A disputa entre Rússia e países da Otan passou a ter um novo espaço de tensão, o fundo do mar.
Reino Unido, Noruega e Estados Unidos interceptaram, na primavera deste ano, uma operação russa nas proximidades do arquipélago de Svalbard, no Ártico.
Segundo duas autoridades ocidentais ouvidas pela Reuters, embarcações ligadas à unidade russa de guerra submarina GUGI utilizavam veículos de grande profundidade para simular o emprego de uma tecnologia capaz de danificar cabos submarinos sem deixar evidências claras da autoria. Nenhum cabo foi atingido.
O episódio ajuda a explicar por que Reino Unido e países do norte da Europa aumentaram o acompanhamento de navios russos no Mar do Norte, Báltico e Atlântico Norte.
Para João Estevam, professor de Relações Internacionais da Universidade Anhembi Morumbi, a preocupação vai muito além de impedir uma interrupção temporária da internet.
“A preocupação principal desses países, particularmente do Reino Unido, dos países nórdicos e da Europa como um todo, é a tentativa da Rússia ou de países aliados à Rússia de minar a capacidade de comunicação tanto civil quanto militar”, afirma o professor ao O Brasilianista.
Debaixo do mar
A imagem de uma guerra tecnológica costuma remeter a hackers, invasões de sistemas e ataques cibernéticos.
Mas grande parte da infraestrutura que sustenta essa circulação digital continua sendo física.
Os cabos instalados no fundo dos oceanos transportam mais de 95% do tráfego internacional de internet, segundo a Otan.
No caso britânico, o governo estima que eles respondam por 99% das telecomunicações internacionais do país.
É justamente essa dependência que, segundo Estevam, torna a infraestrutura atraente em um confronto.
“Por mais que seja cada vez mais comum falar de cibersegurança, ciberdefesa e ciberguerra, boa parte dessa infraestrutura de informações e dados tem um lastro numa infraestrutura física”, explica o professor.
O especialista cita dois exemplos imediatos.
“A gente pode falar tanto de data centers, como é o que mais tem sido colocado sobre inteligência artificial, quanto também dos cabos submarinos”, exemplifica o docente.
Um ataque não precisaria, portanto, invadir os computadores de um governo. Poderia atingir fisicamente a estrutura pela qual os dados passam.
“Boa parte da comunicação das informações e dados que são compartilhados se dá a partir dessa infraestrutura”, observa Estevam.
Comando militar
No cenário mais grave, o efeito não seria apenas deixar usuários sem acesso a determinados serviços.
Os mesmos sistemas que sustentam comunicações bancárias, empresas, governos e serviços públicos também são importantes para forças militares.
“O que a Rússia pode fazer é tentar utilizar essa destruição, ainda mais uma destruição que pareça acidental desses cabos submarinos, para minar a capacidade de comando, controle e inteligência dos países da Otan ou dos países aliados à Otan”, detalha o pesquisador.
A lógica seria dificultar a comunicação entre diferentes estruturas militares durante uma crise.
“O objetivo seria justamente minar essa capacidade de comando e controle, ou seja, de comunicação entre os diferentes níveis e unidades das tropas desses Estados”, acrescenta o professor.
Para Estevam, o impacto poderia alcançar também a articulação entre países aliados.
“Prejudicaria a relação com os outros Estados também, para evitar que eles consigam agir de maneira coordenada”, ressalta Estevam.
Essa sobreposição explica o que o professor chama de dimensão dual da infraestrutura.
“Cada vez mais aquilo que envolve internet e compartilhamento de dados tem uma dimensão dual, tanto para uso civil quanto para militar”, pontua o docente.
Operação russa
O episódio revelado nesta semana mostra por que a hipótese passou a ser tratada de forma concreta pelos países da Otan.
A operação russa ocorreu perto de Svalbard e envolveu equipamentos capazes de atuar em grandes profundidades.
Autoridades ocidentais disseram que forças britânicas, norueguesas e americanas rastrearam os movimentos e confrontaram as embarcações russas, que deixaram a região antes de concluir a simulação.
Os cabos naquela área ligam Svalbard à Noruega continental e são importantes inclusive para a transmissão de dados de satélite.
Não houve dano à infraestrutura. A preocupação das autoridades está no que teria sido testado.
A movimentação foi atribuída à GUGI, diretoria russa especializada em operações de águas profundas e conhecida no Ocidente pela utilização de submarinos e embarcações capazes de operar junto a estruturas instaladas no leito marinho.
A interceptação ocorreu meses antes de o episódio se tornar público.
Guerra ou sabotagem?
A destruição deliberada de um cabo abre uma pergunta mais complicada, cortar a infraestrutura de outro país seria suficiente para iniciar uma guerra?
Estevam afirma que a resposta depende de fatores como localização, jurisdição, autoria e dimensão do ataque.
“Depende da jurisdição onde se encontra aquele elemento. Aí seria uma questão mais de jurisdição”, pondera o professor.
Se ficar demonstrado que um Estado atacou deliberadamente uma infraestrutura estratégica de outro, o cenário muda.
“Um ataque à infraestrutura, sim, seria um ataque. Poderia ser entendido como um ato de guerra, algo parecido com atacar uma infraestrutura civil ou mesmo militar”, avalia Estevam.
Mas isso não significa que automaticamente haveria tanques, aviões e tropas entrando em combate.
“Pode haver atos de sabotagem, atos de danificação de infraestrutura, que não levem necessariamente a um conflito armado prolongado”, comenta o pesquisador.
É aí que aparece uma das vantagens estratégicas desse tipo de ação, a ambiguidade.
Um cabo pode ser rompido por acidente, por uma âncora arrastada no fundo do mar ou deliberadamente. Comprovar a intenção e apontar quem deu a ordem pode levar tempo.
“Nas últimas ações militares entre países ocidentais, particularmente os Estados Unidos, Rússia e outros países, existe uma tendência de ataques à infraestrutura militar ou estratégica que não levam necessariamente a uma guerra no sentido mais convencional”, analisa o docente.
Zona cinzenta
Essa distância entre paz e guerra aberta é frequentemente descrita como uma zona cinzenta.
Sabotagem, ataques cibernéticos, espionagem, interferência política e ações contra infraestrutura podem produzir danos sem obrigar imediatamente o adversário a responder militarmente.
A própria Otan passou a tratar os cabos submarinos dentro da discussão sobre ameaças híbridas.
Depois de uma sequência de danos a cabos de energia e telecomunicações no Báltico, a aliança lançou, em janeiro de 2025, a operação Baltic Sentry.
Fragatas, aeronaves de patrulha e drones navais passaram a acompanhar áreas consideradas vulneráveis.
Reino Unido e outros nove países da Força Expedicionária Conjunta criaram ainda o Nordic Warden, sistema que utiliza inteligência artificial para analisar o comportamento de embarcações e identificar aquelas que representam risco à infraestrutura submarina.
Dinamarca, Estônia, Finlândia, Islândia, Letônia, Lituânia, Noruega, Países Baixos e Suécia participam da iniciativa liderada pelos britânicos.
O sistema acompanha áreas do Canal da Mancha, Mar do Norte, Kattegat e Báltico.
Navios russos
O Reino Unido também passou a acompanhar de forma mais frequente embarcações militares e comerciais russas.
Somente nos primeiros sete meses deste ano, a atividade da Marinha britânica destinada a monitorar movimentações russas aumentou 25% em relação a 2025.
Em julho, navios e helicópteros britânicos passaram 21 dias envolvidos nessas operações.
Em agosto, três navios britânicos acompanharam o destróier russo Admiral Levchenko e embarcações sancionadas durante uma operação de 72 horas pelo Mar do Norte e Canal da Mancha.
Outro nome que provocou preocupação foi o Yantar. O governo britânico afirma que o navio russo, oficialmente voltado a pesquisas oceanográficas, foi utilizado para mapear infraestrutura crítica submarina do Reino Unido.
Em uma das operações, um submarino britânico chegou a emergir próximo ao Yantar para deixar claro à tripulação que estava sendo acompanhada.
Infraestrutura vulnerável
Mesmo com toda a vigilância, Estevam chama atenção para um problema difícil de eliminar, os cabos percorrem distâncias gigantescas e permanecem fisicamente expostos.
“Essa infraestrutura ainda é bastante vulnerável e boa parte da gestão de informação e de dados, tanto civis quanto militares, seria drasticamente prejudicada”, alerta o professor.
Existem mais de 1 milhão de quilômetros de cabos submarinos espalhados pelo planeta, segundo dados reunidos pela Otan.
Além da internet, eles sustentam diariamente trilhões de dólares em transações financeiras.
Proteger toda essa extensão permanentemente é praticamente impossível. Por isso, as estratégias atuais concentram-se em identificar comportamentos suspeitos de navios, acompanhar áreas críticas e criar caminhos alternativos para dados caso uma conexão seja interrompida.
A Otan testa inclusive sensores submarinos capazes de identificar o som e o movimento de uma âncora arrastada pelo fundo do mar, método suspeito em alguns dos incidentes recentes envolvendo cabos no Báltico.
Ataque cibernético
Para Estevam, a preocupação não pode ser separada da experiência russa com operações cibernéticas.
Ele lembra a guerra entre Rússia e Geórgia, em 2008, quando ataques digitais atingiram sites e estruturas de comunicação georgianas paralelamente ao confronto militar.
“Pode haver uma tendência de danificação desses recursos tanto por uma via cibernética, como a Rússia já fez, inclusive no caso da guerra contra a Geórgia em 2008, quanto também pelo ataque à infraestrutura física”, recorda Estevam.
A possibilidade mais difícil de administrar seria justamente a combinação das duas formas.
“Então, esses são os pontos que a gente tem que analisar”, conclui o pesquisador.
Siga O Brasilianista

