Justiça

Do Plenário para a Arena: tensão no STF vira jogo de luta

Supremo Tribunal Fighter transforma ministros em personagens de fliperama e coloca Moraes e Mendonça como rivais

Supremo Tribunal Fighter
Game tem até Vorcaro, em versão vampiro, para o posto de chefão Foto: Supremo Tribunal Fighter

A crise no Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou nesta terça-feira (15) uma arena que Edson Fachin provavelmente não tinha previsto quando pediu aos colegas que evitassem confrontos pessoais: um jogo de luta em 2D.

Criado pelo desenvolvedor Felipe Pacheco com auxílio de inteligência artificial, o Supremo Tribunal Fighter transforma dez ministros em personagens de videogame, distribui socos, chutes e “poderes supremos” e aproveita as disputas que tomaram conta da Corte nas últimas semanas.

O jogo está disponível gratuitamente no navegador e foi desenvolvido, segundo o próprio criador, “em poucas horas”.

A página anuncia dez lutadores, 12 desafios e uma missão, com visual arcade inspirado nos fliperamas dos anos 1990 e o slogan que resume o nível de sutileza da brincadeira: “A justiça vai dar combo.”

Do plenário para a arena virtual

Nesta terça (15), o plenário do Supremo se reuniu para discutir o relatório da Polícia Federal (PF) com mensagens entre Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e Alexandre de Moraes.

Na abertura, Fachin afirmou que divergências são legítimas, mas que o tribunal deveria julgar fatos e questões jurídicas sem transformar discordâncias em confrontos pessoais.

O pedido durou menos que uma barra de energia de jogo de luta. Durante a própria sessão, ministros trocaram farpas com o uso de expressões como “leviano”, “mentira” e “aprendiz de feiticeiro”, em discussões envolvendo Moraes, André Mendonça, Gilmar Mendes, Luiz Fux e o próprio Fachin.

No videogame, pelo menos, o botão de pausa informa educadamente: “Sessão suspensa.”

Xandão x Mendonça

A rivalidade que domina o STF também aparece na seleção de personagens. Alexandre de Moraes surge como “Xandão”, e o jogo informa diretamente quem é seu adversário principal: “Rival Mendonça”.

A escolha não exige exatamente um roteirista. Moraes e Mendonça estão em lados opostos da crise provocada pelo Caso Master.

O relatório produzido pela PF a partir de uma ordem de Mendonça reuniu mensagens e encontros envolvendo Vorcaro e Moraes.

O ministro atingido pelo documento acusa o colega de conduzir uma investigação ilegal e com motivação político-eleitoral; Mendonça sustenta que a diligência buscava esclarecer uma rede de influência relacionada ao banqueiro.

Nesta terça, os dois levaram a divergência ao plenário. Moraes voltou a contestar a legalidade do relatório, enquanto Mendonça reagiu às acusações e negou ter direcionado a investigação.

A discussão chegou ao ponto de os ministros trocarem acusações de mentira diante dos colegas.

No Supremo Tribunal Fighter, resolver divergências exige menos páginas de manifestação: usando o teclado, basta pressionar A para dar um soco, S para um chute, D para ativar poder, Z para defender e X para executar o movimento “Supremo”.

Arenas próprias

Quando o jogador aperta pausa, não aparece “pause”. A tela informa: “Sessão suspensa.” Foto: Supremo Tribunal Fighter

A sátira não para nos personagens. Assim como ocorre em clássicos como Street Fighter, cada ministro possui uma arena associada à própria trajetória ou a episódios que viraram notícia.

Segundo o criador, Gilmar Mendes luta em um cenário inspirado no Fórum de Lisboa, evento jurídico do qual é um dos principais organizadores.

Dias Toffoli ganhou uma arena baseada no Tayayá Aqua Resort, empreendimento no Paraná que apareceu em investigações relacionadas à família do ministro e a pessoas ligadas a Daniel Vorcaro.

Ou seja, no jogo, o cenário também apresenta a ficha corrida do noticiário.

A página principal já exibe a Praça dos Três Poderes, em Brasília, como uma das arenas.

O visual recupera estética de fliperama, incluindo indicações como “Brasília · 199X”, “Próxima sessão” e “Arcade Tour”.

O jogo oferece três formatos. No Arcade, o jogador precisa avançar por uma sequência de confrontos.

No Duelo Livre, escolhe personagem, adversário e cenário para enfrentar o computador. Há ainda o Versus 2P, no qual duas pessoas podem disputar usando o mesmo teclado.

Também existem três dificuldades. Quem prefere preservar a institucionalidade pode começar no nível iniciante. Quem acompanhou a sessão desta terça talvez já esteja pronto para o veterano.

Vorcaro vampiro

Daniel Vorcaro também entrou no universo do game, apesar de nunca ter ocupado uma cadeira no Supremo.

O ex-banqueiro aparece como um dos chefões em uma versão vampiro, referência que transforma o personagem central do Caso Master em adversário final de uma sequência de ministros.

A escolha acompanha o tamanho que Vorcaro ganhou no noticiário da Corte. Foi o conteúdo extraído de seu celular que detonou a atual crise entre os ministros.

O relatório da PF encontrou mensagens atribuídas a contatos com Moraes e referências a pessoas próximas de outros integrantes do tribunal.

Nesta terça, novos diálogos também trouxeram menções a pessoas ligadas a Luiz Fux, Kassio Nunes Marques e André Mendonça. As mensagens, isoladamente, não comprovam favorecimento ou crime por parte dos ministros.

O STF passou as últimas duas semanas discutindo não apenas o conteúdo desse material, mas quem poderia investigá-lo, quem teria acesso à íntegra do celular e se a própria produção do relatório foi legal.

Nesta terça, o plenário se reuniu justamente para decidir se os elementos relacionados a Moraes podem sustentar uma investigação formal ou se o procedimento deve ser anulado, como defende a Procuradoria-Geral da República.

Plenário real

O lançamento acontece justamente no dia em que a imitação teve alguma dificuldade para superar o original.

Ao abrir a sessão sobre Moraes e Vorcaro, Fachin afirmou que o tribunal vivia um período difícil e defendeu que os ministros evitassem transformar discordâncias jurídicas em enfrentamentos pessoais.

Durante os debates, porém, Moraes acusou Mendonça de agir por razões políticas; Mendonça o chamou de mentiroso; Gilmar Mendes dirigiu críticas ao colega e utilizou a expressão “aprendiz de feiticeiro”; Fux discutiu com Gilmar sobre a atuação da Polícia Federal; e Dino questionou decisões tomadas na condução da própria crise.

A reunião foi convocada depois de onze dias de decisões conflitantes, retirada de sigilos, pedidos de investigação e disputas sobre a chefia da PF.

Fachin precisou intervir depois que Mendonça afastou dirigentes da Polícia Federal e Dino determinou a reintegração deles.

O game, portanto, não precisou exagerar muito para chegar à ideia de colocar os ministros em lados opostos de uma arena.

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