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Geopolítica

Depois de Flávio, as urnas dos EUA testam o poder de Trump

Segundo turno brasileiro acontece em 25 de outubro; nove dias depois, americanos renovam o Congresso

Trump
Se Flávio Bolsonaro vencer, relação com Trump e Marco Rubio começará enquanto Washington redefine o poder político do republicano Foto: History in HD/Unsplash

Se Flávio Bolsonaro (PL) vencer Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno de 25 de outubro, sua primeira grande relação internacional já começará sob teste.

Apenas nove dias depois, em 3 de novembro, os Estados Unidos realizam suas eleições de meio de mandato, que decidirão o controle da Câmara e de parte do Senado.

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Não se trata de uma nova eleição presidencial americana. Donald Trump continuará presidente independentemente do resultado de novembro.

O que estará em disputa é a capacidade do republicano de governar durante a segunda metade do mandato com um Congresso aliado ou diante de uma oposição democrata fortalecida.

Hoje, os republicanos controlam o Senado por 53 a 47 e mantêm uma vantagem estreita de 218 a 214 na Câmara.

Porém, Trump chega a outubro com aprovação de 32%, enquanto democratas lideram os republicanos por 44% a 37% entre eleitores registrados.

Para o Brasil, esse resultado ganha importância adicional porque Flávio já construiu uma relação direta com Trump e Marco Rubio, secretário de Estado e um dos principais responsáveis pela política americana para a América Latina.

Se os dois calendários produzirem vitórias para a direita, Brasília e Washington poderão iniciar 2027 com governos politicamente próximos. Mas proximidade ideológica não significa ausência de conflito.

Relação construída

Flávio não precisaria chegar à Presidência para ser apresentado à Casa Branca. Em maio, ainda durante a pré-campanha, ele foi recebido por Donald Trump no Salão Oval.

O senador afirmou após o encontro que havia pedido aos Estados Unidos a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas.

No dia seguinte, reuniu-se também com integrantes do governo e posteriormente com Marco Rubio.

O Brasilianista já mostrou que essa interlocução continuou depois da viagem. Flávio enviou a Rubio uma carta pedindo que Washington não impusesse novas tarifas ao Brasil e prometeu, caso eleito, trabalhar por um acordo mais amplo de comércio e investimentos com os Estados Unidos.

Rubio rejeitou o pedido e sustentou que permaneciam divergências relacionadas a comércio digital, serviços de pagamento, propriedade intelectual, etanol, desmatamento e outras áreas.

Rubio pode funcionar como ponte política para Flávio, mas continuará defendendo os interesses econômicos americanos mesmo quando eles colidirem com os brasileiros.

Papel de Rubio

É Marco Rubio, e não Trump, quem tende a ocupar o cotidiano da relação diplomática.

Como secretário de Estado, ele conduz grande parte da política externa do governo e assumiu uma agenda especialmente ativa na América Latina.

Nos últimos meses, Washington ampliou iniciativas contra cartéis, aprofundou alianças de segurança no continente e buscou reduzir a influência chinesa em setores estratégicos.

Essa agenda conversa diretamente com parte das propostas de Flávio. A equipe do candidato estuda uma reforma do Itamaraty inspirada em mudanças promovidas por Rubio no Departamento de Estado.

A proposta inclui concentrar esforços diplomáticos em países considerados prioritários, estabelecer metas comerciais para postos no exterior e modificar critérios de promoção na carreira. A campanha não confirmou oficialmente todo o projeto.

Um eventual governo Flávio poderia importar para a diplomacia brasileira parte da visão adotada pelo trumpismo, maior prioridade para relações bilaterais, segurança, comércio e países considerados estratégicos, com menor entusiasmo por determinadas estruturas multilaterais.

Novembro americano

Antes disso, Trump precisa passar pelo teste de 3 de novembro. As eleições de midterm renovam toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado.

O presidente não aparece na cédula, mas o resultado costuma funcionar como um julgamento político dos dois primeiros anos de governo.

Neste ano, o próprio Trump decidiu assumir papel central na campanha. Ele anunciou uma maratona eleitoral de 32 dias e pediu aos republicanos que tratem novembro como se seu próprio nome estivesse nas urnas.

O cenário é particularmente importante na Câmara. Os republicanos possuem uma maioria mínima e enfrentam risco real de perdê-la.

No Senado, os democratas precisam obter quatro cadeiras líquidas para assumir o controle.

Se Trump mantiver as duas Casas, terá muito mais espaço político para aprofundar a agenda externa durante os dois últimos anos de mandato.

Se perder uma ou ambas, continuará controlando a diplomacia e possuindo amplos poderes presidenciais, mas poderá enfrentar mais investigações, bloqueios orçamentários e resistência legislativa.

Primeiro encontro

Caso vença em 25 de outubro, Flávio iniciará a transição enquanto os americanos ainda estiverem votando.

A posse brasileira acontecerá apenas em 5 de janeiro de 2027. Quando assumir, o novo Congresso americano já terá sido eleito e estará entrando em funcionamento.

Isso significa que a configuração política de Washington estará praticamente definida antes mesmo de o próximo presidente brasileiro subir a rampa do Planalto.

Uma vitória republicana poderia oferecer a Flávio um ambiente excepcionalmente favorável.

Uma vitória democrata mudaria parte desse cenário. O diálogo entre os presidentes poderia continuar próximo, mas acordos que dependam de recursos, mudanças legislativas ou autorizações do Congresso encontrariam um ambiente mais difícil.

China limita

Há ainda um obstáculo muito maior do que o Congresso, a China. Flávio afirma publicamente que não pretende obrigar o Brasil a escolher entre Washington e Pequim.

Durante a campanha, porém, setores da indústria relataram dificuldade para obter posições mais detalhadas do candidato sobre a relação comercial com os chineses.

O motivo é econômico. De janeiro a agosto de 2026, a China recebeu US$ 77,1 bilhões em exportações brasileiras, equivalentes a 30,7% de tudo que o Brasil vendeu ao exterior.

Os Estados Unidos compraram US$ 24,1 bilhões, ou 9,6% das exportações brasileiras no período.

Isso impõe um limite estrutural ao alinhamento ideológico. Flávio pode aproximar Brasília de Washington em segurança, defesa, política externa e costumes.

Mas romper ou reduzir drasticamente a relação econômica com Pequim teria consequências diretas para agronegócio, mineração, indústria, infraestrutura e investimentos.

O ex-embaixador americano no Brasil Thomas Shannon resumiu recentemente esse problema ao avaliar que uma relação Flávio-Trump seria mais complexa do que seus apoiadores imaginam.

Para ele, o tamanho do Brasil, seus interesses de segurança e suas relações com China e Europa impedem que o país simplesmente reproduza o alinhamento observado em nações menores.

Minerais estratégicos

Washington considera esses recursos fundamentais para tecnologia, defesa, baterias, semicondutores e inteligência artificial.

O governo Trump vem pressionando países latino-americanos para reduzir a dependência chinesa nessas cadeias.

O Brasil possui reservas estratégicas e já se tornou objeto dessa disputa.

Dentro do próprio governo Trump houve neste ano uma tensão entre a ala que defendia maior apoio político a Flávio e setores interessados em preservar negociações com o governo brasileiro para garantir acesso a terras raras.

Se Flávio vencer, esse dilema não desaparecerá. Ao contrário, Washington poderá encontrar um governo ideologicamente mais receptivo, o que pode aumentar a pressão americana por participação em mineração, tecnologia e cadeias industriais brasileiras.

Segurança regional

O segundo eixo será a segurança. Durante a visita a Trump, Flávio colocou o PCC e o Comando Vermelho entre os principais assuntos.

Ele também sinalizou interesse em aproximar o Brasil do Shield of the Americas, iniciativa liderada pelos Estados Unidos para aprofundar cooperação contra organizações criminosas transnacionais.

Esse talvez seja o campo de convergência mais imediato. Trump transformou combate a cartéis em uma das prioridades de sua política para o continente e passou a tratar determinadas organizações criminosas como ameaças de segurança nacional.

Um governo Flávio poderia ampliar compartilhamento de inteligência, cooperação policial, operações financeiras contra lavagem de dinheiro e colaboração militar.

Mas também haveria limites. Uma presença militar americana maior na América do Sul ou operações conduzidas sob liderança direta de Washington poderiam gerar resistência dentro das próprias Forças Armadas brasileiras e abrir discussão sobre soberania.

Tarifas permanecem

A própria história de Flávio com Rubio mostra que afinidade política não basta para resolver comércio.

Quando Washington anunciou tarifas sobre produtos brasileiros, o senador pediu diretamente ao secretário de Estado que as medidas fossem suspensas.

Rubio disse não. O governo americano manteve críticas a práticas comerciais brasileiras, enquanto o representante comercial Jamieson Greer apontou divergências envolvendo Pix, etanol, propriedade intelectual e comércio digital.

O Brasilianista destacou que Flávio prometeu retomar imediatamente a negociação de um amplo acordo comercial caso chegue ao Planalto.

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