A oito dias do segundo turno presidencial, as pesquisas eleitorais passaram a registrar movimentos diferentes na disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Entre 16 e 23 de outubro, levantamentos de Datafolha, AtlasIntel, Nexus e PoderData apontaram redução da vantagem numérica do senador em comparação com rodadas anteriores.
Outros institutos apresentaram estabilidade, oscilações no sentido contrário ou vantagem numérica do presidente.
A maior parte dos resultados, entretanto, permaneceu dentro das respectivas margens de erro.
O Brasilianista reuniu levantamentos nacionais divulgados no período para examinar o comportamento das séries, as diferenças entre os institutos e os indicadores que podem ajudar a compreender a movimentação do eleitorado.
A análise inclui a entrevista com Dilermando Martins, mestre em Ciências Sociais Aplicadas, doutor em Direito e professor do curso de Direito da Universidade Positivo, que explica os limites estatísticos das comparações entre pesquisas realizadas com técnicas distintas.
Primeiros números
Na sexta-feira, 16 de outubro, a pesquisa CNT/MDA apresentou Flávio com 50,5% dos votos válidos, contra 49,5% de Lula.
O levantamento ouviu 2.014 eleitores entre 13 e 15 de outubro e tinha margem de erro de 2,2 pontos percentuais.
A pesquisa marcou uma diferença em relação à rodada anterior do mesmo instituto, de 3 de outubro, quando Lula aparecia numericamente à frente.
Entre 17 e 18 de outubro, novos resultados aprofundaram as diferenças entre institutos.
O Ipespe/Abrapel apresentou 51,2% para Flávio e 48,8% para Lula nos votos válidos. A Veritá indicou 51,1% e 48,9%, respectivamente.
Já a Vox Brasil apresentou resultado inverso. Na pesquisa divulgada no domingo (18), Lula registrou 51% dos votos válidos, enquanto Flávio teve 49%.
Para Martins, a divergência não pode ser interpretada sem considerar os procedimentos de coleta.
“Para comparar pesquisas, é preciso levar em consideração, antes de tudo, quais metodologias foram utilizadas e quem foi ouvido”, explica.
O especialista chama a atenção para diferenças que não aparecem necessariamente nas manchetes.
“É fundamental observar o método adotado, o número de municípios envolvidos, as regiões do país contempladas e o perfil dos entrevistados, considerando aspectos como renda, idade e localização.”
Semana decisiva
A segunda-feira (19) concentrou levantamentos de institutos com diferentes métodos de pesquisa.
A AtlasIntel apresentou Flávio com 51,1% dos votos válidos, contra 48,9% de Lula. A vantagem numérica de 2,2 pontos foi inferior à registrada pelo mesmo instituto em 9 de outubro, quando a distância era de 5,6 pontos.
Na Nexus/BTG Pactual, o resultado chegou a 50,3% para Flávio e 49,7% para Lula. O instituto havia identificado uma distância de quatro pontos em sua rodada anterior, divulgada no dia 13.
A PoderData/Aya, por sua vez, apresentou 52% para o senador e 48% para o presidente. A Futura Inteligência mostrou uma diferença menor, de 50,4% a 49,6%.
A DataTrends registrou Flávio com 51,5% e Lula com 48,5%, enquanto pesquisas divulgadas pela Gerp e por outros institutos apresentaram diferenças numéricas que variavam conforme o período de coleta.
“Não é possível olhar apenas para os percentuais finais e concluir imediatamente que um candidato cresceu ou caiu”, adverte Martins.
Diferenças metodológicas
Os institutos utilizam diferentes procedimentos para alcançar seus entrevistados.
O Datafolha e a Quaest trabalham com entrevistas presenciais. A Real Time Big Data utiliza entrevistas telefônicas realizadas por pesquisadores.
Outros levantamentos empregam sistemas automatizados de telefonia ou questionários digitais.
Essas diferenças podem influenciar a composição das amostras, os padrões de resposta e a capacidade de alcançar determinados segmentos da população.
“Também é preciso verificar se a pesquisa é espontânea, quando o entrevistado responde livremente, ou estimulada, quando são apresentados os nomes dos candidatos”, esclarece Martins.
Outro fator é a forma de apresentar os percentuais. Nos votos totais, são considerados também os entrevistados que declaram votar em branco, anular ou permanecer indecisos. Nos votos válidos, essas respostas são excluídas do cálculo.
“Tudo isso pode impactar o resultado”, acrescenta o professor.
A diferença pode ser observada na pesquisa Datafolha divulgada em 22 de outubro.
O instituto registrou 47% para Flávio e 46% para Lula nos votos totais, mas apresentou 50% para cada um nos votos válidos.
Novas rodadas
A terça-feira (20) trouxe uma nova pesquisa Real Time Big Data, com 52% dos votos válidos para Flávio e 48% para Lula. O resultado apresentava quatro pontos de distância numérica.
O Instituto França indicou 50,8% para o senador e 49,2% para o presidente. Já a Data Ranking apresentou Lula com 50,4%, diante de 49,6% de Flávio.
Na quarta-feira (21), o conjunto de resultados foi novamente heterogêneo. A Quaest registrou, nos votos totais, 45% para Flávio e 44% para Lula, enquanto 11% dos entrevistados escolheram outras respostas ou não definiram o voto.
Nos votos válidos calculados a partir desses percentuais arredondados, a diferença ficou próxima de 50,6% a 49,4%.
O levantamento Meio/Ideia mostrou 51,1% para o senador e 48,9% para o petista nos votos válidos. A Futura Inteligência apresentou os mesmos percentuais, mas com amostra e metodologia próprias.
A Gerp indicou 53% para Flávio e 47% para Lula, repetindo a distância identificada em sua rodada imediatamente anterior.
A Palver registrou 50% para Flávio e 48% para Lula nos votos totais, enquanto a Veritá apresentou 50,7% para o senador e 49,3% para o presidente nos válidos.
A existência de resultados diferentes dentro do mesmo intervalo de divulgação reforça a necessidade de examinar cada pesquisa individualmente.
“Por isso, não é adequado comparar diretamente pesquisas que utilizam metodologias diferentes. A comparação é mais consistente quando os levantamentos adotam critérios semelhantes”, orienta Martins.
Quinta-feira
O Datafolha divulgou na quinta-feira (22) sua pesquisa mais recente no período analisado. Nos votos válidos, Lula e Flávio apareceram com 50% cada.
Na rodada de 15 de outubro, o instituto havia registrado 51% para Flávio e 49% para Lula. A diferença numérica desapareceu, mas o movimento ocorreu dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
A PoderData também apresentou redução da distância entre os concorrentes. Flávio passou de 52% para 51% dos votos válidos, enquanto Lula passou de 48% para 49%, na comparação com a rodada de 19 de outubro.
A Indexa/Broadcast registrou 50,6% para o senador e 49,4% para o presidente, enquanto outras pesquisas continuaram indicando empate técnico.
As diferenças entre as amostras mostram que uma mudança numérica pequena não pode ser automaticamente descrita como crescimento consolidado.
“Uma variação numérica entre dois levantamentos não significa, necessariamente, que houve crescimento ou queda real. É preciso avaliar se essa movimentação é consistente e considerar as condições em que cada pesquisa foi realizada”, ressalta Martins.
Última sexta
Quatro levantamentos divulgados nesta sexta-feira (23) apresentaram novos resultados para a eleição marcada para domingo (25).
A Real Time Big Data manteve Flávio com 52% e Lula com 48% dos votos válidos. Foram entrevistadas 2 mil pessoas entre 19 e 22 de outubro, com margem de erro de dois pontos percentuais.
A Vox Brasil registrou Lula com 50,6% e Flávio com 49,4%. O instituto ouviu 2.100 eleitores entre 20 e 22 de outubro, com margem de erro de 2,15 pontos.
Já a Alfa Inteligência apontou 52% para o senador e 48% para o presidente nos votos válidos. O levantamento teve 2.700 participantes e margem de erro de 1,9 ponto percentual.
O Ipespe/Abrapel apresentou 50,5% para Flávio e 49,5% para Lula, após entrevistar 1.500 pessoas. A margem informada foi de 2,6 pontos percentuais.
Na comparação interna, a Vox registrou uma oscilação da vantagem numérica de Lula, que passou de dois para 1,2 ponto.
Na Ipespe, a distância favorável a Flávio caiu de 2,4 para um ponto. A Real Time permaneceu estável nos votos válidos, enquanto a Alfa apresentou diferença um pouco maior do que na rodada anterior.
Rejeição eleitoral
A rejeição aos candidatos aparece entre os indicadores que ajudam a explicar por que as diferenças nas intenções de voto permanecem pequenas.
Na pesquisa Datafolha de 22 de outubro, Flávio registrou 46% de rejeição e Lula, 45%. A diferença de um ponto ficou abaixo da margem de erro do levantamento.
Na Quaest, os percentuais foram de 52% para o senador e 47% para o presidente. A pesquisa Meio/Ideia apresentou uma distribuição diferente, com rejeição de 47,7% a Lula e 46,5% a Flávio.
Martins explica que a rejeição pode influenciar o voto mesmo quando um candidato não reúne identificação plena com parte do eleitorado.
“Há eleitores que, mesmo não estando totalmente satisfeitos com um candidato, rejeitam ainda mais o adversário, e isso pode influenciar diretamente sua decisão”, afirma.
O professor acrescenta que o segundo turno pode intensificar escolhas motivadas pela avaliação negativa do concorrente, e não apenas pela preferência positiva por determinado programa político.
Votos indefinidos
A proporção de eleitores dispostos a reconsiderar o voto também oferece informações relevantes.
No Datafolha, 94% declararam ter a decisão totalmente definida. Já a Nexus identificou 90,9% de entrevistados que afirmaram não pretender mudar sua escolha.
Esses indicadores sugerem que grande parte dos participantes das respectivas pesquisas já havia decidido seu voto no momento das entrevistas.
Entretanto, não medem necessariamente quantas pessoas mudarão de posição até o domingo.
“Também é importante acompanhar os indecisos, a transferência de votos e o comportamento de quem pretende votar branco ou nulo”, recomenda Martins.
Outra variável é a participação eleitoral. A decisão de comparecer às urnas pode interferir no resultado, especialmente quando a disposição de votar varia entre grupos sociais e regiões.
Na pesquisa PoderData divulgada em 22 de outubro, 95% dos entrevistados afirmaram que pretendiam votar.
“Existe ainda o chamado voto útil, quando o eleitor escolhe determinado candidato levando em consideração as chances que ele tem de vencer”, acrescenta o especialista.
Diferenças regionais
Os recortes geográficos ajudam a identificar como a disputa se distribui pelo país.
Na Vox Brasil divulgada em 23 de outubro, Lula apresentou percentuais superiores nas regiões Norte e Nordeste, enquanto Flávio obteve resultados mais elevados no Sul e no Centro-Oeste.
O levantamento DataTrends também registrou vantagem de Lula no Nordeste, enquanto o senador apareceu numericamente à frente no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Os percentuais regionais exigem atenção particular porque cada recorte utiliza uma parcela menor da amostra nacional. A margem de erro para esses segmentos pode ser superior à informada para o conjunto do levantamento.
“Região, renda e idade, por exemplo, ajudam a identificar onde determinadas movimentações do eleitorado estão acontecendo e dão uma leitura mais completa da disputa”, destaca Martins.
As diferenças também podem refletir características da composição socioeconômica dos entrevistados e do processo de ponderação dos resultados.
Limites estatísticos
O conjunto de levantamentos divulgados durante a semana registra diferenças importantes entre institutos, mas não oferece uma medida única sobre o comportamento da disputa.
Mesmo quando vários resultados apontam vantagens numéricas semelhantes, isso não elimina as incertezas associadas à coleta, à seleção dos participantes ou às respostas declaradas.
Martins considera necessário observar também os acontecimentos políticos ocorridos entre as entrevistas.
“Falas dos candidatos, decisões de governo ou propostas apresentadas durante a campanha podem alterar a percepção do eleitor e produzir movimentos na intenção de voto”, explica.
A hipótese, entretanto, precisa ser demonstrada por dados específicos. A simples coincidência entre um acontecimento político e uma oscilação percentual não comprova uma relação de causa e efeito.
Para o pesquisador, o período de coleta continua sendo um elemento indispensável da análise.
“A pesquisa não representa um resultado definitivo, mas uma fotografia daquele momento. Além disso, o eleitor pode mudar de opinião ao longo do tempo ou até não revelar efetivamente em quem pretende votar.”
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