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Política

A esquerda contra Lula

Governador do PT rejeita proposta do presidente para reduzir a maioridade penal, senadores divergem sobre segurança pública e deputada do PSOL cobra mudanças na campanha

Luiz Inácio Lula da Silva
Críticas expõem diferenças políticas mesmo entre aliados que defendem a reeleição do petista (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega à reta final da eleição presidencial de 2026 enfrentando críticas de integrantes de sua própria base política.

A decisão de defender a redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos provocou divergências entre parlamentares petistas e contrariou a posição de aliados históricos.

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Ao mesmo tempo, políticos da esquerda questionam a organização da campanha, a comunicação com o eleitorado e a dificuldade de renovar as lideranças do campo progressista.

As discordâncias ganharam força depois do primeiro turno, realizado em 4 de outubro, quando Lula terminou atrás de Flávio Bolsonaro (PL).

Entre os políticos que apresentaram críticas ou posições diferentes das adotadas pelo presidente estão o governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT), os senadores Jaques Wagner (PT-BA), Teresa Leitão (PT-PE) e Rogério Carvalho (PT-SE), além da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP).

Maioridade penal

Uma das principais divisões começou em 15 de outubro, quando Lula declarou, durante entrevista ao Jornal Nacional, ser favorável à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes hediondos.

A posição contrariou o discurso que o próprio presidente sustentou em diferentes momentos de sua trajetória política, quando defendia o investimento em educação e oportunidades para adolescentes como alternativa ao endurecimento penal.

A mudança ocorreu durante a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição da Segurança Pública.

A oposição apresentou uma emenda para reduzir a maioridade penal para 16 anos como regra geral e permitir a responsabilização a partir dos 14 anos em determinados crimes graves.

Em resposta, o senador Camilo Santana (PT-CE), coordenador da campanha de Lula, articulou uma proposta mais restrita, destinada a adolescentes de 16 e 17 anos envolvidos em crimes hediondos.

A iniciativa encontrou resistência no próprio PT. Jaques Wagner (PT-BA), que inicialmente havia apoiado a emenda, pediu a retirada de sua assinatura.

A decisão evidenciou a falta de consenso entre parlamentares governistas sobre uma proposta historicamente rejeitada pela legenda.

A divergência também expôs diferenças de estratégia. Enquanto Camilo procurava apresentar uma alternativa à proposta defendida por Flávio Bolsonaro, outros integrantes do partido consideravam que o tema poderia comprometer a votação da PEC da Segurança Pública.

Elmano discorda

O governador reeleito do Ceará, Elmano de Freitas (PT), apresentou uma posição contrária à redução da maioridade penal.

Em entrevista à CNN Brasil, em 15 de outubro, reconheceu a insatisfação da população com as respostas dadas a crimes graves cometidos por adolescentes, mas rejeitou a transferência desses jovens para o sistema penal adulto como solução.

“O caminho apresentado pela diminuição [da maioridade penal] não é o caminho”, declarou o governador.

Elmano defende mudanças na responsabilização de adolescentes envolvidos em crimes violentos e considera que o Estado precisa aperfeiçoar as medidas socioeducativas.

Ele também cobra maior atenção ao enfrentamento das organizações criminosas, tema que, em sua avaliação, deveria ocupar o centro das propostas nacionais de segurança pública.

A discordância ocorre entre aliados próximos. Camilo Santana, responsável pela emenda apresentada no Senado, foi governador do Ceará e mantém relação política com Elmano.

Ambos participam do mesmo grupo partidário, mas chegaram a posições diferentes sobre a medida.

O governador também rejeitou a tentativa de incluir a redução da maioridade penal na PEC da Segurança Pública durante a reta final da eleição.

Para ele, a prioridade deveria ser a aprovação de instrumentos capazes de ampliar a atuação coordenada das forças policiais e das instituições responsáveis pelo enfrentamento ao crime organizado.

Crise no Senado

A apresentação da emenda de Camilo provocou um impasse entre senadores petistas.

Teresa Leitão (PT-PE), líder do governo no Congresso, defendeu que a PEC da Segurança Pública fosse aprovada sem alterações, mantendo o texto enviado pela Câmara dos Deputados.

Em entrevista a O Brasilianista, em 15 de outubro, a parlamentar explicou que o governo havia articulado um acordo para votar a proposta principal sem incorporar a discussão sobre maioridade penal.

“A intenção do governo ao apresentar propostas paralelas foi trazer o tema à luz de forma responsável, diferente da intenção da oposição. As emendas não possuem o mesmo teor”, explicou Teresa.

A senadora argumentou que modificar a PEC no Senado obrigaria o texto a retornar à Câmara, adiando a entrada em vigor das mudanças já negociadas. 

O relator da proposta, Rogério Carvalho (PT-SE), também se opôs à inclusão das emendas no texto principal.

O senador defendeu que tanto a iniciativa de Camilo quanto a de Rogério Marinho (PL-RN) fossem analisadas separadamente.

Carvalho atribuiu a suspensão da votação à falta de consenso entre os parlamentares e aos “malabarismos” realizados durante as negociações.

A avaliação foi apresentada depois que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), decidiu retirar a PEC da pauta.

Segurança em disputa

A divergência sobre a maioridade penal também alcançou integrantes da esquerda que participaram da elaboração de propostas de segurança pública para Lula.

O sociólogo Benedito Mariano, coordenador do programa de segurança do presidente na eleição de 2022, declarou ser contrário à redução da idade penal por considerar que a medida afronta uma garantia constitucional.

“Sou contra a diminuição da maioridade penal, porque penso que fere cláusula pétrea da Constituição”, afirmou Mariano.

Embora não seja parlamentar, o especialista integrou a elaboração das propostas apresentadas anteriormente pelo próprio Lula.

Mariano também questionou a eficácia da redução para enfrentar a criminalidade.

Segundo ele, a proposta possui forte apelo junto à população, mas não necessariamente produziria alterações relevantes nos indicadores de violência.

Camilo Santana apresentou uma justificativa diferente. Em entrevista publicada em 19 de outubro, reconheceu que o PT evitou durante anos discutir determinados temas relacionados à segurança pública e afirmou que consultou Lula antes de apresentar sua emenda.

O senador declarou que o presidente já concordava com a possibilidade de reduzir a maioridade penal em crimes hediondos.

A afirmação afastou a interpretação de que Camilo teria atuado sem conhecimento de Lula, mas não eliminou a resistência de outros integrantes da legenda.

Campanha questionada

As críticas também envolvem a comunicação eleitoral. Reeleito no primeiro turno, Elmano de Freitas reconheceu falhas na estratégia adotada por Lula e defendeu uma campanha mais voltada às propostas para os próximos anos.

O governador considera que a esquerda precisa apresentar respostas concretas às preocupações da população, em vez de concentrar o discurso nas realizações de governos anteriores ou em temas que não mobilizam igualmente todos os segmentos do eleitorado.

A cobrança alcançou o destaque conferido à soberania nacional, um dos principais assuntos explorados pelo presidente durante o primeiro turno.

Para Elmano, a defesa da autonomia brasileira permanece importante, mas precisa ser acompanhada de propostas capazes de responder às demandas relacionadas a emprego, renda e serviços públicos.

O posicionamento surgiu depois que Lula reconheceu problemas na própria campanha.

Em outubro, o presidente classificou a organização eleitoral como uma das mais deficientes de sua trajetória política e cobrou mudanças na atuação de seus aliados.

Na entrevista ao Jornal Nacional, em 15 de outubro, também assumiu a responsabilidade pela avaliação negativa de seu governo, atribuindo parte das dificuldades à comunicação insuficiente das ações realizadas pela administração federal.

Cobranças do PSOL

A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) também questionou a estratégia utilizada pela campanha presidencial durante o primeiro turno.

Reeleita com aproximadamente 1,5 milhão de votos, a parlamentar considerou que a candidatura petista poderia ter explorado melhor a imagem de Lula e divulgado de maneira mais eficiente as realizações do governo.

“A campanha poderia ter explorado mais a imagem do presidente Lula. Ter comunicado um pouco mais os feitos do presidente Lula”, afirmou Erika em entrevista à Folha de S.Paulo.

A parlamentar reconheceu acertos na apresentação de programas sociais e nas agendas públicas do presidente, mas defendeu mudanças para o segundo turno.

Na avaliação dela, a campanha tem a oportunidade de corrigir falhas de comunicação e mobilização.

Erika também apresentou críticas à direção do próprio PSOL. Entre elas estão a decisão de não formar uma federação com o PT e a distribuição dos recursos eleitorais, que, segundo a deputada, prejudicou candidaturas com potencial de votação expressiva.

A parlamentar passou a considerar a possibilidade de deixar o PSOL e se filiar ao PT em 2027. 

Renovação partidária

Outro ponto levantado por Elmano de Freitas envolve a necessidade de preparar novas lideranças nacionais.

O governador defende que o PT amplie o protagonismo de políticos capazes de representar o partido em diferentes regiões do país.

“Liderança nacional não se decide em reunião de diretório e nem em gabinete”, declarou Elmano.

O governador mencionou nomes como Camilo Santana, Fernando Haddad e Rui Costa entre os dirigentes que podem assumir maior protagonismo político.

Também defendeu que lideranças regionais circulem pelo Brasil e estabeleçam relações com eleitores de estados onde a presença eleitoral do PT é menor.

A discussão envolve a dependência política do partido em relação a Lula, que completa 81 anos em 27 de outubro.

Desde sua primeira eleição presidencial, em 2002, o petista permanece como a principal referência eleitoral da legenda.

Erika Hilton também abordou a sucessão de Lula em entrevista concedida em junho.

 Na ocasião, considerou que a esquerda possui nomes tecnicamente qualificados, mas enfrenta dificuldades para produzir lideranças com o mesmo reconhecimento e capacidade de mobilização do presidente.

A deputada identificou a necessidade de ampliar a presença de novas figuras políticas, embora tenha criticado ataques à idade de Lula, que considera manifestações de preconceito etário.

Última semana

A campanha de Lula passou por alterações depois do primeiro turno, com maior participação de Camilo Santana na coordenação eleitoral e intensificação das atividades de rua e nas redes sociais.

Entre as propostas que o presidente pretende apresentar até a votação estão medidas relacionadas ao transporte público, ao endividamento de microempreendedores, aos preços dos combustíveis e à ampliação de bolsas estudantis.

A candidatura também prepara sua participação no debate presidencial previsto para 23 de outubro, dois dias antes da eleição.

As pesquisas divulgadas nesta semana mostram diferenças pequenas entre Lula e Flávio Bolsonaro, dentro das margens de erro dos principais levantamentos.

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