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Economia

O que saiu do papel desde o início do plano de reestruturação dos Correios

Correios passaram a trabalhar em um plano de reestruturação após acumular prejuízos

O que saiu do papel desde o início do plano de reestruturação dos Correios
Plano envolve ajuste em plano de saúde, previdência e mais 15 mil demissões voluntárias Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

Os Correios sintetizam a crise por um conjunto de fatores, estando entre os motivos o “colapso do modelo de negócios tradicional da empresa”.

Como informa a companhia ao considerar as mudanças trazidas pela “digitalização das comunicações”, a principal fonte de recursos da estatal eram as cartas. Com o avanço da telefonia e de seus serviços, a receita da empresa caiu de R$ 5,6 bilhões em 2006 para R$ 3,93 bilhões em 2024.

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Por causa de sua função social, as receitas dos Correios também serviam para subsidiar entregas em áreas remotas, onde o custo seguia sendo maior e o retorno financeiro era pequeno.

É obrigação da companhia atender a todo o território nacional, mesmo não sendo uma atividade comercial viável. Agora, com um déficit de R$ 4 bilhões anuais, conforme o registro do ano passado, a empresa não consegue mais bancar as regiões deficitárias com os recursos disponíveis.

E-commerce e rombo

Os Correios passa a perder receita com a expansão da livre concorrência no mercado de encomendas, impulsionada pela Taxa das Blusinhas, com o market share disputado diretamente pela iniciativa privada Fernando Frazão/Agência Brasil

As empresas concorrentes, que ofertavam serviços semelhantes, saltaram de R$ 3,6 bilhões em 2006 para R$ 15,5 bilhões em 2024. O ano de 2016 foi o momento em que essas companhias passaram a crescer mais do que a própria estatal, sendo também o ano em que o e-commerce (o serviço de vendas online) passou a ganhar mais projeção no mercado logístico.

Os gastos com despesas de pessoal correspondem a quase 60% das receitas da companhia, e as restrições de caixa afetam o setor operacional, o que gerou ainda mais perdas.

Se o modelo de negócio não mudar, a situação financeira da companhia, que hoje apresenta um rombo de R$ 4 bilhões, pode crescer para R$ 23 bilhões, segundo projetou a própria empresa.

O que diz o plano

O plano de reestruturação envolveu um conjunto de metas criado em dezembro de 2025, que passaria a entrar em operação em janeiro de 2026.

Para reverter a crise, a primeira fase envolvia, até março deste ano, a recuperação do caixa. A ideia se baseia em levantar R$ 12 bilhões com grandes instituições financeiras (entre elas, Banco do Brasil, Caixa, Itaú, Bradesco e Santander) para evitar que a empresa pare suas operações.

Com base nesse recurso, os Correios passariam a pagar e renegociar suas obrigações financeiras e dívidas, justamente para evitar a perda de confiança entre fornecedores e credores.

O Brasilianista procurou os Correios e o Postal Saúde a fim de compreender o andamento do processo de reestruturação e das dívidas da companhia e do Postalis, além de entender o status do plano de reestruturação previsto para ser concluído em 2027, em meio às mudanças solicitadas pelo Tribunal de Contas da União. Até a publicação desta matéria, não houve retorno e o espaço segue aberto.

Segunda e terceira fases

A segunda fase, que tem início em 2026 e deve seguir para o próximo ano, inclui medidas de reestruturação e redução de despesas. A medida envolve a criação do Programa de Demissão Voluntária (PDV) para 15 mil empregados, a revisão de cargos de alta e média remuneração e ajustes no plano de saúde e previdência, o que pode gerar, de acordo com as estimativas dos Correios, uma economia anual de R$ 2,1 bilhões.

Cerca de 1 mil unidades também seriam fechadas, mas a operação de universalização continuaria, além da melhoria nas rotas e nos centros de distribuição. Para essa operação, estima-se uma economia de R$ 2,1 bilhões.

Essa fase também envolve a venda de imóveis e o aluguel desses mesmos espaços para obter capital (operações de sale & leaseback), o que poderá gerar um ganho de R$ 1,5 bilhão para a receita. Os Correios planejam, com esse tratamento, automatizar centros de tratamento de remessas, modernizar a infraestrutura logística e renovar a frota de transportes.

A partir do próximo ano, na terceira fase, entrará em ação um plano de negócios focado em inovação e parcerias para obter novas fontes de receita. A companhia contrataria uma consultoria para redesenhar processos e estratégias.

A análise do TCU

O Tribunal de Contas da União (TCU) avaliou aspectos fiscais e orçamentários dos Correios com o objetivo de identificar os riscos fiscais, de liquidez e de dependência de aportes do Tesouro Nacional.

A avaliação aponta que, desde a abertura do mercado para empresas privadas, especificamente no segmento de entregas de remessas internacionais com base na Lei 14.904/2024, a participação das receitas dos Correios caiu de 93% em agosto de 2024 para 31% em junho de 2025.

“As receitas obtidas pela ECT com a entrega de mercadorias tiveram uma redução de R$ 2,2 bilhões em relação ao previsto”, disse o ministro Benjamin Zymler.

Com base no plano de reestruturação, os Correios iriam receber um aporte de até R$ 20 bilhões com garantia da União, mas o Tesouro Nacional recusou a operação. Na avaliação do Tesouro, a medida foi rejeitada porque envolvia o pagamento de juros de 20% ao ano, valor acima do limite de 18% estabelecido pela União para a concessão de garantias.

Lembrando que esse aporte seria solicitado, em parte, na fase 1 da reforma, com R$ 12 bilhões sendo arcados por diferentes grupos do setor financeiro. O restante, no valor de R$ 8 bilhões, ficaria para 2026, sem aporte direto da União.

Os riscos da ECT

O TCU alertou que, com base nas demonstrações financeiras de abril de 2026, o resultado líquido dos Correios em 2025 registrou um prejuízo de R$ 8,5 bilhões.

A auditoria, ao analisar o Plano de Reestruturação da ECT, identificou dois problemas centrais: o plano não apresenta de forma objetiva os fundamentos operacionais e econômico-financeiros que justificariam as projeções de recuperação.

“Com relação aos riscos fiscais decorrentes da atual situação da ECT, cumpre destacar inicialmente que a empresa se encontra em situação de insolvência técnica, com Patrimônio Líquido negativo de R$ 13,16 bilhões, prejuízo de R$ 8,5 bilhões e índice de liquidez corrente de 0,55 (2025)”, destacou o ministro.

Diante da falta de detalhes sobre como medidas como o PDV (Plano de Demissão Voluntária), o fechamento de 1 mil agências, a venda de imóveis e a execução de sete parcerias serão implementadas, há o risco, segundo o TCU, de essas ações “não serem suficientes para assegurar a sustentabilidade”. Isso acarretaria a necessidade de novos aportes da União para os Correios ou “de novos empréstimos ainda no ano de 2026”.

Não há “confiança”, por parte do TCU, de que a empresa, que apresenta “deterioração severa”, possua capacidade de pagamento. Como resultado, o Tribunal solicitou o aprimoramento do plano de reestruturação por meio da inclusão de indicadores metodológicos claros.

Além disso, recomendou que os órgãos responsáveis, o Ministério da Fazenda e o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, revisem o processo de controle para a aprovação de planos de reestruturação.

Os primeiros resultados

O plano de reestruturação apresentou resultados parciais, abaixo das etapas projetadas.

Os Correios, em 2026, conseguiram apresentar duas iniciativas na área de inovação: a criação de uma conta digital com a Dock, para ofertar serviços financeiros de pagamento, e o Mais Correios, um marketplace que oferece diversos produtos de casa, tecnologia, setor têxtil, alimentação e cosméticos.

Em paralelo, o resultado financeiro da empresa registrou um prejuízo de R$ 8,5 bilhões, saldo que deve continuar acumulando em 2026.

Em relação ao plano de demissão voluntária, ao menos 3,2 mil funcionários aderiram. De acordo com o projeto, a meta é atingir 10 mil adesões até o fim do ano.

Sobre a mobilidade, após a reformulação das rotas de entrega, a empresa pública informou que os atrasos diminuíram 43% e que 40% das dívidas em atraso foram renegociadas, o que gerou uma economia de R$ 321 milhões para o caixa.

Ainda não há informações sobre a quantidade de agências fechadas, conforme projetava o plano.

Outro fato relevante a ser acrescentado é que ainda está sendo estruturado um empréstimo de R$ 7 bilhões, por meio de aportes bancários, para compor o caixa. Citibank, Deutsche Bank, Banco ABC e J.P. Morgan estruturam esse possível novo financiamento, que ainda depende da autorização do Tesouro Nacional.

Contramão

Durante a gestão Lula, os Correios retomaram os patrocínios em eventos. Entre os casos revelados pelo Poder360, a estatal adotou a prática sob a justificativa de melhorar sua "imagem institucional".

Entre 2019 e 2022, a estatal havia gastado apenas R$ 430 mil no setor; em 2024, esse valor saltou para R$ 34 milhões. Os Correios chegaram a firmar um patrocínio de R$ 600 mil para uma feira do livro em Bogotá, na Colômbia. Já para a Bienal do Livro realizada em São Paulo, foram disponibilizados R$ 400 mil.

A estatal realizou outros gastos comprometedores em meio à crise financeira. No fim de 2024, disponibilizou R$ 200 milhões para pagar a mais de 84 mil funcionários um "vale-peru" de R$ 2.500.

Sob a gestão Lula, o governo decidiu desistir de recorrer de uma ação no Tribunal Superior do Trabalho no valor de R$ 614 milhões. A decisão foi tomada sem consulta à AGU e sem pareceres jurídicos.

Escolhas políticas

O presidente da estatal é escolhido pelo Presidente da República, alinhando-se ao perfil da administração que comanda o Palácio do Planalto.

Os Correios também assumiram um contrato de R$ 7,6 bilhões com o fundo de pensão Postalis para tentar cobrir parte do déficit do plano de aposentadoria. A dívida total é de R$ 15 bilhões, e a outra metade seria paga por aposentados e pensionistas da estatal.

Em 2025, a Postal Saúde, criada em 2013 na gestão Dilma Rousseff, registrou um prejuízo de R$ 844 milhões, atribuído à falta de repasses financeiros dos Correios. Em 2024, essa provisão de repasses estava em R$ 350,3 milhões.

O que diz o especialista? 

O Brasilianista conversou com o economista e professor da UnB, Newton Marques, a fim de explicar a crise em torno dos Correios e avaliar se o plano de reestruturação tem, de fato, condições de sair do papel.

O plano dos Correios prevê captar R$ 12 bilhões junto a instituições financeiras para recuperar o caixa. Na sua avaliação, esse volume de recursos é suficiente para reverter a crise ou apenas adia um problema estrutural?

O custo de manutenção, de você carregar a empresa, é muito alto. Em geral, a empresa pública começa a fazer concessões para os trabalhadores, por exemplo. Não que isso seja uma coisa ruim, mas ele tem que olhar para o outro lado, o da receita, e conseguir compensar esse aumento, essa oneração e esse custo do trabalho. Ele tem também um custo fixo alto, porque durante muito tempo os Correios, com base em uma análise, viram que alugar os imóveis seria uma situação pior do que comprar. Então, a empresa passou a se imobilizar.

A questão principal dos Correios é que eles tinham o problema de não ter gestão financeira. Não têm capacidade financeira. É mais ou menos, guardadas as proporções, o que acontece com o BRB, só que o banco vive com dinheiro líquido, precisa ter dinheiro a todo momento. Entra dinheiro, sai dinheiro.

Nos Correios não é isso, mas você precisa ter um resultado econômico para poder compensar os seus custos. Caso contrário, você sucumbe. Imagine: a receita não aumenta, a despesa aumenta muito mais e você tem um custo fixo, um custo de imobilização muito elevado. Qual foi a razão disso? Primeiro, os Correios não acompanharam a evolução do e-commerce.

Muitas empresas do e-commerce conseguiram ficar à frente dos Correios. E os Correios, em alguns momentos, também sobreviveram com a chamada taxa de impostos sobre as importações de bens de pequeno valor, e isso acabou. E o pior de tudo, sabe o que é? A empresa pública é um espaço político. Se você for ver os representantes que passaram por lá ao longo do tempo, foi sempre para acomodar o equilíbrio do governo no Congresso. O governo não tinha condições de ter uma ingerência maior sobre a gestão da empresa. Então virou cabide de emprego, virou coisa de compadrio e não teve nada de profissional. Enquanto isso, as coisas foram acontecendo e as concorrentes foram competindo muito melhor. Com isso, acumulou-se uma dívida muito elevada.

Considerando que o principal problema apontado pela empresa é o colapso do modelo tradicional de negócios, as medidas de corte de custos e redução de pessoal são suficientes ou os Correios precisam de uma transformação mais profunda no seu modelo de atuação?

Para aumentar a rentabilidade, tem que cortar custos. E aí não é fácil mandar o pessoal embora. O que eles tentaram? O PDV. Mas ninguém é bobo. Quem adere ao PDV ou tem alguma coisa em mente ou realmente está desinformado, porque, em geral, eles pagam muito menos do que a pessoa vale. Tem também o problema do Postalis, no qual o ex-ministro Paulo Guedes foi contratado como consultor e ajudou a complicar a situação.

O Postalis é um fundo de previdência privada que administra as aposentadorias. Ele capta recursos e faz as aplicações pensando nessa aposentadoria. Muita gente que estava no Postalis tomou prejuízo e teve que aportar mais dinheiro. Além do que já tinha pago, teve que pagar mais.

E o próprio Correios também, porque há a parte do patrão, do empregador, e a outra parte do empregado. O empregador teve que entrar com a maior parte. Tudo isso causa um rombo.

A solução apontada pelos economistas é vender os Correios, privatizar ou fazer uma gestão de caráter privado. O governo Lula resolveu, politicamente, assumir a gestão, e as coisas vão se arrastando. Então você vê que o próprio governo federal ficou como fiador, como avalista.

A aposta em inovação, parcerias e novas fontes de receita pode recolocar os Correios em posição competitiva diante do avanço das empresas privadas de logística e do comércio eletrônico? Quais seriam os caminhos mais promissores?

A questão é qual modelo eles vão escolher. É um modelo solo? É um modelo compartilhado? Que solução vai ser dada? Porque tem isso também: a empresa deve propor ao governo uma solução clara.

Vai ter que dar tempo de novo para eles se desfazerem do patrimônio e dos imóveis e ver se precisam melhorar o PDV. Eles vão ter que dar uma enxugada, e isso é indispensável em qualquer programa de racionalização de uma empresa: você tem que demitir e enxugar custos. É demitir, vender bens imóveis e renegociar a dívida.

O economista vê sempre essa relação de custo-benefício. Qual é o custo de manter? Qual é o benefício gerado? Então, não dá para reinventar a roda. Houve uma época em que se pensava diferente e se estava sempre alinhado com o que o governo pensava, mas você precisa analisar sob a ótica do custo-benefício. Qual é o custo de manter? Hoje, ele é muito maior do que o benefício.

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