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Geopolítica

Rússia ganha espaço no diesel, nos fertilizantes e no urânio do Brasil

Rússia chegou a dominar as compras brasileiras de diesel, respondeu por 25,9% dos fertilizantes importados em 2025 e participa do ciclo do combustível nuclear de Angra

Como é a relação entre Lula e Putin?

O Brasil produz hoje mais petróleo do que consome, exporta milhões de barris de óleo cru e domina tecnologia própria de enriquecimento de urânio.

Ainda assim, caminhões brasileiros rodam com diesel importado, o agronegócio depende do exterior para cerca de 85% dos fertilizantes utilizados e parte do combustível destinado às usinas nucleares de Angra passa pela indústria russa antes de chegar aos reatores.

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A Rússia conseguiu ocupar posições relevantes nas três cadeias. Em momentos de 2026, concentrou a maior parte das compras externas brasileiras de diesel.

Em 2025, respondeu por 25,9% das importações nacionais de fertilizantes, maior participação individual entre os fornecedores.

No setor nuclear, empresas ligadas à estatal Rosatom possuem contratos para conversão e enriquecimento de urânio destinado ao Brasil.

Quando ocorreu o primeiro choque do petróleo, em 1973, aproximadamente 80% do petróleo consumido pelo Brasil era importado.

A resposta brasileira incluiu a criação do Proálcool, investimentos em exploração e uma busca que levaria décadas até a autossuficiência na produção da matéria-prima.

“O que nós estamos vivenciando hoje não ocorreu sem que o Brasil percebesse. No primeiro choque do petróleo, o país já importava cerca de 80% do petróleo que consumia e respondeu a isso com programas como o Proálcool”, recorda Matheus Soares, diretor de Novos Negócios da Refina Brasil.

Quase meio século depois

O Brasil resolveu grande parte do problema da produção do petróleo, mas não eliminou sua dependência na transformação da matéria-prima em derivados, na produção dos insumos utilizados pelo agronegócio e em etapas especializadas do ciclo nuclear.

Brasil produz 4,6 milhões de barris de petróleo por dia, mas ainda importa diesel A contradição fica mais evidente no combustível que movimenta boa parte da economia brasileira.

Em agosto de 2026, o país produziu 4,615 milhões de barris de petróleo por dia, recorde e alta de 18,4% em relação ao mesmo mês do ano anterior.

Isso não tornou o Brasil autossuficiente em diesel. A própria Agência Nacional do Petróleo reconhece a existência de um déficit persistente na oferta doméstica.

Em 2025, as importações líquidas chegaram a 16,3 milhões de metros cúbicos, equivalentes a 27,3% da demanda interna.

Ao longo de 2026, a parcela importada oscilou conforme produção, consumo e disponibilidade internacional. Em alguns meses, ficou próxima de 30%.

“O problema é que, depois de aprender com a dependência da matéria-prima, o Brasil não fez os investimentos em refino em volume suficiente para garantir também autossuficiência em derivados”, avalia Soares.

Para o executivo, diesel é atualmente o ponto mais sensível porque seu preço se espalha rapidamente pela economia.

“É o cenário mais preocupante pela repercussão inflacionária em toda a cadeia e pela sensibilidade social. O diesel está no transporte, na agropecuária, nas obras de infraestrutura e na distribuição de praticamente tudo o que se consome no país”, observa o diretor.

Rússia virou fornecedora central

A entrada russa em grande escala ocorreu principalmente depois de 2022. Sanções impostas por Estados Unidos e União Europeia alteraram as rotas tradicionais do petróleo e dos derivados russos.

Moscou passou a oferecer volumes maiores para mercados que não aderiram às restrições, enquanto o Brasil manteve o comércio aberto.

Dados apresentados à ANP mostram a dimensão da mudança. A Rússia respondeu por 65% do diesel importado pelo Brasil em 2024 e por 57% em 2025. No primeiro trimestre de 2026, a participação havia caído para 47%, segundo informações do MDIC.

Mas essa média esconde oscilações muito mais bruscas. Entre março e abril deste ano, quando conflitos no Oriente Médio alteraram novamente as rotas de fornecimento, dados do Comex Stat apontaram que 81,25% do valor das importações brasileiras de diesel no período teve origem russa.

Em abril isoladamente, a proporção ficou próxima de 90%. Isso ajuda a explicar a referência feita por Soares a uma participação próxima de 80%.

O percentual, porém, não representa todo o ano de 2026. A dependência mudou rapidamente nos meses seguintes.

Em junho, a Rússia ainda respondia por aproximadamente 57% dos embarques destinados ao Brasil.

Depois de Moscou restringir exportações e ataques atingirem sua infraestrutura de refino, os Estados Unidos passaram a ocupar o espaço.

Em setembro, refinarias americanas respondiam por cerca de 80% das compras externas brasileiras, segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis.

Em poucos meses, o Brasil passou de forte concentração na Rússia para forte concentração nos Estados Unidos.

Trocar Rússia por Estados Unidos

A velocidade dessa mudança mostra que diesel é uma dependência parcialmente substituível.

Se um fornecedor reduz sua oferta, importadores procuram outro. Mas isso não significa que a vulnerabilidade desapareça.

Em setembro, quando Donald Trump passou a cogitar restrições às exportações americanas de diesel, importadores brasileiros voltaram a alertar para riscos ao abastecimento justamente porque os Estados Unidos haviam se tornado responsáveis por cerca de 80% das compras daquele mês.

“O risco está em colocar muitos ovos na mesma cesta. Quando se concentra a origem em um país que está submetido a conflitos, sanções, problemas logísticos ou decisões políticas internas, você também importa parte desse risco”, adverte Soares.

A guerra na Ucrânia atingiu refinarias russas. O conflito no Oriente Médio pressionou produtores e rotas do Golfo. E uma decisão política em Washington poderia atingir exportações americanas. O Brasil pode trocar fornecedores.

Não consegue, porém, substituir imediatamente os quase 30% do diesel que ainda precisa comprar no exterior.

Governo já gastou bilhões

A vulnerabilidade também passou para o Orçamento federal. Em março de 2026, o governo criou uma nova política de subvenção ao diesel para reduzir o impacto da disparada internacional dos combustíveis.

Somente no primeiro período do programa, a ANP pagou R$ 815,5 milhões a seis empresas por cerca de 2,5 bilhões de litros comercializados.

Novas rodadas foram adotadas ao longo do ano à medida que os conflitos continuaram pressionando preços.

Em setembro, o governo voltou a ampliar a subvenção. No fim daquele mês, o Ministério da Fazenda já contabilizava mais R$ 5 bilhões em crédito extraordinário que seriam necessários para o programa.

O valor unitário chegou a R$ 2,12 por litro em uma das medidas adotadas para conter a alta ao consumidor.

Soares argumenta que o gasto mostra o custo de administrar sucessivas crises sem resolver a restrição estrutural de oferta.

“O custo da falta de autossuficiência aparece quando o Estado precisa equalizar preços para que o consumidor brasileiro não pague integralmente a conta de um conflito que não lhe pertence”, argumenta o executivo.

A Refina Brasil representa refinarias privadas responsáveis por aproximadamente 20% da capacidade nacional de refino, portanto possui interesse direto nas políticas de expansão e nas regras de concorrência do setor.

Setor privado já propôs pelo menos 33 refinarias pequenas e médias Uma das soluções defendidas pela associação é pulverizar o parque de refino.

Em 2024, a Refina Brasil apresentou publicamente o Programa Pró-Refino, que previa a construção de ao menos 33 pequenas e médias refinarias em diferentes regiões do país.

À época, a associação informou que a proposta estava em discussão com o governo federal.

O número é superior às cerca de 20 unidades mencionadas por Soares na entrevista ao O Brasilianista.

O próprio executivo trata 20 como uma referência aproximada da escala necessária, e não como a quantidade exata de projetos atualmente licenciados.

“A construção de 20 pequenas refinarias é um número quase cabalístico, mas traduz um pouco do movimento que poderia levar o país à autossuficiência”, explica Soares.

Não existem hoje 20 ou 33 novas refinarias em construção. Trata-se de uma proposta da entidade, e não de um programa oficial aprovado pelo governo.

A Empresa de Pesquisa Energética já analisou as perspectivas de implantação de refinarias de pequeno porte, apontando que elas podem aproveitar petróleo produzido em campos terrestres, aumentar o número de agentes no mercado e ampliar a oferta regional de derivados.

Centro-Oeste não possui refinaria

A localização é uma das justificativas usadas pelo setor privado. O parque brasileiro é concentrado principalmente próximo ao litoral e aos maiores centros industriais.

Historicamente, o Centro-Oeste não possui refinarias, apesar da importância da região no consumo de diesel ligado ao transporte rodoviário e ao agronegócio.

Levantamento do IBGE já apontava a desigualdade territorial do refino e a ausência de unidades na região. Soares usa Mato Grosso como exemplo.

“Não há uma refinaria no Mato Grosso, um dos estados com enorme consumo de diesel pela frota do transporte agrícola, pela agropecuária e pelas obras de infraestrutura. Uma unidade menor poderia ser construída sob medida para aquela demanda regional”, detalha o diretor.

A lógica seria reduzir distâncias entre produção e consumo e espalhar capacidade industrial por áreas que hoje recebem derivados produzidos a centenas ou milhares de quilômetros.

Também poderiam ser contemplados estados como Tocantins e Pará, segundo o modelo defendido pela associação.

Ter refinaria não basta

A proposta encontra um obstáculo que raramente aparece no debate sobre autossuficiência. Petróleo.

O Brasil produz mais óleo cru do que necessita, mas uma refinaria privada instalada no interior precisaria conseguir comprar essa matéria-prima em quantidade, qualidade e preço economicamente viáveis.

“Temos o paradoxo de um país grande exportador de petróleo cru no qual uma refinaria que queira se instalar no Mato Grosso ou no Tocantins pode enfrentar enorme dificuldade para comprar petróleo brasileiro”, pondera Soares.

A associação defende mecanismos que garantam maior acesso de refinadores independentes ao óleo produzido no país.

Petrobras, por outro lado, responde por grande parte da produção e possui seu próprio parque de refino.

Petrobras quer aumentar o refino

A estratégia atual da Petrobras é distinta do programa defendido pelos refinadores privados.

No Plano de Negócios 2026-2030, a companhia prevê US$ 15,8 bilhões para refino, transporte, comercialização, petroquímica e fertilizantes.

A capacidade de processamento deverá subir de 1,8 milhão para 2,1 milhões de barris por dia até 2030, acréscimo de 320 mil barris diários.

A própria Petrobras afirma que essa expansão será obtida por projetos dentro das plantas existentes, “sem necessidade de construção de novas refinarias”.

No diesel S-10, os projetos podem acrescentar 307 mil barris por dia de capacidade até 2030, embora apenas 134 mil correspondam a volume adicional; o restante deriva da substituição da produção de S-500 por S-10.

A estatal também iniciou processo para uma nova unidade de hidrotratamento na Repar, no Paraná, e avalia projetos semelhantes na Refap e na Replan.

Se executados, podem acrescentar cerca de 70 mil barris diários de capacidade de Diesel S-10. As duas estratégias não são necessariamente excludentes.

O debate é sobre quanto da redução da dependência deve vir do aumento de capacidade das grandes refinarias existentes e quanto pode vir de novas estruturas privadas e regionalizadas.

Rússia ocupa um quarto das importações

A vulnerabilidade no campo é diferente. O Brasil importa atualmente cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza, segundo o Ministério da Agricultura.

Nesse mercado, a Rússia ocupa uma posição estrutural. Dados do Banco Central mostram que Moscou respondeu por 25,9% das importações brasileiras de fertilizantes em 2025.

A China apareceu em seguida, com 18,8%. Todos os países do Oriente Médio somados responderam por 14,5%.

Isso significa que aproximadamente um em cada quatro dólares gastos pelo Brasil com fertilizantes importados naquele ano estava associado a produtos russos.

Soja, milho e cana-de-açúcar, juntos, representam mais de 73% do consumo brasileiro de fertilizantes.

Nesse caso, uma interrupção prolongada teria potencial para afetar custos de produção agrícola, planejamento de safra e, dependendo da duração, preços.

Brasil sabe que depende de fertilizante estrangeiro

O governo criou o Plano Nacional de Fertilizantes, cuja estratégia vai até 2050.

A meta discutida pelo Ministério da Agricultura é fazer com que a produção doméstica consiga atender entre 45% e 50% da demanda nacional até 2050. Hoje, atende uma parcela muito menor.

Mesmo se a meta for alcançada, portanto, o Brasil ainda continuará comprando fertilizantes de outros países.

O objetivo não é necessariamente eliminar importações. É reduzir a concentração e criar margem de segurança diante de guerras, sanções, problemas logísticos e oscilações internacionais de preços.

A Rússia continuará importante enquanto possuir capacidade competitiva de produção de potássicos e nitrogenados e o Brasil não ampliar substancialmente sua oferta doméstica ou diversificar fornecedores.

Urânio brasileiro sai do país e volta depois

A terceira dependência tem escala econômica muito menor, mas envolve um setor considerado estratégico.

Em março de 2025, a Indústrias Nucleares do Brasil assinou contrato com a Internexco GmbH, empresa do grupo estatal russo Rosatom.

O acordo prevê a exportação temporária de até 275 mil quilos de concentrado de urânio produzido em Caetité, na Bahia, para realização no exterior de duas etapas do ciclo nuclear: conversão e enriquecimento.

Depois do processamento, o material deve retornar ao Brasil como hexafluoreto de urânio enriquecido a 4,25%, destinado à fabricação do combustível das usinas de Angra. A previsão contratual é de devolução até dezembro de 2027.

A contratação ocorreu por licitação internacional baseada no menor preço global entre fornecedores tecnicamente habilitados, segundo a INB.

Em julho, 240 toneladas de urânio enriquecido chegaram da Rússia

A relação não existe apenas no papel. Em julho de 2026, a INB recebeu aproximadamente 240 toneladas de UF6 enriquecido provenientes da Rússia, fornecidas pela TENEX, outra empresa do grupo Rosatom.

O material desembarcou no Porto do Rio de Janeiro e foi levado à Fábrica de Combustível Nuclear de Resende para produção da 22ª recarga de Angra 2.

Isso não significa que o Brasil não possua tecnologia nuclear. O país domina o enriquecimento de urânio por ultracentrifugação, tecnologia desenvolvida nacionalmente pela Marinha e pelo IPEN. O problema novamente é escala.

Brasil domina a tecnologia

A usina de enriquecimento da INB em Resende está sendo implantada por etapas.

Atualmente, sua capacidade instalada é suficiente para produzir cerca de 70% da quantidade de urânio enriquecido necessária para uma recarga de Angra 1.

A meta é alcançar capacidade suficiente para atender Angra 1 e Angra 2 e, futuramente, Angra 3. Existe ainda uma etapa que o Brasil não realiza industrialmente.

A conversão, processo que transforma o concentrado de urânio em hexafluoreto de urânio antes do enriquecimento, continua sendo a única fase do ciclo do combustível que a INB não executa no país.

Por isso, mesmo possuindo minério, tecnologia de enriquecimento e fábrica de elementos combustíveis, o Brasil continua contratando serviços externos. A Rússia é um desses fornecedores.

Diesel, fertilizante e urânio não têm o mesmo grau de dependência

Colocar os três setores juntos não significa afirmar que o Brasil possui uma única dependência uniforme de Moscou. São mercados completamente diferentes.

No diesel, a troca de fornecedor pode acontecer em questão de meses, como ocorreu quando Estados Unidos ocuparam o espaço deixado pela Rússia.

Nos fertilizantes, substituir um quarto das importações é muito mais complexo porque produção, qualidade do insumo, preço e logística limitam o número de alternativas disponíveis.

No ciclo nuclear, o volume é menor, mas a quantidade de empresas capazes de oferecer conversão e enriquecimento sob as exigências técnicas e regulatórias é reduzida. O ponto comum é outro.

Nas três áreas, o Brasil possui recursos ou capacidade produtiva relevante dentro de seu próprio território e, ainda assim, necessita de etapas realizadas no exterior.

A dependência da Rússia é parte de uma vulnerabilidade maior Soares rejeita a ideia de que o Brasil simplesmente tenha acordado agora para o problema.

A história das crises do petróleo mostra o contrário. O país respondeu ao choque dos anos 1970 desenvolvendo etanol, ampliando exploração e investindo em produção.

Décadas depois, chegou ao pré-sal e transformou-se em exportador líquido de petróleo.

Mas a autossuficiência na matéria-prima não produziu automaticamente independência em derivados. O mesmo contraste aparece na agricultura e na energia nuclear.

O Brasil é potência agrícola, mas compra a maior parte dos fertilizantes no exterior.

Possui grandes recursos de urânio e uma tecnologia de enriquecimento dominada por poucos países, mas ainda contrata etapas do ciclo nuclear fora de suas fronteiras.

“Essa pulverização de pequenas refinarias poderia trabalhar no sentido de garantir uma segurança maior para diferentes regiões do país e reduzir a exposição a choques energéticos globais”, defende o diretor da Refina Brasil.

A proposta beneficia diretamente o setor representado pela entidade e depende de questões econômicas, ambientais, logísticas e regulatórias para se tornar realidade.

Mas a discussão revela o tamanho do problema que vai permanecer independentemente de qual país ocupe o primeiro lugar entre os fornecedores.

A Rússia pode perder espaço para os Estados Unidos no diesel. Novos produtores podem reduzir sua fatia nos fertilizantes. O Brasil pode completar seu ciclo nuclear.

Enquanto isso não ocorre, a segurança econômica brasileira continuará sujeita a decisões tomadas em Moscou, Washington, Oriente Médio e outros centros produtores.

“O que nós precisamos discutir como política pública é um mecanismo estrutural de autossuficiência em derivados, e não apenas respostas emergenciais toda vez que surge uma nova crise internacional”, conclui Matheus Soares.

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