Os Estados Unidos suspenderam temporariamente parte das sanções contra combustíveis russos para permitir que diesel produzido no país volte ao mercado internacional.
A decisão ocorre enquanto a União Europeia mantém novas restrições contra Moscou, prepara o fim das importações de gás russo e amplia a lista de navios atingidos por sanções.
A Rússia confirmou nesta quinta-feira (15), que retomou as exportações de diesel depois do acordo anunciado pelo presidente americano Donald Trump.
Washington afirma que a liberação de combustível russo pode ajudar a reduzir a pressão sobre os preços internacionais em um mercado afetado por problemas em refinarias, conflitos no Oriente Médio e fretes mais caros.
O Brasilianista cruzou os fluxos de exportação russos acumulados desde dezembro de 2022 até agosto de 2026 com dados oficiais de Estados Unidos, União Europeia e Brasil.
O levantamento identifica oito países, além do bloco europeu, entre os principais destinos de petróleo bruto, derivados, gás natural liquefeito e gás transportado por dutos.
China e Índia absorveram juntas 87% do petróleo bruto russo exportado no período.
A Turquia liderou as compras de derivados. O Brasil apareceu em terceiro lugar nessa categoria.
No gás natural liquefeito, a União Europeia permaneceu como maior destino acumulado da Rússia mesmo depois de sucessivas rodadas de sanções.
Diesel americano
Donald Trump anunciou em 9 de outubro que Moscou colocaria imediatamente mais de 300 mil toneladas de diesel nos mercados americano e internacional.
O presidente também mencionou outras 500 mil toneladas em novembro e mais 1 milhão de toneladas posteriormente.
Para viabilizar o acordo, o governo americano suspendeu temporariamente sanções que restringiam a comercialização do combustível russo.
Trump apresentou a decisão como uma medida destinada a reduzir o preço da energia nos Estados Unidos.
A mudança aconteceu a menos de um mês das eleições legislativas americanas de 3 de novembro, em um período no qual o preço do diesel se tornou uma pressão econômica para transportadores, produtores rurais e consumidores.
A primeira movimentação física depois do acordo não teve os Estados Unidos como destino.
Nesta quinta-feira um navio carregado com cerca de 40 mil toneladas de diesel de baixo teor de enxofre foi visto deixando o porto russo de Primorsk em direção ao Marrocos.
A Rússia havia restringido parte das próprias exportações depois de ataques contra refinarias e dificuldades para atender o mercado doméstico.
O vice-primeiro-ministro Alexander Novak afirmou que o país pretende recuperar capacidade suficiente para exportar entre 3 milhões e 3,5 milhões de toneladas de diesel por mês até o fim do ano.
Pressão eleitoral
A liberação do diesel abriu uma divergência dentro dos próprios Estados Unidos. Senadores republicanos e democratas pediram que Trump abandonasse o acordo e questionaram se a flexibilização poderia contrariar restrições adotadas pelo Congresso depois da invasão da Ucrânia.
Seis republicanos estavam entre os doze senadores que enviaram uma manifestação ao governo nesta semana pedindo a reversão da decisão.
A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, também contestou a medida. Ela afirmou que permitir novas receitas energéticas russas poderia enfraquecer o instrumento utilizado por países ocidentais para pressionar Moscou durante as negociações sobre a Ucrânia.
Washington passou a considerar a retirada de sanções contra determinados navios ligados à chamada frota fantasma para permitir que essas embarcações transportem petróleo não sancionado e ajudem a reduzir os custos mundiais de frete.
Europa compra
A União Europeia seguiu uma direção diferente dos Estados Unidos e transformou o abandono do gás russo em obrigação legal.
O bloco aprovou em janeiro deste ano um cronograma que proíbe progressivamente novas importações de gás natural liquefeito e gás russo transportado por dutos.
Contratos antigos receberam períodos de transição para impedir interrupções imediatas de abastecimento.
Essa transição mantém volumes russos dentro do mercado europeu. Entre dezembro de 2022 e agosto de 2026, a União Europeia recebeu 49% de todo o gás natural liquefeito exportado pela Rússia, segundo os fluxos compilados pelo Centre for Research on Energy and Clean Air. A China apareceu com 24%, o Japão com 18% e a Coreia do Sul com 6%.
A situação muda quando se observa apenas o mês de agosto deste ano. As importações europeias de GNL russo caíram 46% em relação a julho e atingiram o menor volume mensal registrado desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia.
Os contratos europeus de curto prazo de GNL já estão sujeitos às novas restrições. Os contratos de longo prazo poderão continuar durante a transição, mas o bloqueio total entra em vigor em 1º de janeiro de 2027.
Gás por dutos
A União Europeia também permaneceu como maior compradora acumulada de gás russo transportado por gasodutos no período analisado.
O bloco recebeu 32% das exportações russas dessa categoria desde dezembro de 2022.
A China ficou praticamente empatada, com 31%, enquanto a Turquia respondeu por 29%.
O gás transportado por dutos possui uma dificuldade diferente do petróleo. Trocar de fornecedor exige conexões físicas, terminais de gás natural liquefeito ou capacidade disponível em redes ligadas a outros produtores.
A proibição europeia para contratos de curto prazo começou a valer em junho. Contratos de longo prazo poderão permanecer até 30 de setembro de 2027, prazo que pode avançar para 1º de novembro caso os países europeus não estejam preparados para cumprir suas metas de armazenamento durante o inverno.
China concentra
Nenhum comprador se tornou tão importante para Moscou quanto a China. Entre dezembro de 2022 e agosto deste ano, metade de todo o petróleo bruto exportado pela Rússia teve o mercado chinês como destino.
A dependência vai além do petróleo. A China respondeu por 24% das exportações russas de GNL, 31% do gás por dutos e 12% dos derivados.
Somente em agosto, Pequim foi responsável por 51% da receita obtida pela Rússia com vendas aos cinco maiores compradores de combustíveis fósseis.
Foram aproximadamente 8,4 bilhões de euros em compras no mês. Cerca de 5,8 bilhões de euros vieram de petróleo bruto. Gás por dutos, GNL, carvão e derivados completaram a conta.
Os desembarques chineses de petróleo russo transportado por mar cresceram 16% entre julho e agosto e ficaram 62% acima do registrado em agosto de 2025.
Índia sustenta
A Índia aparece logo atrás. Desde o início das principais restrições ocidentais ao petróleo russo, 37% das exportações de petróleo bruto de Moscou tiveram o mercado indiano como destino.
A relação cresceu porque refinarias indianas passaram a comprar petróleo russo descontado, processar a matéria-prima e vender combustíveis para diferentes mercados internacionais.
Em agosto deste ano, a Índia comprou cerca de 4,8 bilhões de euros em combustíveis fósseis russos.
O petróleo bruto representou 4,1 bilhões de euros, equivalente a 87% das compras indianas de energia russa naquele mês.
O movimento começou a perder força em agosto. As importações indianas de petróleo russo caíram 24% em relação ao mês anterior depois de dois meses consecutivos em níveis recordes.
Turquia refina
A Turquia ocupa uma posição diferente porque aparece entre os principais compradores de petróleo e também lidera o mercado de combustíveis russos já refinados.
Desde dezembro de 2022, o país recebeu 5% do petróleo bruto russo exportado e 26% dos derivados.
Essa categoria inclui diesel e outros combustíveis produzidos pelas refinarias russas.
Em agosto deste ano, a Turquia comprou cerca de 1,5 bilhão de euros em combustíveis fósseis da Rússia, tornando-se o terceiro maior comprador mensal depois de China e Índia.
As compras ocorreram enquanto Moscou enfrentava dificuldades dentro de sua própria indústria de refino.
Ataques contra instalações russas contribuíram para escassez doméstica e fizeram o país importar 172 mil toneladas de derivados em agosto, sete vezes o maior volume mensal registrado desde o início da guerra.
Brasil compra
O Brasil não participa das sanções energéticas ocidentais contra Moscou e ganhou espaço entre os compradores russos depois de 2022.
O país recebeu 11% dos derivados de petróleo exportados pela Rússia entre dezembro de 2022 e agosto de 2026.
A participação coloca o Brasil atrás da Turquia, responsável por 26%, e da China, com 12%, mas à frente de Singapura e Arábia Saudita, ambas com aproximadamente 8%.
O diesel explica grande parte dessa relação. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços reproduzidos pela Agência Nacional do Petróleo mostram que o produto russo representou 65% de todo o diesel importado pelo Brasil em 2024.
A participação caiu para 57% em 2025 e para 47% no primeiro trimestre de 2026. O movimento ocorreu junto de uma diversificação das compras brasileiras.
Dados da ANP acumulados nos doze meses encerrados em março mostravam Rússia, Estados Unidos e outros fornecedores disputando um mercado externo que o Brasil ainda utiliza para complementar sua produção de diesel.
Refinarias intermediárias
O comércio internacional criou outra rota que não aparece quando se observa apenas o país de origem declarado na chegada do combustível.
Refinarias localizadas fora da Rússia compram petróleo russo, transformam a matéria-prima em diesel, querosene ou outros produtos e depois vendem esses combustíveis a países que aplicam sanções contra Moscou.
Em agosto, refinarias localizadas na Índia, Turquia, Brunei e Geórgia que processam petróleo russo exportaram 510 milhões de euros em derivados para países que participam de sanções.
A União Europeia recebeu 333 milhões de euros desse total. Os Estados Unidos receberam 143 milhões de euros e a Austrália, 34 milhões.
O CREA estima que aproximadamente 189 milhões de euros desses produtos tenham sido fabricados a partir de petróleo de origem russa.
A estimativa considera a participação do petróleo russo processado por cada refinaria e não significa que todos os carregamentos enviados aos países sancionadores fossem integralmente produzidos com matéria-prima de Moscou.
No mesmo mês, 20 carregamentos originados em refinarias que processam petróleo russo foram descarregados em portos da União Europeia, dois a mais que em julho.
Japão mantém
O Japão aparece entre os países que mantiveram uma relação energética específica com a Rússia mesmo depois de aderir a medidas econômicas contra Moscou.
O país respondeu por 18% das exportações russas de gás natural liquefeito acumuladas entre dezembro de 2022 e agosto deste ano.
Empresas japonesas permanecem ligadas ao projeto Sakhalin 2, no extremo leste russo.
A localização permite que carregamentos cheguem ao Japão com uma rota menor do que fornecedores localizados no Oriente Médio ou nos Estados Unidos.
A Coreia do Sul respondeu por outros 6% das exportações russas de GNL no período analisado.
Frota paralela
A Rússia também mudou a forma como transporta seu petróleo. Uma rede de navios mais antigos, empresas registradas em diferentes jurisdições e estruturas de propriedade difíceis de identificar passou a transportar parte crescente dos barris russos fora dos serviços marítimos tradicionais utilizados por empresas europeias e americanas.
Em agosto, 52% do petróleo russo exportado por mar foi transportado em navios da chamada frota fantasma que já estavam sujeitos a sanções.
Outros 42% viajaram em embarcações pertencentes ou seguradas por empresas de países do G7 e aliados.
O restante foi transportado por navios da frota paralela que ainda não estavam incluídos nas listas de sanções.
Ao final de agosto, 45 embarcações que transportavam combustíveis fósseis russos operavam utilizando bandeiras consideradas falsas pelos pesquisadores que monitoram a frota.
Europa endurece
Enquanto Washington considera liberar determinadas embarcações para reduzir o custo dos fretes, a União Europeia segue adicionando navios às listas restritivas.
O 21º pacote de sanções, aprovado em julho, acrescentou 41 embarcações às 632 que já estavam submetidas a restrições europeias.
As regras incluem proibição de acesso a portos e limitações sobre serviços prestados a navios utilizados para contornar o teto aplicado ao petróleo russo.
O pacote também ampliou a possibilidade de atingir refinarias localizadas em países terceiros quando Bruxelas identifica participação em operações utilizadas para contornar as restrições.
A União Europeia suspendeu até julho de 2027 o mecanismo automático que ajustaria seu teto de preço do petróleo russo durante a crise atual do mercado internacional.
Petróleo acima
A dificuldade aparece no preço efetivamente obtido por Moscou. Em agosto, o petróleo russo dos Urais foi negociado, em média, por US$ 69,90 o barril.
O valor ficou acima do teto utilizado por União Europeia e Reino Unido para determinadas operações envolvendo serviços marítimos ligados ao petróleo russo.
A diferença ocorre porque Moscou consegue utilizar navios, seguradoras, intermediários financeiros e compradores localizados fora das jurisdições que aplicam o mecanismo.
A alta do petróleo internacional também ajudou a ampliar a receita russa. O Centre for Research on Energy and Clean Air estima que o choque provocado pela crise no Estreito de Ormuz acrescentou aproximadamente 31 bilhões de euros às receitas russas de exportação marítima de petróleo e gás nos seis meses seguintes ao início do conflito.
Receita russa
As restrições reduziram a arrecadação energética russa em comparação com 2025, mas petróleo e gás continuam financiando uma parcela relevante do orçamento federal.
A receita russa com petróleo e gás entre janeiro e outubro deve alcançar aproximadamente 6,45 trilhões de rublos, queda de 14% em relação ao mesmo período do ano passado.
Para outubro isoladamente, a estimativa é de aproximadamente 1 trilhão de rublos em impostos ligados ao petróleo e ao gás, equivalente a quase US$ 12 bilhões.
As receitas desses dois setores representam cerca de 20% da arrecadação do governo federal russo em 2026.
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