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Justiça

Instagram pode ter descumprido regra eleitoral do TSE, aponta estudo

Pesquisa do Instituto Democracia em Xeque identificou aumento de visualizações de candidatos na plataforma, enquanto TikTok registrou queda de até 97%

Instagram
Nikolas Ferreira teve 11 vídeos com alcance superior ao número de seguidores durante a restrição (Foto: Berke Citak/Unsplash)

O Instagram apresenta indícios de possível descumprimento das regras eleitorais que impedem as plataformas digitais de recomendar perfis e conteúdos de candidatos durante a campanha de 2026.

Um levantamento do Instituto Democracia em Xeque (DX), divulgado na quarta-feira (21), identificou que as visualizações das publicações de candidatos não diminuíram na rede social durante a vigência da restrição determinada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

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O comportamento contrasta com o registrado no TikTok, onde os perfis declarados à Justiça Eleitoral tiveram redução relativa estimada de 97% nas visualizações.

O estudo analisou 2.258 políticos brasileiros, incluindo 2.076 candidatos e 182 ocupantes de cargos eletivos que não disputaram as eleições, além de contas utilizadas como grupo de comparação.

Entre os casos examinados está o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), cujos vídeos apresentaram crescimento expressivo ainda durante o período em que a recomendação de conteúdos eleitorais estava restrita.

Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que os números públicos não permitem determinar se as visualizações foram produzidas pelos algoritmos de recomendação, por compartilhamentos ou por outros mecanismos de circulação.

Regra eleitoral

A restrição está prevista no artigo 28, parágrafo 1º-A, da Resolução nº 23.610/2019 do TSE, incluído em 2024.

A norma determina que plataformas com sistemas de recomendação excluam dos resultados os perfis informados à Justiça Eleitoral pelos candidatos e os conteúdos publicados nessas contas, ressalvadas as hipóteses legais de impulsionamento pago.

No Instagram, a determinação alcança mecanismos que apresentam publicações a pessoas que não seguem determinada conta, como recomendações na aba Reels, na seção Explorar e no feed.

A medida passou a valer com o início da campanha, em 16 de agosto. Seu objetivo é impedir que os sistemas automatizados das plataformas ampliem espontaneamente a distribuição dos conteúdos de candidatos submetidos à restrição.

O estudo do DX examinou publicações realizadas entre 1º de fevereiro e 20 de outubro, comparando o desempenho dos candidatos durante a campanha com o período de fevereiro a junho.

Para identificar mudanças específicas, os pesquisadores também analisaram contas de influenciadores, veículos de imprensa e políticos que não disputaram a eleição.

A comparação permitiu observar se o comportamento das publicações de candidatos foi diferente daquele registrado em perfis que não estavam submetidos à mesma restrição.

Instagram na contramão

No Instagram, as visualizações dos candidatos aumentaram aproximadamente 8% em relação às contas de controle durante a campanha.

Entre os perfis oficialmente declarados ao TSE, a variação relativa estimada foi de 6%, resultado que não apresentou significância estatística.

As interações, que incluem curtidas, comentários e compartilhamentos, diminuíram 12%.

Nos perfis declarados, a redução foi de 13%, enquanto contas não declaradas dos mesmos candidatos apresentaram aumento de 5%.

O comportamento foi diferente do observado no TikTok. Na plataforma, as visualizações dos candidatos caíram 95% em relação às contas de controle.

Quando considerados somente os perfis declarados à Justiça Eleitoral, a redução chegou a 97%, contra 33% nas contas não declaradas.

A diferença também apareceu em outras plataformas. O X registrou queda relativa de aproximadamente 50% nas visualizações dos candidatos, enquanto o YouTube apresentou redução de 45%. No Facebook, também pertencente à Meta, a diminuição foi de 19%.

Alcance de Nikolas

O deputado federal Nikolas Ferreira apresentou um dos resultados mais expressivos identificados pelos pesquisadores.

Com aproximadamente 22,3 milhões de seguidores no Instagram, o parlamentar publicou 42 reels durante a vigência da restrição eleitoral. Desse total, 17 ultrapassaram o próprio número de seguidores em visualizações.

O desempenho se intensificou a partir de 28 de setembro, antes do primeiro turno presidencial.

Entre aquela data e 9 de outubro, 11 dos 13 vídeos publicados pelo deputado superaram a quantidade de seguidores de sua conta.

A mediana de visualizações dessas publicações chegou a 35,9 milhões, aproximadamente três vezes o resultado do período anterior, quando estava em 12 milhões.

Os pesquisadores também compararam o desempenho do parlamentar com o de outras contas políticas de grande alcance.

Considerando o tamanho de seu perfil, Nikolas apresentou uma quantidade de visualizações 54 vezes superior à esperada pelo modelo estatístico utilizado no estudo.

O crescimento ocorreu antes de 9 de outubro, quando o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, encaminhou um ofício às plataformas restringindo a obrigação de não recomendação aos perfis dos candidatos que continuavam na disputa pelo segundo turno.

Em 20 de outubro, um novo vídeo de Nikolas alcançou 103,2 milhões de visualizações em aproximadamente nove horas, segundo os registros examinados pelo DX.

O resultado foi 2,7 vezes superior ao maior número registrado por qualquer outro parlamentar ou presidenciável da amostra em 2026.

Reels milionários

O comportamento identificado em Nikolas também apareceu em outras contas de candidatos com grandes audiências.

Entre os 85 perfis declarados ao TSE que possuíam mais de um milhão de seguidores no Instagram, 55 tiveram ao menos um reel com visualizações superiores ao número de seguidores durante a restrição.

Antes da campanha, entre junho e 15 de agosto, 2,9% dos vídeos publicados por esse grupo ultrapassaram a quantidade de seguidores. Durante a vigência da regra, o percentual passou para 3%.

Os pesquisadores esperavam encontrar uma redução dessa frequência, considerando que a exclusão dos sistemas de recomendação deveria diminuir a circulação de publicações para usuários que não acompanham diretamente os candidatos.

O resultado também foi comparado ao de influenciadores políticos com mais de um milhão de seguidores, cujos vídeos acima do tamanho da própria audiência passaram de 1,6% para 2,2% no mesmo intervalo.

No TikTok, nenhum dos 1.479 vídeos publicados durante a restrição pelos 18 candidatos com mais de um milhão de seguidores ultrapassou esse limite.

A comparação não comprova que os conteúdos brasileiros tenham recebido distribuição algorítmica irregular.

Visualizações acima do número de seguidores também podem ocorrer por compartilhamentos, acessos externos, reprodução repetida e publicidade paga.

Diferenças políticas

O levantamento também identificou comportamentos distintos conforme o campo político dos candidatos.

No Instagram, a mediana das visualizações caiu 11% entre perfis classificados como de direita, aumentou 2% entre os de centro e cresceu 14% entre os de esquerda.

Apesar da redução proporcional, os candidatos de direita mantiveram maior alcance mediano durante todo o período analisado.

Segundo o instituto, suas publicações registraram aproximadamente 1,6 vez a mediana de visualizações dos candidatos de esquerda.

No Facebook, os resultados foram diferentes. As visualizações dos candidatos de direita caíram 71%, enquanto os perfis de centro registraram redução de 64% e os de esquerda, de 55%.

A diferença entre o Instagram e o Facebook chama atenção porque ambos pertencem à Meta.

Entretanto, as redes possuem públicos, formatos de conteúdo e mecanismos de distribuição próprios, elementos que também podem influenciar as métricas.

Meta responde

As dúvidas sobre o funcionamento dos algoritmos surgem em meio a outras controvérsias envolvendo a Meta durante a eleição presidencial.

Mensagens internas que apontavam restrições prejudiciais a contas de Lula e recomendação algorítmica do perfil de Flávio Bolsonaro, em situações questionadas à luz das regras eleitorais.

Em manifestação divulgada em 16 de outubro, a Meta negou interferência nas eleições brasileiras e atribuiu os episódios relatados a incidentes técnicos.

A empresa também mantém, desde fevereiro de 2024, uma política própria para restringir recomendações de conteúdo político de contas que os usuários não seguem no Instagram e no Threads.

Em relação ao estudo do DX, a Folha informou que procurou a companhia, mas não recebeu posicionamento até a publicação da reportagem nesta quinta-feira (22).

Transparência cobrada

O Instituto Democracia em Xeque defende que a Meta apresente informações capazes de esclarecer como a regra eleitoral foi implementada no Instagram entre 16 de agosto e 9 de outubro.

Entre os dados considerados necessários estão as datas de ativação das restrições, a relação dos perfis efetivamente excluídos dos sistemas de recomendação e os mecanismos utilizados para distribuir os conteúdos durante a campanha.

O instituto também aponta a necessidade de identificar a origem das visualizações.

Outra questão envolve o impulsionamento pago. A legislação eleitoral admite determinadas modalidades de publicidade, mas as informações públicas analisadas não permitem estabelecer qual parcela das visualizações resultou dessas contratações.

Os pesquisadores também pedem esclarecimentos sobre as mudanças implementadas depois do primeiro turno, especialmente após o ofício do TSE de 9 de outubro que alterou o alcance da restrição para candidatos que não avançaram à segunda votação.

O Brasilianista traz mais conteúdos nas redes sociais