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Geopolítica

Brasileiros estão sendo recrutados para a guerra da Ucrânia e o Brasil não sabe quantos são

Itamaraty registra 38 brasileiros mortos e 102 desaparecidos no conflito, mas afirma não possuir estatística sobre o total de cidadãos que se alistaram

Soldados brasileiros
Recrutamento oficial ucraniano aceita candidatos em português e denúncias mostram brasileiros também atraídos para as forças russas Foto: Rafaela Biazi/Unsplash

O governo brasileiro sabe quantos cidadãos foram oficialmente comunicados como mortos ou desaparecidos na guerra entre Rússia e Ucrânia.

 O que Brasília não consegue dizer é quantos brasileiros viajaram para lutar, quantos permanecem no front ou quantos já retornaram.

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O último balanço público localizado pelo O Brasilianista registra 38 brasileiros mortos e 102 desaparecidos no conflito.

São 140 pessoas cujo destino chegou oficialmente ao conhecimento do Ministério das Relações Exteriores por comunicações de autoridades russas ou ucranianas.

O número não representa a quantidade total de brasileiros que passaram pelos exércitos envolvidos na guerra.

“Este Ministério não dispõe de estatísticas de brasileiros engajados em conflitos internacionais, uma vez que o alistamento em forças estrangeiras, ação que constitui ato personalíssimo, independe de ciência ou autorização do governo brasileiro.”

Essa lacuna transformou o Brasil em espectador de um fluxo que cresceu nos últimos dois anos.

Brasileiros podem se inscrever diretamente para servir nas Forças Armadas da Ucrânia, são abordados por recrutadores nas redes sociais e, em outra frente, aparecem entre estrangeiros levados para o Exército russo por ofertas que organizações internacionais classificam, em alguns casos, como recrutamento fraudulento e tráfico de pessoas.

Enquanto esse movimento avança, famílias no Brasil descobrem mortes e desaparecimentos por mensagens de companheiros de batalhão, redes sociais ou contatos posteriores com autoridades estrangeiras.

Mortos e desaparecidos

Os registros disponíveis permitem medir a velocidade do crescimento das baixas brasileiras, mesmo sem revelar o tamanho total do contingente.

Em fevereiro de 2026, o Itamaraty contabilizava 23 brasileiros mortos e 44 desaparecidos desde o início da guerra.

Dos 23 mortos registrados naquele momento, 12 haviam morrido somente em 2025. Entre os 44 desaparecidos, 34 casos também tinham sido incluídos durante aquele ano.

No fim de julho, o balanço havia subido para 35 mortos e 92 desaparecidos. Até o fim de agosto, o governo já registrava 38 mortes e 102 desaparecimentos.

Isso significa que, em cerca de seis meses, o total conhecido de brasileiros mortos ou desaparecidos passou de 67 para 140. Mais que dobrou.

A estatística, entretanto, possui outra limitação, o Itamaraty contabiliza os casos comunicados oficialmente pelas autoridades envolvidas no conflito.

Um brasileiro que viaja, assina um contrato, combate, retorna ao país e nunca necessita de assistência consular pode simplesmente não aparecer nessa base.

O mesmo vale para quem continua vivo e integrado a uma unidade militar. É por isso que 140 não é o número de brasileiros que foram à guerra.

É apenas o número daqueles que, até o último balanço localizado, morreram ou desapareceram e tiveram sua situação comunicada ao governo brasileiro.

Antes da chegada dos combatentes

Um dado histórico da própria diplomacia brasileira ajuda a mostrar como esse fluxo está fora das estatísticas tradicionais de brasileiros no exterior.

No levantamento Comunidades Brasileiras no Exterior, produzido pelo Itamaraty a partir das estimativas enviadas pelas representações diplomáticas, a Embaixada do Brasil em Kyiv calculava em apenas 65 o número de brasileiros residentes na Ucrânia no ano-base de 2023.

Esse número não pode ser comparado diretamente aos 140 mortos ou desaparecidos registrados atualmente.

Os 65 eram uma estimativa da comunidade brasileira residente no país. Os combatentes podem ter viajado posteriormente especificamente para lutar, sem estabelecer residência formal e sem se cadastrar perante a representação brasileira.

É justamente essa diferença que expõe o problema estatístico. O Brasil possui uma estimativa de sua comunidade tradicional na Ucrânia e recebe notificações sobre mortos e desaparecidos, mas não possui um cadastro que acompanhe quem saiu do país para entrar em uma guerra estrangeira.

A Embaixada do Brasil em Kyiv passou a exibir em sua própria página um alerta específico sobre a “Participação de Combatentes Brasileiros em Conflitos Armados em Terceiros Países”.

O aviso reconhece aumento do número de brasileiros mortos em conflitos internacionais e registra também casos de cidadãos que, depois de assinarem contratos militares, encontram dificuldades para abandonar as forças às quais se incorporaram.

A representação brasileira também mantém recomendação para que cidadãos evitem viagens à Ucrânia e, especialmente, regiões próximas às frentes de combate.

Ucrânia recruta estrangeiros oficialmente

Parte da presença brasileira não ocorre por redes clandestinas. A própria Ucrânia mantém uma estrutura governamental oficial para incorporar estrangeiros às suas Forças Armadas.

O portal oficial da International Legion for the Defence of Ukraine declara explicitamente ser um recurso do governo destinado ao recrutamento de voluntários estrangeiros.

Os candidatos precisam ter entre 18 e 60 anos, condições físicas compatíveis e possibilidade legal de entrar no país. Experiência militar é considerada uma vantagem, mas não é obrigatória. O português está entre os idiomas aceitos pelo programa.

O sistema informa ainda que estrangeiros incorporados são militares regulares das Forças Armadas ucranianas, com remuneração e benefícios equivalentes aos concedidos aos integrantes locais.

Segundo a página oficial, a remuneração aproximada varia conforme a função e a exposição, cerca de US$ 550 mensais longe da linha de frente, US$ 1.100 em zonas consideradas perigosas e até US$ 4.800 durante emprego em combate.

A estrutura militar ucraniana chegou ainda a anunciar vaga específica para recrutador-entrevistador com conhecimento de espanhol ou português dentro da 2ª Legião Internacional.

Autoridades ucranianas não tornam público o número total

Em 2026, uma autoridade citada pela DW afirmou que mais de 10 mil estrangeiros de cerca de 75 países já haviam combatido pela Ucrânia desde o início da invasão em larga escala.

O dado, porém, não separa nacionalidades. Isso impede saber qual parcela desse contingente veio do Brasil.

A existência de uma companhia lusófona, recrutamento em português e um número crescente de baixas oferecem indícios de uma presença relevante, mas não substituem uma estatística oficial.

O Brasil não autoriza o alistamento, e por isso também não consegue acompanhá-lo

Não existe um procedimento no qual um cidadão precise pedir autorização ao governo brasileiro para assinar contrato com uma força militar estrangeira.

Esse detalhe ajuda a explicar a lacuna. O Estado pode saber que determinado brasileiro morreu, desapareceu ou pediu assistência consular depois de ingressar em um Exército estrangeiro.

Mas não recebe necessariamente qualquer informação quando ele embarca.

O Ministério das Relações Exteriores passou a recomendar expressamente que brasileiros recusem ofertas de trabalho ou convites para ingressar em forças estrangeiras.

A advertência ressalta que a assistência consular pode ficar “severamente limitada” pelas obrigações assumidas nos contratos militares e que o governo brasileiro não tem obrigação automática de pagar passagens de retorno.

Há ainda outra diferença. Ingressar em um exército estrangeiro não transforma automaticamente um brasileiro em criminoso no Brasil.

O alerta do Itamaraty, contudo, lembra que atos praticados durante o conflito podem produzir responsabilização penal, inclusive com base nas regras brasileiras de aplicação da lei a determinados crimes cometidos no exterior.

A questão jurídica depende, portanto, da conduta praticada e das circunstâncias concretas, e não simplesmente da existência de um contrato militar estrangeiro.

Dois lados da guerra

A maior parte dos casos brasileiros conhecidos está ligada às forças da Ucrânia, mas esse não é um fluxo exclusivamente direcionado a Kyiv. Há também cidadãos brasileiros integrados às forças russas.

O Itamaraty registra brasileiros mortos ou desaparecidos no lado russo, embora em quantidade significativamente menor que nas forças ucranianas.

Só que o mecanismo de recrutamento identificado na Rússia apresenta características diferentes.

Em setembro, a Anistia Internacional publicou uma investigação sobre estrangeiros incorporados às Forças Armadas russas entre 2024 e 2026.

A organização entrevistou pessoas de Brasil, Colômbia, Cuba, Egito, Serra Leoa, Sri Lanka, Somália e África do Sul e concluiu que, em diversos casos, houve fraude, coerção e exploração suficientemente graves para caracterizar tráfico de pessoas segundo os parâmetros utilizados pela entidade.

Brasileiro acreditava ter conseguido emprego de tecnologia na Rússia

A investigação da Anistia encontrou estrangeiros atraídos por anúncios de empregos civis em segurança, logística, construção e tecnologia.

Segundo a organização, candidatos receberam promessas de salários elevados e, em alguns casos, facilidades para obter cidadania russa.

Ao chegar ao país, alguns descobriram que o trabalho oferecido era, na prática, serviço militar.

Um dos casos documentados é o de um brasileiro identificado pelo nome fictício Pedro, profissional de tecnologia.

Ele teria viajado acreditando que havia assinado contrato para um emprego bem remunerado no setor de TI. Depois, acabou incorporado às forças russas e enviado para treinamento militar.

A Anistia relata que brasileiros recrutados tiveram passaportes e celulares retirados antes de serem enviados ao front.

O brasileiro entrevistado afirmou ainda ter sido ameaçado quando tentou abandonar a unidade.

A organização afirma ter identificado um padrão no qual recrutas estrangeiros recebiam preparação mínima, em alguns casos de cerca de duas semanas, antes de serem enviados às zonas de combate.

Famílias podem descobrir a morte antes do governo brasileiro

Essa ausência de registro aparece com frequência depois que ocorre uma baixa.

O maranhense Leotan Vieira Abreu, de 28 anos, deixou o trabalho de motorista e viajou para a Ucrânia em julho de 2026.

Segundo familiares, ele pesquisava o processo de alistamento havia anos e entrou em contato com recrutadores pelas redes sociais.

Em agosto, a família foi informada por um companheiro de combate de que ele teria morrido após pisar em uma mina.

O Itamaraty afirmou na ocasião que não divulga informações pessoais sobre atendimentos consulares e que seus números gerais dependem de comunicações oficiais dos governos russo e ucraniano.

Outro caso foi o do catarinense Paulo Ricardo Dutra, de 24 anos. Familiares relataram que ele encontrou pela internet a possibilidade de viajar à Ucrânia e morreu durante sua primeira missão no front, em setembro.

A Embaixada do Brasil em Kyiv buscava confirmação oficial do caso e prestava assistência aos parentes. Há ainda situações em que localizar o corpo leva meses.

O corpo do brasileiro Bruno de Paula Carvalho Fernandes, morto em setembro de 2025, só chegou ao Brasil aproximadamente um ano depois.

Para uma família, portanto, “desaparecido” pode significar meses de espera entre informações recebidas de soldados, reconhecimento oficial, localização do corpo e eventual traslado.

102 brasileiros oficialmente desapareceram

Os 102 desaparecidos representam hoje a maior parte do balanço brasileiro. Essa categoria também exige cautela.

Um desaparecido em combate pode estar morto em uma área que não pôde ser recuperada, hospitalizado sem identificação, capturado, afastado de sua unidade ou simplesmente permanecer sem comunicação.

O governo brasileiro depende das autoridades militares estrangeiras para alterar formalmente essa classificação.

Por isso, números produzidos por familiares, associações de combatentes ou levantamentos em redes sociais podem divergir dos registros consulares.

A própria Deutsche Welle encontrou contagens não oficiais que apontavam mais de cem brasileiros mortos, número muito superior às mortes oficialmente reconhecidas pelo Itamaraty na época.

Não significa que a estimativa seja necessariamente correta. Mostra que existe um intervalo entre o que circula entre unidades e familiares e aquilo que os governos conseguem comprovar oficialmente.

O Brasilianista procurou a Embaixada da Ucrânia no Brasil para solicitar informações sobre o número de brasileiros incorporados às Forças Armadas ucranianas, os mecanismos de recrutamento, contratos e casos de mortos e desaparecidos. Até a publicação desta reportagem, não houve retorno.

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