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Economia

Entenda por que a Petrobras está ampliando sua presença na África

Estatal assumiu oito blocos na Costa do Marfim, avançou na Namíbia e em São Tomé e Príncipe e negocia novas áreas em Gana

Petrobras
Especialista vê busca por reservas, diversificação de riscos e projeção econômica brasileira Foto: creative commons

A Petrobras acelerou em 2026 sua volta à exploração internacional e escolheu a África como principal frente fora do Brasil.

Em setembro, a companhia assinou contratos para operar oito blocos offshore na Costa do Marfim, com 90% de participação, enquanto a estatal local PETROCI ficará com os 10% restantes.

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A estratégia se soma a novos ativos na Namíbia e em São Tomé e Príncipe e a negociações abertas para quatro áreas marítimas em Gana.

A expansão ocorre enquanto a estatal prepara a reposição das reservas que sustentarão sua produção nas próximas décadas.

No Plano de Negócios 2026-2030, a Petrobras reservou US$ 7,1 bilhões (R$ 37,07 bilhões) para exploração e reconheceu a necessidade de buscar novas descobertas dentro e fora do Brasil.

A companhia projeta pico de produção de petróleo de 2,7 milhões de barris por dia em 2028 e de produção total de 3,4 milhões de barris de óleo equivalente por dia entre 2028 e 2029.

Para Marco Aurelio da Silva, mestre em Administração, consultor de empresas em negócios internacionais e professor dos cursos de Comércio Exterior e Relações Internacionais da FSG – Centro Universitário da Serra Gaúcha, a decisão combina necessidade de longo prazo, conhecimento geológico e diversificação.

“A decisão da Petrobras reflete a necessidade estratégica de repor reservas e o alinhamento de janelas geológicas favoráveis”, afirma Marco Aurelio.

Reservas futuras

O pré-sal continuará sendo a principal fonte de produção da Petrobras nos próximos anos.

O próprio plano da companhia indica que a região poderá responder por até 82% de sua produção durante o período de 2026 a 2030.

Ainda assim, grandes campos possuem ciclos naturais de desenvolvimento, pico e declínio, o que obriga uma petrolífera a procurar hoje as reservas que poderão produzir petróleo na década seguinte.

Segundo Marco Aurelio, esse intervalo explica por que os movimentos africanos precisam acontecer antes de uma eventual redução da produção dos campos atuais.

“A exploração de novas fronteiras é um processo de longo prazo. Da descoberta ao primeiro óleo decorrem tipicamente de sete a dez anos. Iniciar movimentos agora é indispensável para garantir a sustentabilidade da produção a partir da década de 2030”, explica o professor.

A Petrobras já incorpora esse desafio ao planejamento. Além dos US$ 7,1 bilhões destinados à exploração, a empresa pretende perfurar 40 novos poços exploratórios até 2030.

O objetivo declarado é recompor reservas e abrir novas fronteiras que possam substituir gradualmente volumes retirados dos campos maduros.

Mesma geologia

A proximidade geológica entre Brasil e África também ajuda a explicar a escolha. Os reservatórios brasileiros do pré-sal começaram a se formar há mais de 100 milhões de anos, quando América do Sul e África ainda faziam parte de uma mesma massa continental.

A separação dos continentes criou bacias sedimentares nos dois lados do Atlântico, o que faz determinadas áreas da costa africana apresentarem características comparáveis às encontradas no litoral brasileiro.

“A Margem Ocidental Africana e a Margem brasileira compartilham formações resultantes da separação dos continentes. A Petrobras leva para a África décadas de expertise acumulada em exploração em águas profundas e ultraprofundas”, destaca Marco Aurelio.

Foi esse argumento que a própria presidente da Petrobras, Magda Chambriard, apresentou ao anunciar os oito blocos da Costa do Marfim.

Segundo ela, a região possui características geológicas semelhantes às das bacias sedimentares brasileiras e permite à companhia aplicar conhecimento acumulado em operações offshore.

Avanço africano

A Costa do Marfim é hoje o movimento mais amplo. Os contratos assinados em setembro abrangem os blocos CI-513, CI-600, CI-601, CI-602, CI-603, CI-605, CI-701 e CI-702. Em todos, a Petrobras será operadora com participação de 90%.

Na Namíbia, a estatal adquiriu em fevereiro 42,5% do bloco 2613, localizado na Bacia de Lüderitz.

A operação é liderada pela TotalEnergies e coloca a Petrobras em uma das regiões que mais atraíram investimentos exploratórios depois de grandes descobertas recentes na costa namibiana.

Em São Tomé e Príncipe, a Petrobras concluiu em julho a aquisição e assumiu a operação do bloco 3, com 75% de participação. A Oranto mantém 15% e a agência nacional de petróleo do país, 10%.

Já em Gana, a estatal recebeu autorização do governo para negociar contratos de exploração em quatro blocos offshore da Bacia de Keta. A negociação ainda não equivale à aquisição definitiva das áreas.

Risco dividido

Para Marco Aurelio, buscar novas áreas mesmo durante o auge do pré-sal também atende a uma lógica de gestão de risco.

“Alocar capital exclusivamente em um único país aumenta a exposição ao risco regulatório local. A diversificação geográfica estabiliza o portfólio global da companhia”, observa o especialista.

Essa estratégia não significa abandonar a exploração brasileira. O Plano de Negócios prevê US$ 2,5 bilhões para a Margem Equatorial até 2030 e a perfuração de 15 poços na região.

A Petrobras, portanto, procura novas áreas no exterior ao mesmo tempo em que mantém investimentos expressivos em novas fronteiras nacionais.

Marco Aurelio avalia que entraves regulatórios e ambientais enfrentados por projetos domésticos também incentivam a companhia a evitar concentração excessiva do portfólio exploratório.

“Diante das dificuldades e da lentidão no licenciamento ambiental, a Petrobras busca diversificar seu portfólio internacional para não paralisar investimentos de capital em novas descobertas”, pontua o docente.

A expansão africana, entretanto, não substitui os investimentos domésticos. O próprio planejamento da estatal mantém o pré-sal, a Margem Equatorial e as bacias do Sul e Sudeste entre as prioridades exploratórias.

Controle dos blocos

O tamanho da participação brasileira na Costa do Marfim também possui uma lógica financeira e operacional.

Com 90%, a Petrobras controla o ritmo da exploração e ficará com parcela maior dos resultados caso sejam encontradas reservas comercialmente viáveis.

Em contrapartida, assume também uma fatia maior do custo e do risco de perfurar poços que podem não resultar em descobertas comerciais.

“Entrar como operadora com alta participação permite à Petrobras capturar a maior fatia de valor em caso de descoberta comercial, além de ditar o ritmo dos investimentos e aplicar suas próprias tecnologias de redução de custos de extração”, avalia Marco Aurelio.

A exploração é justamente a etapa de maior incerteza do setor petrolífero. A assinatura de um contrato ou a aquisição de uma participação não significa que exista petróleo economicamente recuperável naquela área.

Estudos sísmicos, perfurações e avaliações posteriores serão necessários antes de qualquer decisão de desenvolvimento.

Presença brasileira

Para Marco Aurelio, uma Petrobras com presença relevante em diferentes países africanos pode funcionar também como instrumento de aproximação econômica do Brasil com o continente.

“Historicamente, a Petrobras atua como um vetor de projeção da política externa brasileira, um soft power energético”, afirma o especialista.

Ele avalia que investimentos de grande porte podem abrir oportunidades para empresas brasileiras de engenharia, prestação de serviços, tecnologia e fornecedores da cadeia de óleo e gás.

“O setor de energia serve como porta de entrada para a internacionalização de fornecedores brasileiros e serviços correlatos”, acrescenta Marco Aurelio.

A presença como operadora aumenta ainda a interação com governos e estatais locais. Na Costa do Marfim, por exemplo, a Petrobras trabalhará diretamente com a PETROCI. Em São Tomé e Príncipe, atua em parceria com a agência nacional de petróleo.

Próxima fronteira

Marco Aurelio considera que a atuação brasileira pode futuramente ultrapassar petróleo e gás.

“Como a Petrobras também tem buscado integrar investimentos em energias de baixa emissão de carbono, a presença no continente pode expandir-se no futuro para projetos conjuntos de biocombustíveis e energias renováveis”, projeta o professor.

Esse movimento, porém, ainda é uma possibilidade estratégica, não um conjunto de projetos africanos já contratado.

O atual plano da Petrobras mantém óleo e gás como principal destino dos investimentos, ao mesmo tempo em que prevê diversificação para negócios de baixo carbono, biocombustíveis e outras fontes de energia.

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