcançam o entorno do ministro Kassio Nunes Marques.

Conversas divulgadas nesta terça-feira (13) pelo UOL relatam a presença de um “ministro” em uma festa realizada no triplex do ex-banqueiro em São Paulo e, dias depois, registram uma cobrança de R$ 10 mil relacionada a uma mulher que teria ficado com alguém chamado “Kassio”.

Publicidade

Os diálogos não identificam diretamente Nunes Marques como participante da festa e, isoladamente, não comprovam que o nome mencionado seja uma referência ao ministro do Supremo Tribunal Federal.

Festa privada

A festa ocorreu em 28 de fevereiro de 2025 em um triplex utilizado por Vorcaro em São Paulo.

As mensagens mostram que funcionários organizavam alimentos, bebidas, equipe e a chegada de convidadas enquanto o ex-banqueiro recebia atualizações sobre o evento.

Um relatório de despesas relacionado à confraternização registra gastos de R$ 62,3 mil.

A organização previa um churrasco para cerca de 15 pessoas, contratação de chef e equipe de apoio, além da presença de mulheres chamadas para o local.

Em uma das conversas, Vorcaro orientou um funcionário identificado como Michael a recolher os celulares das convidadas que chegavam ao imóvel. O procedimento aparece nas mensagens trocadas durante a preparação da festa.

Horas depois, o mesmo funcionário informou ao ex-banqueiro que havia cedido um quarto próximo para um ministro acompanhado de cinco mulheres.

“Emprestei quarto do lado para ministro com 5 menina”, escreveu Michael, segundo o diálogo apreendido.

Posteriormente, ele voltou a mencionar o convidado e relatou que o ministro ainda permanecia no imóvel. Por volta das 23h, comunicou a saída do homem.

Nome citado

Em 7 de março, uma mulher identificada como Rayanna procurou Vorcaro para tratar do pagamento de uma convidada que havia participado do evento.

Segundo a mensagem, a mulher dizia que sua amiga havia ficado com “Kassio” e cobrava pelo encontro.

“A minha amiga lá aquele dia! Deu certo né?”, escreveu Rayanna. Em seguida, afirmou que a amiga havia ficado com Kassio e estava cobrando o valor, relata.

Vorcaro pediu os dados e perguntou sobre o pagamento. Rayanna indicou R$ 10 mil.

As mensagens não esclarecem se o valor chegou a ser transferido. Também não estabelecem, por si só, que o “Kassio” mencionado na conversa seja Kassio Nunes Marques ou que o “ministro” relatado pelo funcionário seja a mesma pessoa citada posteriormente.

Outro diálogo

Durante a mesma noite, Vorcaro disse a Luiz Rennó, então diretor jurídico do Banco Master, que estava “fazendo graça pra ministro em SP”.

A conversa indica que o empresário acompanhava à distância o que ocorria no imóvel e tinha conhecimento da presença de uma autoridade.

Novamente, a mensagem não identifica o ministro pelo nome. A relevância investigativa está na possibilidade de cruzamento desse conjunto com outros dados obtidos no celular, como contatos, deslocamentos, registros de hospedagem, pagamentos e interlocutores que aparecem repetidamente em episódios envolvendo pessoas próximas a Nunes Marques.

R$ 10 mil

A cobrança feita dias depois não é a primeira mensagem atribuída ao celular de Vorcaro que associa vantagens financeiras ou serviços a pessoas identificadas como próximas do ministro.

Em setembro, outros diálogos revelados durante a investigação já registravam uma cobrança de R$ 10 mil relacionada a uma mulher que teria se encontrado com “Kassio”. 

Há também mensagens sobre uma viagem para cinco pessoas cuja organização teria sido solicitada por alguém identificado como ministro Kassio.

Em outras conversas, interlocutores de Vorcaro tratavam da possibilidade de o banqueiro arcar ou auxiliar com despesas relacionadas a hospedagens e outros serviços.

Nunes Marques afirmou anteriormente que nunca trocou mensagens com Daniel Vorcaro, nunca recebeu dinheiro do empresário e nunca autorizou terceiros a negociar vantagens ou falar em seu nome.

Pressão judicial

O novo material aparece poucas horas depois de dois deputados federais apresentarem ao presidente do STF, Edson Fachin, uma notícia de fato pedindo a abertura de investigação contra Nunes Marques.

O documento protocolado por Rui Falcão e Rogério Correia reúne outros episódios revelados nas últimas semanas e pede que a Procuradoria-Geral da República seja acionada para avaliar possíveis irregularidades.

Entre os fatos citados estão mensagens que mencionam pagamentos mensais de R$ 500 mil associados a Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro.

Os registros conhecidos até agora não comprovam que esses valores tenham efetivamente sido pagos.

Kevin afirma que nunca prestou serviços ao Banco Master. Seu escritório recebeu R$ 281,6 mil da Consult Inteligência Tributária, empresa que, no período analisado, recebeu R$ 6,6 milhões do banco.

A defesa sustenta que os pagamentos ao advogado corresponderam a serviços tributários prestados à Consult.

Contrato milionário

Outro núcleo investigado envolve um contrato de advocacia cujo valor poderia chegar a R$ 427 milhões caso fossem obtidos resultados favoráveis em processos envolvendo precatórios.

Mensagens encontradas no celular de Vorcaro tratavam pessoas envolvidas nessa negociação como “Turma do KN”.

O escritório contratado estava ligado à advogada Camilla Ewerton Ramos, mulher do desembargador Newton Ramos.

O contrato previa honorários vinculados ao sucesso em ações que poderiam liberar aproximadamente R$ 8,5 bilhões. O escritório afirma que os honorários de R$ 427 milhões não chegaram a ser recebidos.

Em manifestações anteriores, Nunes Marques afirmou que nunca autorizou ninguém a usar seu nome e contestou tentativas de relacionar sua atuação judicial a negócios envolvendo Vorcaro.

Segundo turno

Como presidente do TSE, o ministro está à frente da Justiça Eleitoral durante o segundo turno da eleição presidencial de 2026 e participa diretamente da administração da Corte responsável por analisar disputas entre as campanhas.

Nesta terça-feira, sua agenda oficial inclui sessão plenária do tribunal. O ministro também convocou representantes jurídicos das campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro para discutir a escalada de conflitos judiciais durante a reta final da eleição.

Nos últimos dias, Nunes Marques também esteve envolvido em uma disputa interna no TSE após determinar a suspensão de um canal de WhatsApp ligado ao deputado André Janones.

A medida foi posteriormente revertida pelo corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, enquanto o caso aguardava nova análise.

Negativas anteriores

Nunes Marques já se pronunciou sobre diferentes mensagens encontradas no celular do ex-banqueiro e rejeitou qualquer relação financeira ou atuação direcionada a beneficiar Vorcaro.

“Nunca votei a favor de Daniel Vorcaro ou do Banco Master, nunca troquei mensagens com o banqueiro e nem pedi nada a ele”, afirmou anteriormente a assessoria do ministro.

Ele também sustenta que processos nos quais seu nome foi associado aos interesses do Master não correspondiam a ações do próprio banco ou envolviam teses jurídicas mais amplas aplicáveis a outras empresas.

Procurada pelo O Brasilianista, a assessoria do ministro Kassio Nunes Marques não se manifestou até a publicação desta reportagem. Os canais de comunicação permanecem abertos para eventual posicionamento.

Siga O Brasilianista!