A desconfiança dos brasileiros no Supremo Tribunal Federal (STF) subiu dez pontos percentuais em um mês e chegou a 56%, segundo pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira (14).
Em agosto, 46% dos entrevistados diziam não confiar na Corte. O movimento ocorre justamente durante a maior crise interna recente do tribunal, marcada pelo confronto entre Alexandre de Moraes e André Mendonça, decisões contraditórias sobre a cúpula da Polícia Federal e a intervenção do presidente do STF, Edson Fachin, nas investigações relacionadas ao Caso Master.
A deterioração aparece também entre quem demonstrava confiança elevada no Supremo.
O percentual dos que dizem “confiar muito” na instituição caiu pela metade, de 18% em agosto para 9% em setembro.
Outros 30% afirmam confiar pouco, contra 33% no levantamento anterior, e 5% não souberam responder.
A Quaest ouviu presencialmente 2.004 eleitores entre 10 e 13 de setembro, período que coincidiu com alguns dos episódios mais tensos da crise.
A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-03607/2026.
O intervalo em que as entrevistas foram realizadas é relevante. Quando os pesquisadores foram às ruas, Fachin já havia suspendido decisões conflitantes de ministros, cobrado a abertura de documentos do Caso Master e assumido a condução do procedimento que envolve Moraes.
No mesmo período, Mendonça passou a liberar novas peças de investigações que atingem integrantes do STF, políticos, servidores públicos e pessoas próximas a Daniel Vorcaro.
Independentes recuam
Os recortes políticos da Quaest mostram que a perda de confiança não pode ser explicada apenas pela rejeição histórica de eleitores bolsonaristas ao Supremo.
Entre os independentes, o percentual que afirma não confiar no STF passou de 50% em agosto para 65% em setembro, uma alta de 15 pontos em apenas um mês. É a mudança mais expressiva entre os grupos apresentados pelo levantamento.
Entre os lulistas, 30% dizem não confiar na Corte, contra 27% anteriormente. A mudança mais significativa nesse grupo aparece entre os que demonstravam confiança intensa: o percentual dos que afirmam confiar muito no Supremo caiu de 41% para 23%.
Já entre os bolsonaristas, a desconfiança continua elevada, mas não foi esse grupo que puxou a piora de setembro. São 69% os que não confiam no tribunal, contra 73% em agosto e 83% em março.
Vorcaro e Moraes
A sequência atual começou em 1º de setembro, quando André Mendonça retirou o sigilo de informações produzidas pela Polícia Federal a partir do celular de Daniel Vorcaro.
O material reuniu 52 mensagens enviadas pelo ex-controlador do Banco Master a um número identificado pela PF como pertencente a Alexandre de Moraes, entre 28 de outubro e 17 de novembro de 2025, data da primeira prisão de Vorcaro.
As informações também colocaram novamente sob escrutínio o contrato entre o Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
Como mostrou O Brasilianista, documentos e mensagens passaram a detalhar encontros, tratativas e pagamentos ligados ao banco.
A divulgação produziu uma reação de Moraes. O ministro pediu que Mendonça fosse investigado por possíveis crimes de abuso de autoridade e responsabilidade, além de questionar a maneira como o colega conduziu as apurações.
Mendonça pressionado
A situação de Mendonça também se tornou mais delicada quando veio a público que ele havia recebido Vorcaro em março de 2025, antes de assumir a relatoria das investigações do Master.
O ministro confirmou a reunião e afirmou que se limitou a ouvir o banqueiro sobre uma discussão envolvendo créditos de precatórios. O encontro não constava da agenda oficial.
O Brasilianista destacou que a revelação ocorreu um dia depois de Mendonça tornar públicas informações que atingiram Moraes e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
A sequência retirou do ministro a posição de simples responsável pela exposição do colega e passou a colocar sua própria relação com Vorcaro sob análise.
Paralelamente, um relatório da PF começou a questionar critérios utilizados por Mendonça em diferentes investigações.
Segundo material noticiado pelo O Brasilianista, a polícia apontou diferenças nos prazos adotados pelo ministro para analisar medidas contra figuras de espectros políticos distintos.
Comando da PF
A crise atingiu outro patamar em 8 de setembro, quando Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada.
O ministro questionou relatórios produzidos pela própria PF e sustentou que existiam indícios de monitoramento irregular sobre autoridades. No dia seguinte, Flávio Dino determinou a recondução dos dois dirigentes aos cargos.
Foi nesse momento que Fachin decidiu intervir. Em despacho de 9 de setembro, o presidente do tribunal apontou a existência de um “quadro de conflitos” e de “sobreposições processuais”, expressões usadas por Fachin para justificar a suspensão das decisões.
Segundo ele, a sucessão de medidas poderia comprometer a “integridade do tribunal”.
O Brasilianista informou à época que a intervenção buscava impedir que decisões monocráticas sobre os mesmos fatos continuassem sendo utilizadas para derrubar medidas tomadas por outros ministros.
Pressão externa
O conflito rapidamente ultrapassou os gabinetes do Supremo. Uma reportagem do O Brasilianista reuniu manifestações de presidenciáveis, parlamentares, empresários, representantes da indústria e ex-integrantes do governo cobrando explicações da Corte.
Um grupo formado por 157 empresários, executivos e economistas divulgou manifesto defendendo investigação independente e eventual afastamento cautelar de autoridades formalmente investigadas.
“O que já se tornou público em relação à investigação do caso Master indigna os brasileiros e mina a confiança da população na Justiça”, declarou o grupo no documento.
Entidades como Fiesp, CNI, CNC, Fecomercio-SP e CACB também passaram a cobrar análise pública dos fatos.
“Não há Estado de Direito sem juízes acima de qualquer suspeita”, afirmaram as organizações em outro manifesto.
Moraes x Mendonça
A pesquisa perguntou ainda como os entrevistados enxergam especificamente o embate entre os dois ministros.
Para 37%, André Mendonça está agindo de maneira correta. Alexandre de Moraes aparece com 16% nesse quesito.
O resultado não significa necessariamente aprovação geral à conduta de Mendonça.
O próprio ministro enfrenta questionamentos dentro do tribunal e terá sua atuação examinada pelo plenário posteriormente. Mas a diferença mostra como a disputa também passou a ser julgada pela opinião pública.
A polarização entre os magistrados não surgiu neste mês. Como recuperou O Brasilianista, Moraes e Mendonça já tiveram confrontos públicos em julgamentos anteriores, inclusive sobre os processos dos ataques de 8 de Janeiro.
O Caso Master, porém, introduziu acusações pessoais, pedidos de investigação e decisões que atingiram diretamente a Polícia Federal.
Fachin assume
Durante o período em que a Quaest realizou as entrevistas, Fachin adotou outras medidas para reorganizar a condução dos processos.
No sábado (12), o presidente do STF assumiu a relatoria da petição que analisa se há elementos para investigar Moraes pela relação com Vorcaro.
O regimento da Corte prevê que apurações preliminares envolvendo seus próprios ministros sejam conduzidas pela Presidência.
Fachin também requisitou à Presidência do Supremo a íntegra dos autos das investigações do Banco Master e das fraudes do INSS.
A medida não retirou formalmente de Mendonça a relatoria dessas duas apurações, mas colocou o material sob supervisão direta da presidência diante das disputas sobre sigilo, vazamentos e competência.
O caso de Moraes será discutido em sessão marcada para esta terça-feira (15). Já os questionamentos contra Mendonça foram colocados no calendário de 23 de setembro.
“A liberação para inclusão imediata em calendário importaria na submissão ao plenário de matéria cuja instrução preliminar ainda não se encontra concluída”, explicou Fachin ao rejeitar a tentativa de analisar os dois casos conjuntamente nesta terça.
Sigilo disputado
Outro componente da crise foi a quantidade de informações mantidas sob reserva.
Em 10 de setembro, Fachin pediu a Mendonça que tornasse públicos os procedimentos do Caso Master, preservando apenas diligências que realmente necessitassem de sigilo. Mendonça inicialmente liberou 15 procedimentos.
A PGR, Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes passaram a cobrar acesso mais abrangente.
Fachin voltou a se manifestar e deu prazo para a liberação do material que pudesse ser divulgado sem comprometer a investigação.
Nesta segunda-feira, Mendonça retirou o sigilo de informações sobre uma rede de pagamentos relacionada a Vorcaro após nova manifestação de Fachin e da Procuradoria.
Ao mesmo tempo, mais de 30 medidas envolvendo quebras de sigilo bancário e fiscal permanecem reservadas.
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