Veículos de imprensa americanos processaram na última segunda-feira (21) o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump e outros integrantes do governo após serem barrados de acessar a Casa Branca. CNN, MS NOW e Politico assinam a ação.
As empresas alegam que a medida violou seus direitos à liberdade de expressão e de imprensa garantidos pela Primeira Emenda da Constituição dos Estados Unidos. Elas pedem uma ordem judicial temporária para bloquear a medida de Trump e as audiências de emergência podem ser marcadas para essa semana.
O republicano anunciou a proibição na última sexta-feira (18), nas redes sociais e alegou, sem provas, que os veículos de imprensa representam uma ameaça à segurança nacional.
Porém, essa disputa não é apenas sobre Trump, CNN ou os outros veículos ne notícia. Para José Renato Ferraz da Silveira, professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), essa é uma questão clássica das democracias.
"O poder aceita ser fiscalizado justamente quando a fiscalização é incômoda, a liberdade de imprensa não é testada quando os jornalistas elogiam o governo, ela é testada precisamente quando publicam aquilo que o governante não gostaria de ler. Agora caberá também ao Judiciário americano estabelecer onde termina o poder administrativo da Presidência sobre o acesso à Casa Branca e onde começa uma retaliação incompatível com a Primeira Emenda", afirma.
Existe uma diferença entre o governo organizar o acesso físico à Casa Branca e selecionar jornalistas de acordo com a cobertura que realizam. Para os veículos, eles sustentam que perderam suas credenciais por causa do conteúdo de sua cobertura caracterizando discriminação por ponto de vista.
Do outro lado, Trump afirma que são veículos de fake news e que fazem, de forma deliberada, cobertura negativa contra o seu governo. Ele reconheceu nas publicações sobre o tema que a decisão resulta do acúmulo de reportagens dos últimos dois anos que considera negativa.
No entanto, o especialista não considera a situação como censura explícita.
"O governo não está nesse episódio específico realizando censura prévia sobre aquilo que CNN, MS NOW ou Politico podem publicar. Eles continuam publicando. Esse é um ponto importante, mas estamos diante de uma restrição governamental de acesso baseado, segundo os veículos, pelo conteúdo editorial. E isso levanta uma questão constitucional séria sobre liberdade de imprensa e retaliação estatal", explica o professor.
Um outro elemento de preocupação é a capacidade do governo em poder determinar quem entra na Casa Branca com base na cobertura que considera favorável ou desfavorável. Isso porque cria-se um incentivo para que jornalistas moderem sua atuação para preservar acesso ao presidente.
Os repórteres dos veículos impedidos tiveram as credenciais desativadas e foram efetivamente barrados de entrar. Trump também sugeriu que outros veículos poderiam sofrer medidas semelhantes.
Estratégia midiática
O conflito político com a imprensa faz parte de sua maneira de construir politicamente a realidade, segundo Silveira.
Trump trabalha há anos com uma oposição entre duas fontes de legitimidade. De um lado, instituições mediadoras, imprensa tradicional, especialistas, burocracias, e determinadas instituições públicas. De outro, a comunicação direta entre o líder e a sua base.
"Onde ele chama de determinado veículo de fake news, não está apenas criticando uma reportagem. Está questionando a legitimidade do mediador. A mensagem para sua base é: 'Não confiem neles, confiem em mim'. Isso é politicamente poderoso, porque transforma uma reportagem desfavorável em confirmação da própria narrativa", avalia o internacionalista.
Na prática, se a imprensa critica Trump para seus apoiadores mais fiéis, isso pode ser apresentado não como evidência contra ele, mas como evidência de que o sistema está contra ele. Ou seja, é um conflito estrutural e não utilizado necessariamente apenas por Trump.
"Trump não pretende simplesmente obter uma cobertura melhor. Ele disputa com a imprensa quem possui autoridade para definir o que é verdadeiro, relevante e legítimo no debate público", afirma.
Porém, não há base para afirmar que esse episódio determinará o resultado eleitoral. Os Estados Unidos terão eleições de meio mandato para renovar algumas vagas do Congresso. Ainda assim, Silveira não acredita que possa ser feita uma relação de causa e consequência com o resultado das eleições e a ofensiva contra os veículos de mídia.
"Eleições americanas são decididas por um conjunto muito mais amplo de fatores, a economia, a inflação, a imigração, guerras, segurança, avaliação presidencial e mobilização partidária. São vários fatores, mas o episódio evidentemente pode produzir ruídos e efeitos políticos indiretos", alega.
Para uma boa parte da base republicana, enfrentar veículos tradicionais reforça uma característica de Trump, que seus apoiadores valorizam a disposição de confrontar instituições consideradas hostis ou politicamente enviesadas. Para os democratas independentes, preocupados com instituições e organizações de defesa da imprensa, o mesmo episódio pode ser apresentado como evidência de erosão institucional e de tentativa de constranger a liberdade de imprensa.
Portanto, o episódio que provavelmente funciona mais como mobilizador de identidades políticas já existentes do que como mecanismo automático de conversão eleitoral.
O professor comenta ainda que existe um paradoxo: Trump ganha atenção quando confronta a mídia, mas essa mesma confrontação mantém no centro da campanha questões sobre limites do poder presidencial.
As polêmicas de Trump com a mídia
Esse episódio, apesar de inédito, não é o único que gerou polêmica entre o governo Trump e a imprensa. Existe uma escalada desse confronto durante o segundo mandato do republicano.
O primeiro caso importante foi o conflito com a Associated Press, envolvendo acesso presidencial e a terminologia utilizada pela agência. A disputa também chegou aos tribunais.
Depois, houve a política de acesso do Pentágono, que permitia classificar jornalistas com riscos de segurança e retirar credenciais em determinadas circunstâncias. Em março deste ano de 2026, um juíz federal considerou essa política inconstitucional, entendendo que ela violava a Primeira e a Quinta Emendas.
"Paralelamente, Trump continuou recorrendo a processos contra organizações jornalísticas e pressionando empresas de mídia. A Reuters contabilizou pelo menos nove ações apresentadas por Trump desde 2020, contra grandes organizações ou empresas de comunicação. Algumas foram rejeitadas enquanto outras terminaram em acordo. Portanto, quando CNN, MS NOU e Politico são retirados da Casa Branca, não estamos observando apenas um episódio isolado. Estamos vendo mais uma etapa de uma disputa mais ampla sobre quem controla o acesso, quais instituições possuem legitimidade e até onde o Executivo pode utilizar instrumentos administrativos contra organizações, cuja cobertura ele considera hostil", pondera.
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