O príncipe herdeiro Haakon, de 53 anos, tornou-se rei Haakon VIII da Noruega nesta sexta-feira (28), após a morte de Harald V, aos 89 anos.
O antigo monarca estava internado desde 17 de agosto em Oslo e tratava uma infecção bacteriana no sangue. Harald ocupava o trono desde 1991 e era o monarca mais velho da Europa.
A sucessão interessa ao Brasil para além da relação diplomática entre os dois países.
A Noruega é atualmente a maior financiadora do Fundo Amazônia, mantém bilhões de dólares investidos na economia brasileira e possui empresas com atuação relevante em petróleo, gás, navegação, fertilizantes, alumínio e energia renovável.
A troca no trono, porém, não significa uma mudança automática nessas políticas.
A Noruega é uma monarquia constitucional e as decisões sobre orçamento, investimentos públicos e política externa são tomadas pelo governo e pelo Parlamento.
O rei exerce principalmente funções representativas e diplomáticas, inclusive na promoção dos interesses noruegueses no exterior.
O novo rei
A sucessão ocorreu automaticamente após a morte de Harald. Em reunião com o governo nesta sexta-feira, Haakon comunicou formalmente que havia assumido o trono conforme a Constituição e informou que adotaria o nome Haakon VIII, mantendo o lema utilizado pelo pai, pelo avô e pelo bisavô: “Tudo pela Noruega”.
Haakon nasceu em 1973 e passou décadas sendo preparado para a função. O novo rei estudou ciência política na Universidade da Califórnia, em Berkeley, fez mestrado em estudos de desenvolvimento na London School of Economics e passou pela Academia Naval Real da Noruega.
Nos últimos anos, já havia assumido interinamente funções do pai durante os períodos de afastamento por problemas de saúde.
A chegada ao trono também ocorre em um momento de desgaste para a família real.
Sua esposa, Mette-Marit, enfrentou repercussão pela relação mantida no passado com Jeffrey Epstein, enquanto Marius Borg Høiby, filho dela de uma relação anterior, foi condenado neste ano por crimes que incluem estupro. Mette-Marit também passou por um transplante de pulmão em junho.
Laços amazônicos
Haakon já possui uma relação direta com o Brasil e, principalmente, com a Amazônia.
Em 2015, quando ainda era príncipe herdeiro, ele liderou uma visita oficial de quatro dias ao país acompanhado por uma delegação empresarial e por representantes dos setores de energia, meio ambiente, pesquisa e educação.
A Casa Real norueguesa registra que Haakon esteve em Brasília, Rio de Janeiro e Belém.
No Pará, visitou iniciativas ligadas à proteção da floresta e conheceu o trabalho de monitoramento por satélite realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), parte das ações apoiadas pelo Fundo Amazônia.
Na mesma viagem, Haakon tratou publicamente da cooperação ambiental entre os dois países.
Em discurso sobre clima e biodiversidade, afirmou que a Noruega considerava a parceria com o Brasil estratégica para a preservação da floresta e recordou uma passagem do próprio pai pela região amazônica.
Harald havia realizado, aos 76 anos, uma viagem de quatro dias para o interior da Amazônia brasileira.
O monarca conviveu com indígenas Yanomami e chegou a dormir em uma rede durante a passagem pela floresta.
Maior doador
O vínculo ambiental tem peso financeiro. Dados oficiais do Fundo Amazônia, administrado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), mostram que a Noruega continua sendo, com ampla margem, o maior doador da iniciativa.
Até 30 de maio de 2026, o governo norueguês havia destinado R$ 3,804 bilhões ao fundo.
O total recebido de todos os financiadores era de aproximadamente R$ 5,256 bilhões, o que significa que os noruegueses responderam por cerca de 72% de todo o dinheiro recebido pelo mecanismo até aquela data.
A parceria começou formalmente em 2009. Em 2024, o governo da Noruega anunciou mais 670 milhões de coroas norueguesas para o Fundo Amazônia depois da redução registrada no desmatamento brasileiro.
A estratégia internacional publicada pelo governo norueguês em 2025 classifica o Brasil como o parceiro mais importante da Noruega na América Latina.
O documento inclui conservação das florestas, clima, energia e investimentos entre as áreas prioritárias para a relação bilateral.
Investimentos bilionários
A relação também envolve uma presença empresarial significativa. Segundo levantamento divulgado pela Embaixada da Noruega no Brasil, os investimentos noruegueses no País alcançaram quase US$ 14 bilhões (R$ 72,7 bilhões) em 2024, colocando a Noruega na posição de 12º maior investidor estrangeiro no mercado brasileiro.
O mesmo levantamento calcula que aproximadamente 300 empresas norueguesas possuem atividades no Brasil.
Cerca de 160 delas geram aproximadamente 34 mil empregos diretos e 84 mil indiretos, totalizando quase 120 mil postos relacionados à presença empresarial do país escandinavo.
Um dos casos de maior peso está no petróleo. A norueguesa Equinor iniciou em 2025 a produção do campo de Bacalhau, no pré-sal da Bacia de Santos.
A primeira fase recebeu investimentos de aproximadamente US$ 8 bilhões (R$ 41,56 bilhões), possui capacidade para produzir 220 mil barris diários e tem potencial superior a 1 bilhão de barris de óleo equivalente. A companhia prevê investir US$ 25 bilhões (R$ 129,87 bilhões) no Brasil até 2030.
Novas parcerias
Os dois países também ampliaram a cooperação para além do petróleo. Em 2025, Brasil e Noruega assinaram um memorando para desenvolver um corredor marítimo sustentável, destinado ao uso de navios movidos por tecnologias e combustíveis de baixo ou zero carbono entre os dois mercados. Em 2026, os Países Baixos passaram a participar das discussões.
Outra área de aproximação é a captura e o armazenamento de carbono. O Ministério de Minas e Energia informou que técnicos brasileiros visitaram projetos noruegueses em 2025 para conhecer tecnologias de captura, utilização e armazenamento de CO₂, conhecidas pela sigla CCUS.
A experiência passou a ser considerada na construção da regulamentação brasileira para o setor.
No comércio, a relação ganhou outro instrumento com a assinatura do acordo entre Mercosul e EFTA, bloco formado por Noruega, Suíça, Islândia e Liechtenstein.
O acordo de livre comércio foi assinado em setembro de 2025 e ainda precisa passar pelos procedimentos de ratificação dos países envolvidos.
Brasil e Noruega também passaram a contar com um novo acordo para eliminar a dupla tributação sobre a renda e combater evasão e elisão fiscais.
A convenção foi promulgada pelo governo brasileiro em março de 2025, depois de entrar em vigor no plano internacional no fim de 2024.
Poder limitado
Apesar do peso econômico da Noruega para o Brasil, Haakon VIII não decidirá sozinho se o país continuará financiando o Fundo Amazônia ou ampliando investimentos brasileiros.
O sistema parlamentar norueguês deixa as decisões políticas nas mãos do governo e do Parlamento, enquanto o rei atua como chefe de Estado e representante do país.
A relevância da mudança está principalmente no papel diplomático desempenhado pela monarquia.
A própria Casa Real afirma que seus integrantes representam a Noruega no exterior e ajudam a fortalecer interesses econômicos e políticos do país em diferentes regiões.
Haakon já desempenhou essa função no Brasil antes de chegar ao trono. Sua visita de 2015 reuniu autoridades e centenas de representantes empresariais, além de agendas ambientais na Amazônia, oferecendo um precedente de como o novo monarca poderá atuar na relação entre os dois países.
A linha sucessória também mudou nesta sexta-feira. Com Haakon no trono, sua filha mais velha, Ingrid Alexandra, de 22 anos, passou a ser a princesa herdeira e primeira na linha de sucessão da monarquia norueguesa.
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