A crise aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) por causa dos desdobramentos do Caso Master chegou nesta quarta-feira (09) a um ponto raro: Edson Fachin cancelou a sessão do plenário.
A última vez em que uma decisão semelhante havia sido tomada foi há 17 anos, depois de um confronto entre Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa.
Agora, a disputa envolve Alexandre de Moraes, André Mendonça, a Polícia Federal e, mais recentemente, Flávio Dino.
Mendonça afastou o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência, Leandro Almada; Dino determinou a reintegração dos dois.
Nos bastidores, Fachin tenta construir uma saída para uma crise que já produziu decisões contraditórias entre ministros da própria Corte.
O episódio atual, porém, está longe de ser o primeiro em que divergências jurídicas deixam o campo técnico e chegam ao confronto pessoal.
Moraes e Mendonça
O embate atual entre Alexandre de Moraes e André Mendonça não começou com Daniel Vorcaro.
Em junho de 2022, os dois divergiram durante uma discussão sobre a manutenção dos votos de ministros aposentados em julgamentos que saíam do plenário virtual para o presencial.
Mendonça argumentava que uma nova sustentação oral perderia sentido se a defesa não pudesse tentar convencer os ministros que substituíram os aposentados.
Moraes defendeu a preservação dos votos anteriores e afirmou que a nova sustentação seria uma “mera liberalidade”. A posição de Moraes venceu por ampla maioria.
O confronto mais conhecido veio em setembro de 2023, no julgamento do primeiro réu pelos ataques de 8 de janeiro.
Mendonça questionou como o Palácio do Planalto havia sido invadido e mencionou a atuação do Ministério da Justiça e da Força Nacional.
Moraes reagiu dizendo ser “um absurdo” atribuir responsabilidade ao então ministro Flávio Dino e acusou o colega de sugerir que teria existido uma conspiração do governo contra ele próprio.
“Não coloque palavras na minha boca”, rebateu Mendonça.
Os dois elevaram o tom, mas terminaram a sessão pedindo desculpas um ao outro.
Toffoli e Mendonça
Mendonça também já protagonizou uma discussão dura com Dias Toffoli.
Em novembro de 2025, os dois divergiram na Segunda Turma durante o julgamento de um processo sobre a responsabilização civil de um integrante do Ministério Público.
Toffoli acusou Mendonça de deturpar o conteúdo de seu voto anterior. Mendonça respondeu que o colega estava “um pouco exaltado” e que não havia necessidade para o tom adotado.
“Eu fico exaltado com covardia”, rebateu Toffoli.
A frase fez Mendonça reagir imediatamente. O ministro pediu respeito e afirmou que não admitiria que sua atuação fosse descrita dessa forma.
Barroso e Gilmar
Uma das discussões mais conhecidas da história recente do Supremo aconteceu em março de 2018.
Gilmar Mendes criticava decisões tomadas individualmente por integrantes da Corte quando Luís Roberto Barroso interrompeu o colega.
“Me deixa de fora desse seu mau sentimento. Você é uma pessoa horrível”, disparou Barroso.
Na sequência, descreveu Gilmar como uma mistura “do mal com o atraso e pitadas de psicopatia”.
Barroso acusou o colega de passar a vida ofendendo pessoas e chegou a dizer que ele desmoralizava o tribunal. Gilmar respondeu sugerindo que Barroso fechasse seu escritório de advocacia.
Cármen Lúcia, então presidente do STF, interrompeu a sessão e chamou um intervalo para conter a discussão.
Meses depois, Barroso afirmou publicamente que não havia se arrependido do confronto.
Os dois voltariam a trocar acusações em abril de 2021, durante o julgamento sobre a parcialidade de Sergio Moro nos processos contra Lula.
O confronto colocou novamente em lados opostos a ala do STF mais crítica aos métodos da Lava Jato e os ministros que defendiam os resultados produzidos pela operação.
“Me esqueça”
Gilmar também teve uma longa história de atritos com Ricardo Lewandowski.
Em novembro de 2016, os ministros julgavam uma discussão previdenciária quando Gilmar pediu vista depois de já ter apresentado seu voto. Lewandowski considerou o movimento “inusitado”.
Gilmar respondeu dizendo que o colega havia praticado coisas mais “heterodoxas” e citou sua atuação na presidência do julgamento do impeachment de Dilma Rousseff no Senado.
Lewandowski respondeu lembrando declarações públicas de Gilmar nos jornais. A partir daí, a discussão saiu completamente do processo.
Gilmar afirmou que precisava reparar “absurdos” praticados pelo colega.
“Eu repilo [...] Vossa Excelência, por favor, me esqueça”, respondeu Lewandowski.
Gilmar recusou-se a retirar a crítica. Lewandowski então o acusou de faltar com o decoro exigido pelo Supremo.
Cármen Lúcia tentou intervir durante o confronto e o julgamento acabou interrompido pelo pedido de vista.
Lava Jato
Ricardo Lewandowski também entrou em choque com outros ministros quando o Supremo passou a rever decisões e métodos da Lava Jato.
Em abril de 2021, durante julgamento relacionado aos processos de Lula, Lewandowski e Barroso divergiram sobre as consequências econômicas e institucionais da operação.
Lewandowski criticava a ideia de que caberia ao Judiciário assumir protagonismo no combate à corrupção e discutia os prejuízos provocados pelas investigações sobre empresas brasileiras.
Barroso interrompeu: “O problema foi o enfrentamento da corrupção e não a corrupção?”, questionou o ministro.
O debate se acirrou e Barroso chegou a perguntar se, na visão de Lewandowski, “o crime compensa”.
Dias antes, Lewandowski já havia divergido do então presidente Luiz Fux.
A discussão era sobre o papel dos magistrados nas investigações. Lewandowski sustentou que o combate à corrupção cabia à Polícia Federal e ao Ministério Público, enquanto ao Judiciário competia controlar a legalidade e proteger a Constituição.
Fux respondeu que aquela era a visão do colega, evidenciando a divisão que já havia se instalado no Supremo sobre a Lava Jato.
“Uns cretinos”
Em março de 2019, durante julgamento sobre a competência da Justiça Eleitoral para crimes relacionados a caixa dois, Gilmar reagiu a críticas feitas por procuradores da Lava Jato ao Supremo.
“São uns cretinos”, afirmou.
Na mesma intervenção, usou termos como “gentalha”, “despreparada” e “covarde” para se referir a integrantes do Ministério Público.
A lista de adjetivos registrados naquela sessão incluiu ainda “gângsteres”, “infelizes” e “reles”. Gilmar afirmou também que “força-tarefa é sinônimo de patifaria”.
O ministro criticava principalmente o projeto dos procuradores de criar uma fundação privada com recursos provenientes de acordo firmado entre Petrobras e autoridades americanas.
Para Gilmar, parte da Lava Jato havia transformado o combate à corrupção em fonte de poder político e financeiro.
As declarações tiveram consequências judiciais. Em 2020, a União chegou a ser condenada a indenizar Deltan Dallagnol pelas ofensas proferidas pelo ministro.
Nem no Piauí
O confronto ocorreu entre Gilmar Mendes e Kassio Nunes Marques, em março de 2021, durante o julgamento que declarou Sergio Moro parcial no processo contra Lula.
Gilmar contestava o voto de Nunes Marques favorável a Moro e questionava se a atuação conjunta apontada entre juiz e Ministério Público poderia ser considerada compatível com a Constituição.
“Nem aqui, nem no Piauí, ministro Kassio”, afirmou Gilmar.
Nunes Marques, natural do Piauí, interpretou a frase como possível menosprezo ao Estado e reagiu.
Gilmar posteriormente disse que não pretendia atacar o Piauí e pediu que o colega não personalizasse a referência.
A discussão ainda teve outro momento marcante. Gilmar perguntou aos colegas se comprariam “um carro do Moro” ou de Deltan Dallagnol, numa provocação à credibilidade dos dois antigos protagonistas da Lava Jato.
“Na bunda”
Nem todos os confrontos de Gilmar ficaram dentro do Supremo. Em março de 2018, a Folha questionou quem havia pago a passagem do ministro para Portugal, onde participaria de um evento organizado pelo Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), instituição da qual era sócio.
A pergunta também tratava da possibilidade de ele retornar ao Brasil para participar do julgamento de um habeas corpus de Lula.
Gilmar reagiu ao telefone: “Manda ele enfiar isso na bunda. Isso é molecagem”, respondeu ao repórter.
O ministro negou que o Supremo tivesse pago as passagens, mas não informou naquele primeiro contato quem havia custeado o deslocamento.
A própria ombudsman da Folha viria posteriormente a defender que a grosseria deveria ter recebido maior destaque na cobertura por ter sido uma resposta dada por integrante da mais alta Corte do país a uma pergunta jornalística.
Mensalão
Antes da Lava Jato, o julgamento do mensalão já havia transformado o plenário do Supremo em palco recorrente de confrontos.
Joaquim Barbosa era relator da Ação Penal 470. Ricardo Lewandowski atuava como revisor.
As diferenças entre os dois começaram ainda na fase inicial do julgamento e se repetiram durante meses.
Em 2012, os ministros discutiram sobre a possibilidade de separar o processo de réus que não tinham foro no Supremo.
Barbosa demonstrou irritação com a insistência do revisor e os dois passaram a disputar até o direito de se manifestar durante a sessão.
No ano seguinte, durante a análise dos recursos, ocorreu o episódio mais conhecido.
Barbosa acusou Lewandowski de fazer “chicana”, termo utilizado para definir uma manobra destinada a atrasar o andamento de um processo.
Lewandowski exigiu retratação imediata. “Não vou me retratar”, respondeu Barbosa.
A discussão foi tão forte que a sessão terminou abruptamente. O confronto continuou depois fora do plenário, e associações de magistrados divulgaram nota pública criticando o tratamento dado por Barbosa ao colega.
Não foi o único bate-boca entre os dois durante o mensalão. Barbosa chegou a acusar Lewandowski de fazer “vista grossa” para determinadas provas, enquanto o revisor insistia que não receberia ordens sobre como deveria votar.
“Capangas”
Quatro anos antes do mensalão, Joaquim Barbosa já havia protagonizado um dos maiores confrontos públicos da história do Supremo.
Em abril de 2009, o embate foi com Gilmar Mendes, então presidente da Corte. Barbosa acusou Gilmar de destruir a credibilidade da Justiça e disse que o colega deveria ouvir a opinião da população.
“Saia à rua, ministro Gilmar”, afirmou. Gilmar respondeu exigindo respeito.
Foi então que Barbosa pronunciou a frase que marcaria a discussão: “Vossa Excelência não está falando com seus capangas do Mato Grosso.”
A sessão acabou encerrada em meio ao confronto. Dezessete anos depois, Fachin voltou a cancelar um plenário em meio à crise atual entre ministros.
“Não somos”
Outro confronto veio do Tribunal Superior Eleitoral, mas envolveu dois integrantes do STF.
Em abril de 2023, Cármen Lúcia e Kassio Nunes Marques divergiram durante um julgamento sobre fraude à cota de gênero nas eleições municipais.
Nunes Marques argumentava que era preciso ter “empatia” com mulheres lançadas como candidatas e posteriormente abandonadas pelos partidos.
Cármen considerou o argumento paternalista. “Não queremos ser coitadas, queremos ser cidadãs iguais”, respondeu a ministra.
Ela sustentou que mulheres não precisavam de empatia ou tutela, mas de respeito à autonomia e aos direitos políticos.
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