Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia assinaram nesta terça-feira (22), durante a Assembleia Geral da ONU, um acordo para ampliar a segurança no Ártico e no Atlântico Norte.
O entendimento encerra, ao menos diplomaticamente, meses de tensão provocados pelas declarações de Donald Trump sobre a possibilidade de os Estados Unidos adquirirem a ilha.
O acordo não transforma a Groenlândia em território americano. A ilha continua sendo uma região autônoma dentro do Reino da Dinamarca, e Copenhague afirma que o texto reconhece tanto sua soberania e integridade territorial quanto o direito dos groenlandeses à autodeterminação.
Washington ganha espaço para ampliar significativamente sua presença militar em uma região considerada estratégica para a defesa dos Estados Unidos e da Otan.
O que muda?
O ponto mais concreto é a expansão da infraestrutura militar dos Estados Unidos na Groenlândia.
Segundo fontes ouvidas pela Reuters, Washington pretende reabrir uma antiga base da Guerra Fria em Narsarsuaq, no sul da ilha, e estabelecer uma nova presença militar em Mestersvig, na costa leste.
O segundo local atualmente é utilizado pela Sirius Dog Sled Patrol, unidade especial das Forças Armadas dinamarquesas.
Os Estados Unidos já mantêm a Pituffik Space Base, anteriormente conhecida como Thule Air Base.
A instalação possui sistemas de alerta antecipado de mísseis e de vigilância espacial e é considerada estratégica para a defesa americana e da Otan.
Durante a Guerra Fria, os americanos chegaram a operar 17 instalações militares na Groenlândia. Hoje, Pituffik é a principal presença permanente dos EUA no território.
China e Rússia ficam de fora
Outro eixo do acordo é impedir que países considerados adversários dos Estados Unidos e da Otan estabeleçam presença militar na ilha.
Trump afirmou que nenhum adversário americano poderá instalar bases, manter forças militares ou realizar determinados “investimentos sensíveis” na Groenlândia.
O alcance exato dessa restrição ainda não foi divulgado integralmente. Pessoas familiarizadas com as negociações disseram ao Washington Post que apenas países integrantes da Otan poderão estabelecer bases militares e que investimentos estratégicos ficariam restritos a membros da aliança e da União Europeia.
A medida tem como pano de fundo principalmente as preocupações ocidentais com Rússia e China no Ártico, região que ganhou importância militar, comercial e econômica com a abertura de novas rotas marítimas e a disputa por recursos naturais.
EUA passam a controlar a Groenlândia?
Segundo o presidente Trump, Washington teria adquirido controle permanente sobre as necessidades de segurança da Groenlândia e poderia impedir investimentos de adversários.
A interpretação de Dinamarca e Groenlândia é mais restrita. O governo dinamarquês afirma que o entendimento preserva a soberania do Reino da Dinamarca e o direito dos groenlandeses de decidir seu próprio futuro.
Pessoas envolvidas nas negociações também disseram que Trump exagerou ao sugerir que os EUA teriam poder de veto sobre decisões internas da Groenlândia.
Ou seja, Washington amplia sua capacidade de atuação militar, mas não recebe soberania sobre o território.
Groenlândia independente?
A legislação dinamarquesa reconhece que a população groenlandesa pode optar pela independência.
Nesse caso, seria iniciado um processo de negociação entre Nuuk e Copenhague, seguido por consulta popular e procedimentos parlamentares.
Autoridades americanas afirmaram que o novo entendimento foi estruturado para que a cooperação de segurança possa continuar mesmo se a Groenlândia deixar de integrar o Reino da Dinamarca.
Qual é o papel da Otan?
Dinamarca e Groenlândia insistiram durante as negociações que a segurança do Ártico não poderia ficar exclusivamente sob comando americano.
O governo dinamarquês afirma que o novo modelo insere a defesa da região dentro de uma estratégia mais ampla da Otan, da qual tanto Dinamarca quanto Estados Unidos fazem parte.
Antes do acordo, países europeus já defendiam que qualquer reforço militar no Ártico deveria ocorrer coletivamente dentro da aliança e respeitando soberania, integridade territorial e as fronteiras existentes.
EUA querem a Groenlândia?
A Groenlândia fica entre a América do Norte e o Ártico e ocupa uma posição privilegiada para sistemas de alerta de mísseis, monitoramento espacial, defesa aérea e acompanhamento das atividades russas na região.
A ilha também possui reservas de minerais críticos e terras raras, matérias-primas essenciais para setores como defesa, eletrônicos, energia e tecnologia.
A importância desses recursos já levou Groenlândia e União Europeia a ampliarem a cooperação para desenvolver cadeias de matérias-primas.
Trump vinha dizendo desde o início do ano que o controle da Groenlândia era necessário para a segurança dos Estados Unidos e chegou a não descartar o uso da força para obtê-la, posição rejeitada por Dinamarca, Groenlândia e aliados europeus.
O acordo já está valendo?
A assinatura política ocorreu em Nova York, mas o processo não termina ali. Dinamarca e Groenlândia informaram que o acordo precisa passar pelos procedimentos parlamentares nacionais necessários antes de entrar plenamente em vigor.
Além disso, o texto integral e todos os detalhes operacionais ainda não foram tornados públicos.
Por isso, permanecem questões sobre o tamanho das novas instalações, os custos, as regras específicas para investimentos estrangeiros e o grau de autoridade que Washington efetivamente terá sobre decisões de segurança.
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