Publicidade
Justiça

Vorcaro teve encontro reservado com André Mendonça em São Paulo

Áudios mostram intermediários dizendo atuar pelo banqueiro; ministro afirma que conversa tratou de precatórios e nega discussão sobre problemas no Banco Central

André Mendonça e Vorcaro
Reunião ocorreu em março de 2025 no endereço de um instituto fundado pelo ministro do Supremo Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Creative commons

Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, reuniu-se pessoalmente com o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), em 14 de março de 2025, em São Paulo.

Mensagens e áudios obtidos pelo jornalista Paulo Motoryn, da newsletter Noites Húngaras, mostram que o encontro foi articulado durante semanas por pessoas próximas ao magistrado e ocorreu enquanto o Master enfrentava dificuldades junto ao Banco Central.

Publicidade

As conversas mostram o advogado Ciro Rocha Soares afirmando que estava “trabalhando” para Vorcaro e relatando ter conversado com Mendonça sobre a situação enfrentada pelo banco.

Mendonça confirmou nesta quarta-feira (02) que recebeu Vorcaro em março de 2025, mas apresentou uma versão diferente sobre o conteúdo do encontro.

Segundo o ministro, não houve conversa sobre os problemas do Banco Master com o Banco Central. Ele afirma que a reunião tratou exclusivamente de uma ação envolvendo créditos de precatórios de interesse da instituição financeira.

Aproximação prévia

As mensagens indicam que a aproximação começou pelo menos um mês antes da reunião.

Em 7 de fevereiro de 2025, Ciro Rocha Soares tentou falar repetidamente com Vorcaro e avisou que estava com “André M.”.

No dia seguinte, enviou ao banqueiro uma fotografia ao lado de Mendonça em uma alfaiataria.

Logo depois, Ciro encaminhou um áudio no qual afirmou: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você!”

O advogado acrescentou que havia levado Mendonça à alfaiataria para fazer um terno. O material não esclarece que tipo de trabalho Ciro dizia realizar para Vorcaro nem se existia uma contratação formal entre eles.

Ciro é advogado com atuação na Bahia e chegou a ocupar o cargo de ouvidor do Ministério do Turismo entre 2016 e 2017.

As mensagens mostram uma relação próxima com Vorcaro, com os dois trocando declarações de amizade e se tratando como irmãos.

Banco Central

A parte mais sensível aparece em outro áudio enviado em fevereiro. Ciro afirmou a Vorcaro que Mendonça queria recebê-lo e disse acreditar que havia deixado o ministro “balançado” com determinado assunto.

Na mesma gravação, o advogado relacionou a conversa à situação enfrentada pelo Banco Master no Banco Central.

Segundo Ciro, Mendonça já teria recebido informações tanto dele quanto do deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP). O advogado afirmou que o ministro sabia da “situação do Banco Central toda”.

Essas são declarações feitas por Ciro a Vorcaro. Não há gravação de Mendonça confirmando ter discutido o Banco Central com o advogado, e o próprio ministro negou nesta quarta-feira que esse assunto tenha sido tratado durante sua reunião com o banqueiro.

Primeira tentativa

Uma primeira reunião foi planejada para 19 de fevereiro de 2025. Ciro tentou organizar o encontro e sugeriu a participação de Bruno Bianco, ex-advogado-geral da União no governo Jair Bolsonaro e posteriormente advogado ligado ao Banco Master.

As conversas indicavam que a reunião ocorreria às 16h em São Paulo. O encontro, porém, não poderia ter ocorrido naquele horário.

Registros oficiais do STF mostram que Mendonça estava em Brasília participando presencialmente de uma sessão do plenário naquele momento.

Não fica claro nas mensagens se o compromisso foi simplesmente cancelado ou remarcado.

Novo encontro

Menos de um mês depois, Cezinha de Madureira voltou a procurar Vorcaro. Em 13 de março, o deputado informou que havia marcado uma reunião com André Mendonça para as 17h do dia seguinte em São Paulo.

O endereço enviado foi Alameda Santos, 647, 16º andar. No local funciona o Instituto ITER, instituição de ensino fundada por Mendonça em 2023. Vorcaro confirmou o compromisso.

Ministro esperando

Mendonça diz que recebeu Vorcaro uma 'única vez' para tratar de ação sobre precatórios no STF

No dia 14 de março, pouco antes do horário combinado, Vorcaro avisou a Cezinha que estava a caminho.

Às 16h43, o deputado respondeu: “Ministro já está te esperando.”

As conversas do banqueiro com seu motorista ajudam a reconstruir o deslocamento.

Às 16h30, Vorcaro enviou ao funcionário o mesmo endereço indicado pelo deputado e determinou que fossem ao local.

Às 18h40, voltou a falar com o motorista e escreveu que estava saindo.

A sequência indica que Vorcaro permaneceu no endereço durante aproximadamente duas horas. Cezinha havia informado que Mendonça já o aguardava quando o banqueiro estava chegando.

Duração diverge

Mendonça confirma que a reunião ocorreu, mas afirma que o contato pessoal com Vorcaro durou apenas entre 20 e 30 minutos.

Portanto, existe uma diferença entre o período em que as mensagens indicam que Vorcaro permaneceu no endereço, cerca de duas horas e o tempo que o ministro afirma ter passado efetivamente reunido com o empresário.

O material divulgado não permite determinar como Vorcaro utilizou o restante do período no instituto nem quem permaneceu com ele durante todo o intervalo.

Versão de Mendonça

Em nota, Mendonça afirmou que recebeu Vorcaro uma única vez, por iniciativa do próprio empresário, e que se limitou a ouvi-lo.

Segundo o ministro, o assunto discutido foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, processo que envolvia créditos de precatórios de interesse do Banco Master.

O caso tratava de precatórios relacionados a prejuízos adquiridos de uma empresa do setor sucroalcooleiro, a Agroindustrial Tabu.

Naquele período, o Master buscava alternativas financeiras depois de o Banco Central impor limitações à utilização da garantia do Fundo Garantidor de Créditos.

Mendonça sustenta, entretanto, que o problema do banco perante o BC não foi discutido na reunião.

Processo no STF

A STP 976 já estava em julgamento no Supremo quando ocorreu o encontro. Em novembro de 2024, o processo tinha placar de seis votos favoráveis à tese discutida quando Alexandre de Moraes pediu vista e suspendeu a análise.

A ação permaneceu com Moraes até fevereiro de 2026, quando foi devolvida para julgamento.

Mendonça afirma que orientou Vorcaro a fazer com que seu advogado procurasse formalmente o gabinete no Supremo para apresentar os argumentos jurídicos.

No mesmo mês, o ministro recebeu um advogado relacionado ao caso e afirma manter arquivados os memoriais apresentados na ocasião.

Voto contrário

O gabinete de Mendonça também ressaltou que a atuação posterior do ministro no processo foi contrária ao interesse defendido pelo empresário.

Esse ponto é importante porque as mensagens mostram intermediários buscando aproximar Vorcaro do magistrado, mas não apresentam prova de que Mendonça tenha posteriormente adotado alguma decisão para favorecer o Banco Master.

Nova exposição

A Polícia Federal mapeou um fluxo intenso de mensagens, encontros e negociações comerciais envolvendo Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF)

A revelação ocorre um dia depois de Mendonça retirar o sigilo do relatório da Polícia Federal que contém mensagens atribuídas a Vorcaro e relacionadas a Alexandre de Moraes.

Como mostrou O Brasilianista, o documento apresenta conversas e registros que passaram a ser analisados pela PF e pela Procuradoria-Geral da República e que incluem referências a Moraes, ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Mendonça defendeu que o material relacionado a Moraes seja discutido pelo plenário do Supremo em sessão presencial e pública.

Agora, o próprio relator das investigações do Master passa a ter sua antiga interlocução com Vorcaro exposta.

Nota do gabinete do ministro André Mendonça

“Sobre a reportagem publicada nesta data, o ministro André Mendonça esclarece que recebeu o empresário Daniel Vorcaro uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do próprio empresário, e que se limitou a ouvi-lo. No mesmo mês, atendeu também o advogado do empresário, e ainda mantém, nos registros do gabinete, os memoriais escritos recebidos por ocasião do encontro.

Em todas as ocasiões, o assunto tratado foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, que estava sob julgamento do Supremo Tribunal Federal e que discutia créditos de precatórios de interesse do Banco, mas que se encontrava, na exata data da reunião, com pedido de vista de outro Ministro. Como já noticiado pela imprensa, o empresário buscou interlocução semelhante com outros integrantes do STF para tratar do mesmo assunto.

Registre-se, aliás, que a atuação jurisdicional do ministro foi contrária à posição defendida pelo empresário, em linha com sua posição historicamente defendida em casos semelhantes, conforme se pode verificar nos autos.

Por fim, o ministro não comenta diálogos privados entre terceiros, cujo teor não lhe cabe confirmar. Sua atuação, pública e privada, é pautada pela legalidade e pela impessoalidade.”

Nota do gabinete do ministro André Mendonça

O depoimento foi realizado por requerimento expresso da defesa do depoente, que relatou estar sofrendo graves intimidações e solicitou ser ouvido com urgência. Trata-se de ato processual regular, conduzido por juiz auxiliar.

A presença de representante do Ministério Público em audiências dessa natureza é exigência legal, e foi observada. Quanto à Polícia Federal, as normas do Conselho Nacional de Justiça consagram, como garantia de incolumidade física e psicológica do depoente, o afastamento da equipe policial responsável pela investigação nos atos em que ele é ouvido (Resolução CNJ nº 213/2015, com as alterações da Resolução nº 562/2024). Tratando-se de depoimento motivado por relato de graves intimidações, a não convocação de agentes policiais seguiu essa mesma diretriz de proteção, e não qualquer escolha de conveniência do gabinete.

O conteúdo da audiência é resguardado por sigilo legal. Registre-se, apenas, que a informação de que teriam sido abordados temas relacionados ao ministro Alexandre de Moraes não procede.

Siga O Brasilianista