Justiça

Confira o que políticos, empresários e ex-presidentes disseram sobre a crise no STF

Disputa entre Alexandre de Moraes e André Mendonça ultrapassa o Supremo

Supremo Tribunal Federal (STF)
Crise entra na eleição presidencial e provoca manifestações de empresários, entidades industriais e parlamentares Foto: Agência Brasil

A crise aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) pelos desdobramentos do Caso Master deixou de ser uma disputa restrita aos gabinetes dos ministros.

Em pouco mais de uma semana, presidenciáveis, líderes do Congresso, empresários, entidades da indústria e ex-presidentes passaram a cobrar investigação, transparência ou mudanças na condução do episódio.

O movimento ganhou força depois da divulgação de mensagens recuperadas do celular de Daniel Vorcaro e atribuídas a conversas com Alexandre de Moraes.

A reação de André Mendonça, relator das investigações, desencadeou uma sucessão de medidas.

Moraes pediu apuração contra o colega, Mendonça afastou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência, Leandro Almada, e Flávio Dino determinou a reintegração dos dois nesta quarta-feira (09).

A proximidade das eleições presidenciais ampliou o peso político da crise. Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), hoje os dois principais nomes da disputa, passaram a utilizar o Caso Master para cobrar explicações sobre lados diferentes da investigação. Outros candidatos também entraram na discussão.

Lula abre sigilo

Lula fez nesta quarta-feira sua manifestação mais direta desde o início da crise. O presidente classificou como urgente a retirada completa do sigilo das investigações relacionadas ao Banco Master.

“É urgente a quebra completa do sigilo das investigações de todos os envolvidos no caso Master, seja quem for, doa a quem doer. O Brasil precisa saber a verdade”, afirmou Lula.

O petista também criticou o que chamou de “vazamentos seletivos” capazes de interferir na disputa eleitoral e disse que o país precisa de explicações diante da crise instalada no Judiciário.

A estratégia do governo tem sido defender que tanto os elementos envolvendo Moraes quanto aqueles que alcançam Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e outros políticos sejam tornados públicos.

Aliados de Lula passaram a questionar especialmente a manutenção do sigilo sobre partes da investigação de Dark Horse, filme financiado com dinheiro relacionado a Vorcaro.

Flávio ataca Dino

Flávio Bolsonaro seguiu na direção oposta e transformou a crise no STF em um dos principais assuntos de sua campanha presidencial.

Depois de Dino reintegrar Andrei Rodrigues, o senador pediu que Edson Fachin suspendesse a decisão e convocasse o plenário da Corte.

“Espero, sinceramente, que o presidente do Supremo, Edson Fachin, imediatamente, hoje ainda, tome alguma decisão, começando por suspender essa liminar dada por Flávio Dino”, declarou Flávio.

O candidato defendeu que as divergências sejam decididas “de forma pública, aberta e transparente”.

Horas antes, já havia classificado a situação no Supremo como uma “várzea” e acusado Lula de tentar utilizar as instituições para vencer a eleição “no tapetão”.

No 7 de Setembro, Flávio havia pedido diretamente a saída de Moraes durante ato na avenida Paulista.

A campanha tenta associar o ministro a Lula enquanto enfrenta, do outro lado, questionamentos sobre os recursos de Vorcaro destinados a Dark Horse.

Caiado também fala

Ronaldo Caiado (PSD) também aumentou o tom depois da decisão de Dino.

“Ministros do Supremo passaram de todos os limites, mas a postura de Flávio Dino supera qualquer patamar. Virou imperador do Brasil e implodiu a segurança jurídica. Ditadura da toga, não!”, escreveu o candidato.

Caiado já havia defendido o afastamento de Moraes e considerado corretas as medidas tomadas por Mendonça para divulgar informações da investigação.

O candidato também foi alcançado diretamente pelo Caso Master porque Gilberto Kassab, seu vice na chapa presidencial, foi citado em uma proposta de delação rejeitada de Vorcaro.

Ao falar sobre a acusação, Caiado defendeu a abertura das informações, mesmo envolvendo o aliado.

“Roubar com a mão direita ou roubar com a mão esquerda é ladrão. Não tem diferença. O pau que dá no Chico também dá no Francisco”, afirmou o presidenciável. Kassab nega as acusações.

Zema compara

Romeu Zema (Novo) aderiu às críticas à condução da crise, embora tenha evitado uma declaração direta sobre Dino nesta quarta.

O candidato compartilhou uma charge que compara o afastamento de Andrei Rodrigues determinado por Mendonça à decisão de Moraes que, em 2020, impediu Jair Bolsonaro de nomear Alexandre Ramagem para a direção da PF.

A publicação acusa imprensa e instituições de adotarem “dois pesos e duas medidas” nos dois episódios.

No 7 de Setembro, Zema já havia criticado o que chamou de “turminha” de Moraes e cobrado uma reação de Cármen Lúcia diante das revelações do Caso Master.

Cury cobra apuração

Augusto Cury (Avante) adotou um discurso menos frontal contra integrantes específicos do Supremo, mas também pediu investigação sobre as acusações.

Durante ato no Rio de Janeiro, mandou um “abraço muito especial” a André Mendonça e disse que nenhum ministro deveria ser protegido.

“O STF tem de ter independência, temos que respeitar o STF, só quero que haja transparência em tudo”, afirmou Cury.

O candidato acrescentou que Fachin e Mendonça deveriam ter independência para investigar “todo indício de corrupção”.

Também declarou posteriormente que, caso existam provas contra Moraes, o Senado deve analisar um eventual impeachment.

Renan pede prisões

Renan Santos (Missão) foi além. Durante manifestação no Ibirapuera, em São Paulo, o candidato defendeu a saída de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli e pediu que as investigações sobre o Banco Master continuem.

O manifesto apresentado pelo grupo de Renan cobrou ainda a prisão dos dois ministros e o afastamento de Andrei Rodrigues.

Renan acusou ainda Lula e Flávio Bolsonaro de participarem de um suposto “acordão” destinado a conter as investigações, afirmação política para a qual não apresentou prova pública.

A crise também chegou perto de sua própria campanha nesta quarta, depois que veio a público que Daniel Monteiro, investigado pela PF como operador ligado ao Master, havia participado da estruturação jurídica do MBL, grupo do qual Renan foi fundador. A defesa de Monteiro nega envolvimento em irregularidades.

Tarcísio cobra Senado

Tarcísio de Freitas (Republicanos), que disputa a reeleição em São Paulo, também passou a cobrar uma resposta institucional.

No 7 de Setembro, o governador afirmou que o Supremo deveria investigar as acusações e que o Senado não poderia se omitir.

“Ninguém está acima da lei”, declarou Tarcísio.

Ele evitou pedir expressamente o impeachment de Moraes, mas defendeu que o Senado exerça suas prerrogativas.

Posteriormente, apoiou o afastamento de Andrei determinado por Mendonça e afirmou que o país precisa ser “passado a limpo”.

Tarcísio também responde politicamente a uma acusação feita por Vorcaro em proposta de colaboração recusada pela PF e pela PGR.

O ex-banqueiro afirmou que uma doação de R$ 2 milhões à campanha do governador em 2022 faria parte de um suposto acordo envolvendo o Credcesta.

“Beira o ridículo”, rebateu Tarcísio. O governador nega qualquer favorecimento e afirma nunca ter mantido contato com Vorcaro.

Empresários pressionam

A reação saiu do ambiente eleitoral. Um grupo de 157 empresários, executivos, economistas e personalidades lançou nesta quarta o manifesto “Pela Lei e pelo Brasil”, cobrando uma investigação completa sobre os fatos relacionados ao Caso Master.

Entre os signatários estão Luiza Helena Trajano, Frederico Trajano, Armínio Fraga, Gustavo Franco, Maria Silvia Bastos Marques, Mailson da Nóbrega, Daniel Slaviero e Luciano Huck.

A iniciativa é liderada por Fábio Barbosa, presidente do conselho de administração da Natura.

O documento faz três cobranças: investigação “completa, célere e independente”; afastamento cautelar de autoridades que venham a ser formalmente investigadas; e criação de um código de conduta vinculante para tribunais superiores, órgãos de investigação e instituições de acusação.

“O que já se tornou público em relação à investigação do caso Master indigna os brasileiros e mina a confiança da população na Justiça”, afirma o manifesto.

Indústria reage

Entidades empresariais organizaram um segundo movimento. Fiesp, Confederação Nacional da Indústria (CNI), Confederação Nacional do Comércio (CNC), Fecomercio-SP e Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB) estão entre as organizações que assinaram o “Manifesto à Nação Brasileira”.

“Não há Estado de Direito sem juízes acima de qualquer suspeita”, afirma o documento.

As entidades pedem que o plenário do STF examine publicamente os fatos “com absoluta urgência, sem subterfúgios e sem corporativismo”.

A Fiesp já havia sinalizado seu posicionamento antes do manifesto. No dia 2, a entidade voltou a projetar a bandeira brasileira na fachada de sua sede, na avenida Paulista.

Pessoas ligadas ao presidente Paulo Skaf disseram que o gesto representava um protesto contra o Supremo e uma cobrança por apuração rápida.

Oposição pressiona

No Congresso, a oposição adotou a defesa de Mendonça e concentrou os ataques em Moraes.

Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, acusou Moraes de transformar o inquérito das fake news em um “instrumento de poder pessoal”.

“É uma inversão intolerável de valores”, afirmou o senador ao criticar o pedido de investigação apresentado contra Mendonça.

Marinho classificou o inquérito como um “escudo e instrumento de intimidação”.

Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do PL na Câmara, foi ainda mais curto: “Eu apoio André Mendonça. Eu não apoio criminoso”, escreveu o deputado.

Ele afirmou que haveria uma tentativa de interromper uma investigação do Master porque “tem muita gente poderosa envolvida”.

Carlos Viana (PSD-MG) pediu impeachment de Moraes, afastamento de Paulo Gonet da condução do Caso Master e providências contra Andrei.

No Senado, Alessandro Vieira, Cleitinho, Damares Alves, Esperidião Amin, Izalci Lucas, Luis Carlos Heinze, Magno Malta e o próprio Flávio também defenderam afastamento ou renúncia de Moraes.

Base reage

Na base governista, o movimento foi diferente. Parlamentares evitaram uma defesa irrestrita de Moraes e passaram a cobrar a abertura de todas as frentes do Caso Master.

Lindbergh Farias (PT-RJ) afirmou que as revelações não deveriam ser blindadas por causa do histórico de Moraes no combate aos atos golpistas.

“Todo mundo tem que se explicar”, declarou o deputado.

Para Lindbergh, a defesa da democracia feita anteriormente pelo ministro não o coloca acima de investigações.

Gleisi Hoffmann também afirmou que eventual impeachment de um integrante do Supremo não deve ser tratado como tabu.

“Se tiver crime, tem que ter”, disse a petista.

Segundo ela, cabe ao Senado processar e julgar ministros da Corte quando houver fundamento para isso.

José Guimarães, ministro das Relações Institucionais, concentrou sua reação em Mendonça. Classificou o afastamento de Andrei como “descabido” e uma “intromissão” que, em sua avaliação, teria caráter eleitoral.

Rogério Correia (PT-MG), por sua vez, passou a relacionar o desenvolvimento do Master ao governo Bolsonaro e argumentou que a instituição foi liquidada, Vorcaro preso e as irregularidades investigadas durante a administração Lula.

Alcolumbre resiste

Davi Alcolumbre tornou-se um personagem à parte. Como presidente do Senado, cabe a ele decidir se pedidos de impeachment contra ministros do STF avançam. A oposição intensificou a pressão para que Moraes seja processado, mas Alcolumbre não sinalizou disposição para abrir o procedimento.

“Todo mundo esqueceu que pediram R$ 130 milhões para fazer um filme e agora o culpado é só o ministro Alexandre de Moraes”, afirmou Alcolumbre ao comentar a pressão.

A referência era ao financiamento de Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro para a qual Flávio buscou recursos junto a Vorcaro.

Alcolumbre também observou que existem 109 pedidos de impeachment contra integrantes do Supremo e disse que essa quantidade “não é normal”.

A oposição respondeu elevando a pressão contra o próprio presidente do Senado. Carlos Portinho prometeu cobrá-lo “diariamente”, enquanto Nikolas Ferreira anunciou uma manifestação no Amapá, base eleitoral de Alcolumbre.

Temer busca trégua

Michel Temer tentou agir como interlocutor na disputa. O ex-presidente telefonou para Alexandre de Moraes, ministro que indicou ao STF em 2017, e recomendou que buscasse uma pacificação com André Mendonça.

Segundo pessoas próximas ao emedebista, Temer considera a crise uma consequência da polarização política que transformou divergências em conflitos institucionais.

A tentativa ocorreu antes de Mendonça determinar o afastamento de Andrei.

Depois da decisão, Temer passou a considerar uma conciliação muito mais difícil, porque a disputa deixou de envolver somente dois ministros e passou a atingir diretamente a chefia da Polícia Federal e o governo Lula.

Não seria a primeira vez que Temer atua dessa maneira. Em setembro de 2021, ele intermediou uma conversa entre Jair Bolsonaro e Moraes depois dos ataques feitos pelo então presidente contra o ministro durante os atos de 7 de Setembro.

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