Vinte e quatro anos separam a primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência, em 2002, da disputa de 2026 entre o petista e Flávio Bolsonaro.
Nesse intervalo, o Brasil reelegeu Lula, elegeu Dilma Rousseff duas vezes, passou pela chegada de Michel Temer ao Planalto após o impeachment, escolheu Jair Bolsonaro e devolveu a Presidência a Lula em 2022.
A cada mudança, investidores tentaram antecipar o impacto do novo governo sobre contas públicas, juros, estatais, impostos, reformas e crescimento.
A reação da Bolsa, porém, mostra que não existe uma resposta automática baseada apenas em quem está à esquerda ou à direita.
O mesmo Lula que provocou queda de 4,4% em 2002 foi recebido com alta de 1,31% vinte anos depois.
O primeiro pregão revela expectativas diferentes
Para comparar os períodos, O Brasilianista levantou o desempenho do Ibovespa no primeiro pregão após cada eleição presidencial ou mudança efetiva de comando desde 2002.
No caso de Temer, foi considerado o dia em que assumiu interinamente após o afastamento de Dilma.
Em 2026, como o segundo turno ainda não ocorreu, o resultado representa apenas a reação ao primeiro turno.
| Ano | Mudança no Planalto | Ibovespa | Principal leitura |
|---|---|---|---|
| 2002 | Lula eleito | -4,40% | Incerteza sobre a política econômica do primeiro governo petista |
| 2006 | Lula reeleito | -1,09% | Vitória já esperada; exterior e queda do petróleo pesaram |
| 2010 | Dilma eleita | +1,26% | Resultado eleitoral estava precificado e China favoreceu commodities |
| 2014 | Dilma reeleita | -2,77% | Deterioração fiscal e queda forte das estatais |
| 2016 | Temer assume interinamente | +0,90% | Expectativa de ajuste fiscal e nova equipe econômica |
| 2018 | Bolsonaro eleito | -2,24% | Resultado já antecipado e realização de lucros |
| 2022 | Lula eleito | +1,31% | Alívio institucional e espera pela composição da equipe econômica |
| 2026 – 1º turno | Flávio lidera e enfrenta Lula no 2º turno | +7,70% | Mercado reprecificou fortemente a possibilidade de mudança de governo |
O primeiro turno de 2026 produziu a maior variação da série. Depois de Flávio Bolsonaro terminar à frente de Lula, o Ibovespa avançou 7,70% em 5 de outubro e fechou aos 206.911,89 pontos, primeira vez acima da marca de 200 mil.
O resultado eleitoral surpreendeu as projeções anteriores e levou investidores a recalcular as chances de mudança na política econômica a partir de 2027.
Flávio, porém, ainda não foi eleito presidente. O segundo turno está marcado para 25 de outubro. Portanto, qualquer reação a uma eventual vitória permanece no campo das expectativas do mercado.
Em 2002, o medo sobre Lula
A primeira eleição de Lula ocorreu sob uma tensão financeira que marcou toda a campanha.
Investidores discutiam se um governo do PT manteria contratos, respeitaria compromissos da dívida pública e preservaria pilares econômicos construídos durante a administração de Fernando Henrique Cardoso.
A tentativa de reduzir essa desconfiança levou Lula a divulgar a Carta ao Povo Brasileiro, em junho de 2002, comprometendo-se com contratos e obrigações financeiras.
Ainda assim, a vitória sobre José Serra não eliminou imediatamente as dúvidas existentes entre os investidores.
No dia seguinte ao segundo turno, em 28 de outubro de 2002, o Ibovespa caiu 4,4% e terminou aos 9.573 pontos.
O comportamento posterior do governo alteraria parte daquela avaliação. Lula preservou o regime de metas de inflação, manteve a busca por superávit primário e entregou o Ministério da Fazenda a Antonio Palocci.
Ao mesmo tempo, o ciclo internacional de commodities favoreceu o Brasil e outros emergentes nos anos seguintes.
Em 2006, Lula já não representava a mesma incógnita
A eleição de 2006 ocorreu em uma realidade diferente. O mercado já conhecia a política econômica de Lula, e sua reeleição contra Geraldo Alckmin era amplamente esperada.
Em 30 de outubro, o Ibovespa terminou em queda de 1,09%, aos 38.900 pontos. A baixa, entretanto, não foi interpretada como rejeição direta ao presidente reeleito.
O petróleo recuou mais de 3% naquele dia e pressionou Petrobras, enquanto Wall Street também influenciava os ativos brasileiros.
O contraste com 2002 era evidente. Na primeira disputa, investidores tentavam descobrir o que Lula faria caso chegasse ao poder.
Em 2006, analisavam a continuidade de um governo cujo modelo econômico já era conhecido.
Em 2010, Dilma chegou ao Planalto
Quando Dilma Rousseff venceu José Serra em 2010, o Ibovespa subiu 1,26% no primeiro pregão depois da eleição, encerrando aos 71.560 pontos. O dólar avançou apenas 0,29%.
A alta não significou uma aprovação direta à nova presidente. A vitória já era esperada e teve influência limitada sobre aquela sessão.
Dados positivos sobre a indústria chinesa impulsionaram Vale, Petrobras e outras empresas ligadas às commodities.
Em 2014, situação havia mudado
Dilma venceu Aécio Neves por uma margem estreita em 2014. Na segunda-feira seguinte, o Ibovespa chegou a cair mais de 6% durante o pregão antes de reduzir as perdas e fechar em baixa de 2,77%, aos 50.503 pontos. O dólar comercial avançou 2,64%.
As ações da Petrobras perderam mais de 11%, eliminando cerca de R$ 24,5 bilhões em valor de mercado naquela sessão.
Investidores acompanhavam deterioração das contas públicas, intervenções em preços administrados e dúvidas sobre mudanças na política econômica após a reeleição.
Temer chegou sem eleição direta
Michel Temer é a exceção da sequência. Ele não venceu uma eleição presidencial para assumir o Planalto.
Tornou-se presidente interino em 12 de maio de 2016, após o Senado afastar Dilma Rousseff durante o processo de impeachment.
Naquele dia, o Ibovespa subiu 0,90%, aos 53.241 pontos. A composição do novo ministério foi bem recebida por investidores, que aguardavam medidas de ajuste fiscal e uma mudança na condução econômica.
Entre 11 de maio e 31 de agosto, quando Temer assumiu definitivamente depois da conclusão do impeachment, o Ibovespa acumulou valorização de 9,74%.
No próprio dia da confirmação definitiva de Temer, a Bolsa caiu 1,15%, aos 57.901 pontos.
Petróleo, Vale, Petrobras e o cenário internacional pressionaram o índice. O dólar, por sua vez, recuou.
Em 2018, Bolsonaro chegou cercado de expectativa
A candidatura de Jair Bolsonaro em 2018 passou a ser associada durante a campanha ao programa econômico comandado por Paulo Guedes, com reforma da Previdência, privatizações, abertura econômica e redução do tamanho do Estado.
Quando Bolsonaro derrotou Fernando Haddad, a primeira reação foi positiva. No pregão de 29 de outubro, o Ibovespa chegou a subir 3,10% e atingiu o recorde intradiário de 88.377 pontos.
Horas depois, o movimento havia sido completamente revertido. A Bolsa terminou em queda de 2,24%, aos 83.796 pontos, enquanto o dólar avançou para aproximadamente R$ 3,70.
Parte da explicação estava justamente no período anterior à votação. Investidores já haviam comprado ativos brasileiros apostando na vitória de Bolsonaro.
Depois da confirmação, houve realização de lucros, enquanto a piora de Wall Street contribuiu para a reversão.
Em 2022, Lula voltou
Vinte anos depois de sua primeira vitória, Lula voltou ao Planalto após derrotar Jair Bolsonaro por margem estreita.
O primeiro pregão foi marcado por forte oscilação. O Ibovespa chegou a cair 2,12%, com Petrobras e Banco do Brasil entre as maiores perdas, mas mudou de direção ao longo da sessão.
No fechamento, subiu 1,31%, aos 116.037 pontos. O dólar caiu 2,59%, para R$ 5,1652. Investidores reagiram ao menor risco percebido de uma ruptura institucional na transição de poder e passaram a observar quem assumiria o Ministério da Fazenda e qual seria o desenho da política fiscal.
A reação dentro da própria Bolsa também foi desigual. Enquanto Petrobras e Banco do Brasil caíam fortemente, empresas ligadas a consumo, turismo e tecnologia avançavam.
O contraste histórico é direto, Lula provocou queda de 4,4% em sua primeira eleição e alta de 1,31% quando retornou ao Planalto duas décadas depois.
Em 2026, Flávio gerou maior movimento
A reação de 2026 ocorreu antes da decisão final. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula, em resultado que contrariou parte das projeções anteriores.
Aproximadamente 47% dos votos para Flávio e 45% para Lula, diferença de cerca de 2,2 milhões de votos.
No dia seguinte, o Ibovespa disparou 7,70%. Foi a maior alta diária do índice desde março de 2020, levou a Bolsa ao recorde de 206.911,89 pontos e foi acompanhada por forte valorização do real.
O movimento ocorreu porque investidores passaram a atribuir maior probabilidade a uma mudança de governo e a políticas associadas a maior controle dos gastos, redução da dívida e reformas.
O desempenho dos partidos de direita no Congresso também entrou nos cálculos sobre a capacidade de um eventual novo presidente aprovar sua agenda econômica.
Mas a magnitude da alta também produz um efeito importante para o segundo turno. Parte de uma eventual vitória de Flávio já começou a ser comprada antes da votação final
Quanto maior a valorização antes da eleição, maior a possibilidade de que parte do resultado já esteja incorporada às cotações quando as urnas forem fechadas.
Bolsonaro mostrou isso em 2018. Sua eleição era vista positivamente por muitos investidores, mas a Bolsa caiu 2,24% no primeiro pregão depois da vitória porque uma parcela considerável da expectativa já havia sido comprada durante a campanha.
O mesmo mecanismo pode aparecer em 2026. A alta de 7,70% depois do primeiro turno não garante que uma eventual vitória de Flávio provoque outra disparada semelhante. Também não garante alta.
O comportamento dependerá de quanto do resultado estará precificado até 25 de outubro, da composição anunciada para um eventual governo, da agenda fiscal, da relação com o Congresso e do cenário externo naquele momento.
Bolsa não escolhe presidente
A série histórica desde 2002 desmonta uma interpretação partidária simples.
- Lula: -4,40% em 2002, -1,09% em 2006 e +1,31% em 2022;
- Dilma: +1,26% em 2010 e -2,77% em 2014;
- Temer: +0,90% quando assumiu interinamente, depois de uma forte antecipação do mercado durante o processo de impeachment;
- Bolsonaro: -2,24% depois da vitória em 2018, apesar das expectativas positivas construídas durante a campanha;
China, petróleo, juros americanos, Wall Street e crises internacionais também interferiram em praticamente todos esses pregões.
Uma alta ou uma queda nunca pode ser atribuída exclusivamente ao nome que venceu a eleição.
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