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Economia

De Lula a Flávio: como a Bolsa reagiu a cada troca de presidente

Primeira eleição de Lula derrubou o Ibovespa em 4,4%, Dilma provocou reações opostas em 2010 e 2014, Temer foi antecipado pelo mercado e vitória de Bolsonaro terminou com queda

Presidentes
Em 2026, avanço de Flávio no primeiro turno gerou a maior alta da série Foto: reprodução

Vinte e quatro anos separam a primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência, em 2002, da disputa de 2026 entre o petista e Flávio Bolsonaro.

Nesse intervalo, o Brasil reelegeu Lula, elegeu Dilma Rousseff duas vezes, passou pela chegada de Michel Temer ao Planalto após o impeachment, escolheu Jair Bolsonaro e devolveu a Presidência a Lula em 2022.

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A cada mudança, investidores tentaram antecipar o impacto do novo governo sobre contas públicas, juros, estatais, impostos, reformas e crescimento.

A reação da Bolsa, porém, mostra que não existe uma resposta automática baseada apenas em quem está à esquerda ou à direita.

O mesmo Lula que provocou queda de 4,4% em 2002 foi recebido com alta de 1,31% vinte anos depois.

O primeiro pregão revela expectativas diferentes

Para comparar os períodos, O Brasilianista levantou o desempenho do Ibovespa no primeiro pregão após cada eleição presidencial ou mudança efetiva de comando desde 2002.

No caso de Temer, foi considerado o dia em que assumiu interinamente após o afastamento de Dilma.

Em 2026, como o segundo turno ainda não ocorreu, o resultado representa apenas a reação ao primeiro turno.

AnoMudança no PlanaltoIbovespaPrincipal leitura
2002Lula eleito-4,40%Incerteza sobre a política econômica do primeiro governo petista
2006Lula reeleito-1,09%Vitória já esperada; exterior e queda do petróleo pesaram
2010Dilma eleita+1,26%Resultado eleitoral estava precificado e China favoreceu commodities
2014Dilma reeleita-2,77%Deterioração fiscal e queda forte das estatais
2016Temer assume interinamente+0,90%Expectativa de ajuste fiscal e nova equipe econômica
2018Bolsonaro eleito-2,24%Resultado já antecipado e realização de lucros
2022Lula eleito+1,31%Alívio institucional e espera pela composição da equipe econômica
2026 – 1º turnoFlávio lidera e enfrenta Lula no 2º turno+7,70%Mercado reprecificou fortemente a possibilidade de mudança de governo

O primeiro turno de 2026 produziu a maior variação da série. Depois de Flávio Bolsonaro terminar à frente de Lula, o Ibovespa avançou 7,70% em 5 de outubro e fechou aos 206.911,89 pontos, primeira vez acima da marca de 200 mil.

O resultado eleitoral surpreendeu as projeções anteriores e levou investidores a recalcular as chances de mudança na política econômica a partir de 2027.

Flávio, porém, ainda não foi eleito presidente. O segundo turno está marcado para 25 de outubro. Portanto, qualquer reação a uma eventual vitória permanece no campo das expectativas do mercado.

Em 2002, o medo sobre Lula

A primeira eleição de Lula ocorreu sob uma tensão financeira que marcou toda a campanha.

Investidores discutiam se um governo do PT manteria contratos, respeitaria compromissos da dívida pública e preservaria pilares econômicos construídos durante a administração de Fernando Henrique Cardoso.

A tentativa de reduzir essa desconfiança levou Lula a divulgar a Carta ao Povo Brasileiro, em junho de 2002, comprometendo-se com contratos e obrigações financeiras.

Ainda assim, a vitória sobre José Serra não eliminou imediatamente as dúvidas existentes entre os investidores.

No dia seguinte ao segundo turno, em 28 de outubro de 2002, o Ibovespa caiu 4,4% e terminou aos 9.573 pontos.

O comportamento posterior do governo alteraria parte daquela avaliação. Lula preservou o regime de metas de inflação, manteve a busca por superávit primário e entregou o Ministério da Fazenda a Antonio Palocci.

Ao mesmo tempo, o ciclo internacional de commodities favoreceu o Brasil e outros emergentes nos anos seguintes.

Em 2006, Lula já não representava a mesma incógnita

A eleição de 2006 ocorreu em uma realidade diferente. O mercado já conhecia a política econômica de Lula, e sua reeleição contra Geraldo Alckmin era amplamente esperada.

Em 30 de outubro, o Ibovespa terminou em queda de 1,09%, aos 38.900 pontos. A baixa, entretanto, não foi interpretada como rejeição direta ao presidente reeleito.

O petróleo recuou mais de 3% naquele dia e pressionou Petrobras, enquanto Wall Street também influenciava os ativos brasileiros.

O contraste com 2002 era evidente. Na primeira disputa, investidores tentavam descobrir o que Lula faria caso chegasse ao poder.

Em 2006, analisavam a continuidade de um governo cujo modelo econômico já era conhecido.

Em 2010, Dilma chegou ao Planalto

Quando Dilma Rousseff venceu José Serra em 2010, o Ibovespa subiu 1,26% no primeiro pregão depois da eleição, encerrando aos 71.560 pontos. O dólar avançou apenas 0,29%.

A alta não significou uma aprovação direta à nova presidente. A vitória já era esperada e teve influência limitada sobre aquela sessão.

Dados positivos sobre a indústria chinesa impulsionaram Vale, Petrobras e outras empresas ligadas às commodities.

Em 2014, situação havia mudado

Dilma venceu Aécio Neves por uma margem estreita em 2014. Na segunda-feira seguinte, o Ibovespa chegou a cair mais de 6% durante o pregão antes de reduzir as perdas e fechar em baixa de 2,77%, aos 50.503 pontos. O dólar comercial avançou 2,64%.

As ações da Petrobras perderam mais de 11%, eliminando cerca de R$ 24,5 bilhões em valor de mercado naquela sessão.

Investidores acompanhavam deterioração das contas públicas, intervenções em preços administrados e dúvidas sobre mudanças na política econômica após a reeleição.

Temer chegou sem eleição direta

Michel Temer é a exceção da sequência. Ele não venceu uma eleição presidencial para assumir o Planalto.

Tornou-se presidente interino em 12 de maio de 2016, após o Senado afastar Dilma Rousseff durante o processo de impeachment.

Naquele dia, o Ibovespa subiu 0,90%, aos 53.241 pontos. A composição do novo ministério foi bem recebida por investidores, que aguardavam medidas de ajuste fiscal e uma mudança na condução econômica.

Entre 11 de maio e 31 de agosto, quando Temer assumiu definitivamente depois da conclusão do impeachment, o Ibovespa acumulou valorização de 9,74%.

No próprio dia da confirmação definitiva de Temer, a Bolsa caiu 1,15%, aos 57.901 pontos.

Petróleo, Vale, Petrobras e o cenário internacional pressionaram o índice. O dólar, por sua vez, recuou.

Em 2018, Bolsonaro chegou cercado de expectativa

A candidatura de Jair Bolsonaro em 2018 passou a ser associada durante a campanha ao programa econômico comandado por Paulo Guedes, com reforma da Previdência, privatizações, abertura econômica e redução do tamanho do Estado.

Quando Bolsonaro derrotou Fernando Haddad, a primeira reação foi positiva. No pregão de 29 de outubro, o Ibovespa chegou a subir 3,10% e atingiu o recorde intradiário de 88.377 pontos.

Horas depois, o movimento havia sido completamente revertido. A Bolsa terminou em queda de 2,24%, aos 83.796 pontos, enquanto o dólar avançou para aproximadamente R$ 3,70.

Parte da explicação estava justamente no período anterior à votação. Investidores já haviam comprado ativos brasileiros apostando na vitória de Bolsonaro.

Depois da confirmação, houve realização de lucros, enquanto a piora de Wall Street contribuiu para a reversão.

Em 2022, Lula voltou

Vinte anos depois de sua primeira vitória, Lula voltou ao Planalto após derrotar Jair Bolsonaro por margem estreita.

O primeiro pregão foi marcado por forte oscilação. O Ibovespa chegou a cair 2,12%, com Petrobras e Banco do Brasil entre as maiores perdas, mas mudou de direção ao longo da sessão.

No fechamento, subiu 1,31%, aos 116.037 pontos. O dólar caiu 2,59%, para R$ 5,1652. Investidores reagiram ao menor risco percebido de uma ruptura institucional na transição de poder e passaram a observar quem assumiria o Ministério da Fazenda e qual seria o desenho da política fiscal.

A reação dentro da própria Bolsa também foi desigual. Enquanto Petrobras e Banco do Brasil caíam fortemente, empresas ligadas a consumo, turismo e tecnologia avançavam.

O contraste histórico é direto, Lula provocou queda de 4,4% em sua primeira eleição e alta de 1,31% quando retornou ao Planalto duas décadas depois.

Em 2026, Flávio gerou maior movimento

A reação de 2026 ocorreu antes da decisão final. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula, em resultado que contrariou parte das projeções anteriores.

Aproximadamente 47% dos votos para Flávio e 45% para Lula, diferença de cerca de 2,2 milhões de votos.

No dia seguinte, o Ibovespa disparou 7,70%. Foi a maior alta diária do índice desde março de 2020, levou a Bolsa ao recorde de 206.911,89 pontos e foi acompanhada por forte valorização do real.

O movimento ocorreu porque investidores passaram a atribuir maior probabilidade a uma mudança de governo e a políticas associadas a maior controle dos gastos, redução da dívida e reformas.

O desempenho dos partidos de direita no Congresso também entrou nos cálculos sobre a capacidade de um eventual novo presidente aprovar sua agenda econômica.

Mas a magnitude da alta também produz um efeito importante para o segundo turno. Parte de uma eventual vitória de Flávio já começou a ser comprada antes da votação final

Quanto maior a valorização antes da eleição, maior a possibilidade de que parte do resultado já esteja incorporada às cotações quando as urnas forem fechadas.

Bolsonaro mostrou isso em 2018. Sua eleição era vista positivamente por muitos investidores, mas a Bolsa caiu 2,24% no primeiro pregão depois da vitória porque uma parcela considerável da expectativa já havia sido comprada durante a campanha.

O mesmo mecanismo pode aparecer em 2026. A alta de 7,70% depois do primeiro turno não garante que uma eventual vitória de Flávio provoque outra disparada semelhante. Também não garante alta.

O comportamento dependerá de quanto do resultado estará precificado até 25 de outubro, da composição anunciada para um eventual governo, da agenda fiscal, da relação com o Congresso e do cenário externo naquele momento.

Bolsa não escolhe presidente

A série histórica desde 2002 desmonta uma interpretação partidária simples.

  • Lula: -4,40% em 2002, -1,09% em 2006 e +1,31% em 2022;
  • Dilma: +1,26% em 2010 e -2,77% em 2014;
  • Temer: +0,90% quando assumiu interinamente, depois de uma forte antecipação do mercado durante o processo de impeachment;
  • Bolsonaro: -2,24% depois da vitória em 2018, apesar das expectativas positivas construídas durante a campanha;

China, petróleo, juros americanos, Wall Street e crises internacionais também interferiram em praticamente todos esses pregões.

Uma alta ou uma queda nunca pode ser atribuída exclusivamente ao nome que venceu a eleição.

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