Nesta quarta-feira (21), Brendan Carr, presidente da Comissão Federal de Comunicações (FCC), órgão responsável pela regulação das emissoras de rádio e televisão, advertiu que veículos podem violar as condições de suas licenças ao transmitir pesquisas consideradas falsas.
A declaração ocorreu a menos de três semanas das eleições legislativas de 3 de novembro e retomou um argumento utilizado por Trump para questionar levantamentos desfavoráveis a seu governo.
A advertência surgiu depois que uma organização chamada Wedgewood Polls admitiu ter inventado resultados de pesquisas eleitorais divulgadas nos últimos meses.
Em setembro, a Justiça havia rejeitado uma ação de Trump contra o jornal Des Moines Register e a pesquisadora Ann Selzer, acusados pelo presidente de manipular uma pesquisa publicada antes da eleição de 2024.
Ameaça regulatória
Brendan Carr afirmou que emissoras sujeitas à fiscalização da FCC precisam observar as regras que proíbem a distorção deliberada de notícias.
Segundo o dirigente, a circulação de levantamentos fabricados poderia afetar a participação dos eleitores e interferir no funcionamento das eleições legislativas.
Em publicação na rede social X, Carr declarou que houve um aumento significativo de pesquisas inteiramente falsas e de levantamentos destinados a desestimular determinados grupos de eleitores.
During this election season, there has been a significant surge in entirely Fake Polls and Suppression Polls designed to do nothing more than interfere with the regular functioning of the electoral process and alter the normal patterns of voter turnout and enthusiasm. Many journalists and broadcasters have been amplifying or airing these Polls without regard to basic journalistic ethics and without informing the public that those Polls lack a scientific, accurate, or even real basis. The FCC takes these issues seriously. Broadcasters are prohibited by the terms of their federal licenses from engaging in News Distortion or promoting Broadcast Hoaxes. It is important that broadcasters comply with their public interest obligations. After all, the country benefits greatly when Americans can trust and rely on the media to report the news fairly and accurately. Broadcasters are advised to avoid engaging in News Distortions or running Broadcast Hoaxes by airing Polls that would violate their regulatory obligations. If broadcasters believe they should provide their viewers with additional context and information about Polls they have covered, they can now take those actions consistent with FCC regulations.
— Brendan Carr (@BrendanCarrFCC) October 21, 2026
O presidente da agência sugeriu que sua divulgação poderia caracterizar descumprimento das obrigações assumidas pelas emissoras.
A declaração foi interpretada por organizações de defesa da imprensa como uma ameaça ao exercício do jornalismo.
Embora a FCC possua instrumentos para investigar irregularidades cometidas por estações licenciadas, sua competência não inclui fiscalização generalizada de todos os veículos jornalísticos.
A agência regula estações de rádio e televisão que utilizam frequências públicas. Isso não significa que possa determinar diretamente o conteúdo editorial de jornais impressos, plataformas digitais ou canais de televisão por assinatura.
Carr também não identificou, em sua manifestação, quais emissoras teriam deliberadamente divulgado levantamentos fraudulentos nem apresentou provas de que veículos específicos conheciam a falsidade dos dados publicados.
Fraude comprovada
O alerta ocorreu um dia depois de uma revelação sobre a Wedgewood Polls, organização que divulgou pesquisas relacionadas às eleições legislativas de novembro.
Em 20 de outubro, o agregador de pesquisas FiftyPlusOne identificou inconsistências nos dados apresentados pela organização.
Os pesquisadores solicitaram informações sobre os entrevistados e examinaram registros que deveriam corresponder aos dados produzidos por uma plataforma utilizada para coletar respostas.
As informações fornecidas pela Wedgewood apresentavam padrões incompatíveis com aqueles observados em levantamentos legítimos realizados pelo mesmo fornecedor. Após ser questionada, a organização reconheceu que havia fabricado resultados.
Em manifestação pública, a Wedgewood classificou a iniciativa como um experimento destinado a demonstrar fragilidades na fiscalização do setor de pesquisas.
Seus responsáveis alegaram que pretendiam mostrar como levantamentos sem base real poderiam conquistar espaço no debate eleitoral.
A justificativa foi contestada pelo FiftyPlusOne, que havia realizado verificações sobre a identidade dos responsáveis e a metodologia apresentada pela empresa antes de incluir seus resultados.
Os dados fabricados chegaram a circular em agregadores acompanhados por jornalistas e campanhas eleitorais, incluindo o sistema de pesquisas do New York Times. Depois da revelação, os levantamentos foram retirados dessas bases.
Pesquisa contestada
A relação de Trump com os institutos de opinião já havia provocado uma disputa judicial após a eleição presidencial de 2024.
Em 2 de novembro daquele ano, o Des Moines Register publicou uma pesquisa elaborada por Ann Selzer, profissional reconhecida por levantamentos realizados durante quase quatro décadas no estado de Iowa.
O estudo indicava Kamala Harris com 47% das intenções de voto, contra 44% de Trump.
Três dias depois, o resultado das urnas foi muito diferente. Trump venceu em Iowa com aproximadamente 56% dos votos, abrindo uma vantagem superior a 13 pontos percentuais.
Em dezembro de 2024, o republicano acionou judicialmente a pesquisadora, sua empresa e o jornal, controlado pelo grupo Gannett.
A ação sustentava que o levantamento havia sido manipulado para prejudicar sua campanha e favorecer a candidata democrata.
Trump afirmou que a divulgação representava interferência eleitoral e tentou enquadrar o episódio na legislação de proteção ao consumidor de Iowa.
A acusação considerava que a pesquisa e sua publicação teriam produzido uma representação fraudulenta do cenário eleitoral.
A defesa de Selzer e do jornal contestou a aplicação dessa legislação ao trabalho jornalístico.
Os advogados argumentaram que pesquisas eleitorais são formas de expressão política protegidas pela Primeira Emenda da Constituição norte-americana, mesmo quando apresentam resultados incorretos.
Derrota judicial
Em 23 de setembro de 2026, o juiz Scott Beattie, do estado de Iowa, rejeitou a ação apresentada por Trump, pela deputada republicana Mariannette Miller-Meeks e pelo ex-senador estadual Brad Zaun.
A decisão reconheceu que a pesquisa publicada em 2024 apresentou resultados diferentes daqueles posteriormente registrados nas urnas, mas considerou que o erro não era suficiente para caracterizar fraude.
O magistrado explicou que levantamentos de opinião são necessariamente incertos e que a divulgação de informações sobre disputas eleitorais constitui atividade protegida pela liberdade de expressão.
A sentença também abordou o risco de permitir que agentes políticos utilizem processos judiciais para punir pesquisas cujos resultados considerem prejudiciais.
Para Beattie, acolher uma interpretação excessivamente ampla da legislação antifraude poderia desestimular a publicação de levantamentos e o debate de assuntos de interesse público.
A ação foi rejeitada com impedimento de reapresentação das mesmas alegações naquele processo.
A decisão não declarou que pesquisas eleitorais estejam imunes a qualquer responsabilização, mas afastou a tentativa de tratar o erro daquele levantamento como fraude contra consumidores.
A defesa de Selzer, apoiada pela organização Foundation for Individual Rights and Expression (FIRE), havia sustentado durante o processo que a Constituição não permite transformar divergências sobre resultados eleitorais em motivo automático para responsabilização judicial de pesquisadores e jornalistas.
Anna Gomez, integrante democrata da FCC, contestou a interpretação apresentada por Brendan Carr.
Segundo ela, a responsabilização por distorção de notícias exige demonstração de que uma emissora alterou intencionalmente informações relevantes.
A comissária defendeu que veículos não sejam punidos simplesmente por divulgar pesquisas disponíveis publicamente que posteriormente se revelem incorretas.
A decisão judicial sobre Ann Selzer também abordou essa distinção. O juiz Scott Beattie considerou que a proteção constitucional conferida às pesquisas eleitorais não desaparece porque seus resultados deixam de corresponder à votação efetivamente registrada.
Limites da FCC
A FCC é uma agência federal independente responsável por regular serviços de comunicação nos Estados Unidos.
Entre suas atribuições estão a administração de frequências e o licenciamento de emissoras de rádio e televisão aberta.
A agência possui normas contra a fabricação deliberada de notícias. Entretanto, a aplicação dessas regras exige critérios específicos e não concede ao governo o poder de decidir quais interpretações jornalísticas são aceitáveis.
Outra norma, relacionada à transmissão de notícias falsas sobre crimes e catástrofes, exige que a emissora conheça a falsidade da informação e que sua divulgação provoque dano público substancial. Seu objeto original é diferente da publicação de pesquisas eleitorais.
A entidade Freedom of the Press Foundation também reagiu. Em manifestação divulgada em 21 de outubro, o diretor de advocacy Seth Stern criticou a tentativa de ampliar a fiscalização sobre o conteúdo jornalístico.
“A FCC não é a polícia do jornalismo”, declarou Stern.
A organização argumenta que emissoras possuem proteção constitucional para divulgar pesquisas de opinião, inclusive quando os resultados se mostram incorretos, desde que não estejam deliberadamente participando de uma fraude.
Pressão sobre ABC
A advertência sobre pesquisas ocorreu em meio a uma disputa mais ampla entre o governo Trump e a rede ABC, pertencente ao grupo Disney.
Em 28 de abril de 2026, a FCC determinou uma revisão antecipada das licenças das oito estações de televisão controladas diretamente pela empresa.
Os registros oficiais mostram que essas autorizações não precisariam ser renovadas antes de 2028.
A agência justificou a medida pela existência de investigações relacionadas ao cumprimento de normas federais, incluindo possíveis irregularidades nas práticas de contratação e promoção de funcionários.
Carr negou ter recebido pressão da Casa Branca para iniciar o procedimento. Segundo ele, a análise antecipada estava relacionada a questões regulatórias e não ao conteúdo político da programação.
A Disney apresentou uma interpretação diferente. Em agosto, a companhia e a ABC recorreram à Justiça federal para impedir o procedimento, acusando a administração Trump de utilizar a fiscalização das licenças como instrumento de retaliação.
A ação menciona episódios em que o presidente criticou programas e apresentadores da emissora, incluindo Jimmy Kimmel e o programa The View.
A ABC também questionou exigências para apresentar documentos internos relacionados à escolha de convidados, à produção de entrevistas e às decisões editoriais de seus programas jornalísticos.
A companhia argumentou que essas solicitações ultrapassam a fiscalização das obrigações legais de uma emissora e permitem ao governo examinar critérios de produção de conteúdo protegidos pela Primeira Emenda.
A FCC contestou as acusações e sustentou que suas investigações seguem as normas aplicáveis, independentemente das posições políticas das empresas fiscalizadas.
Credibilidade em disputa
O episódio da Wedgewood evidencia uma vulnerabilidade concreta do mercado norte-americano.
A organização conseguiu fazer resultados inventados circularem entre jornalistas e agregadores antes de admitir a fabricação dos dados.
Nesse caso, a identificação da fraude ocorreu por meio de análise metodológica independente.
Os pesquisadores do FiftyPlusOne examinaram informações brutas, verificaram inconsistências nos registros e confrontaram os dados fornecidos com os padrões técnicos da plataforma de entrevistas.
A investigação oferece um exemplo de fiscalização baseada em evidências, diferente da simples classificação de pesquisas desfavoráveis como falsas.
A repercussão do caso também levou veículos a retirar os levantamentos fabricados de seus bancos de dados.
O New York Times informou que excluiu os resultados da Wedgewood de seu acompanhamento eleitoral depois da admissão de fraude.
O conflito com o governo surge quando a crítica a erros metodológicos passa a ser acompanhada da possibilidade de punição estatal aos veículos responsáveis pela divulgação.
Nos Estados Unidos, essa tensão envolve a Primeira Emenda, que protege a liberdade de expressão e de imprensa, e as competências administrativas da FCC.
Eleições de novembro
A disputa ocorre às vésperas das eleições de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro, quando os norte-americanos escolherão representantes para a Câmara e disputarão parte das vagas do Senado, além de governos estaduais e cargos locais.
As pesquisas têm papel importante na cobertura dessas eleições porque mostram a avaliação do governo, as preferências partidárias e o comportamento dos eleitores em estados competitivos.
Um levantamento Washington Post–ABC News–Ipsos realizado de 9 a 13 de outubro identificou que sete em cada dez norte-americanos duvidavam que Trump aceitaria uma derrota dos republicanos nas eleições legislativas.
A pesquisa ouviu 2.545 adultos e apresentou margem de erro de dois pontos percentuais.
O resultado também mostrou que 60% dos entrevistados acreditavam que as eleições seriam justas, enquanto 65% confiavam na precisão da contagem dos votos.
A pesquisa foi divulgada em 20 de outubro, um dia antes da advertência de Carr sobre levantamentos supostamente falsos.
Não há elementos que demonstrem que o presidente da FCC tenha direcionado sua manifestação especificamente a esse estudo.
Enquanto a agência discute a aplicação das regras sobre distorção de notícias, a Disney mantém sua contestação judicial à revisão antecipada das licenças da ABC.
O procedimento administrativo envolve oito estações controladas pela empresa, cujas autorizações originais tinham renovação prevista para os anos seguintes.
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