Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, voltou a conectar duas figuras que estão em lados opostos da política brasileira.
Novas informações obtidas a partir do celular do empresário detalham sua proximidade com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), enquanto documentos financeiros ampliam o valor relacionado ao financiamento do filme Dark Horse, projeto para o qual Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu dinheiro ao banqueiro.
Os episódios são independentes e não existe evidência de atuação conjunta entre Moraes e Flávio Bolsonaro.
O elo entre os dois casos é Vorcaro, personagem central das investigações sobre o Banco Master e que manteve relações financeiras e pessoais com diferentes integrantes dos círculos político e jurídico de Brasília.
De um lado, a Polícia Federal encontrou dados indicando que Moraes teve acesso e fez alterações no contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci de Moraes.
De outro, Vorcaro realizou um pagamento adicional de US$ 1,6 milhão, equivalente a R$ 8,5 milhões à época, ao fundo responsável por financiar Dark Horse, longa sobre Jair Bolsonaro.
Contrato milionário
O contrato envolvendo o escritório Barci de Moraes foi encontrado no celular de Vorcaro.
A análise dos metadados realizada pela Polícia Federal mostrou que uma das versões do documento foi aberta e alterada em um sistema identificado como “Ministro Alexandre de Moraes” antes da assinatura.
O próprio escritório confirmou que Moraes analisou a minuta. Segundo a banca, seu setor de compliance procurou o ministro, marido da sócia-diretora Viviane Barci de Moraes, para verificar se existia algum impedimento legal à contratação pelo Banco Master.
A justificativa foi que era necessário saber se Moraes relatava processos envolvendo o banco ou participava de julgamentos que pudessem representar conflito.
O escritório afirma que nenhum impedimento foi encontrado e ressalta que o ministro nunca julgou causas envolvendo o Master.
O acordo previa serviços jurídicos entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, quando o Banco Central liquidou a instituição financeira.
A banca informou anteriormente que realizou 94 reuniões e produziu 36 pareceres durante o período.
Mensagens a Moraes
A relação ganhou uma nova dimensão com a descoberta de mensagens enviadas por Vorcaro nos dias anteriores à sua primeira prisão, em novembro de 2025.
Em 15 de novembro, dois dias antes de ser preso pela Polícia Federal, Vorcaro perguntou diretamente a Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.
Na sequência, questionou sobre o juiz responsável pelo caso, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e se seria possível “fazer algo”.
No dia seguinte, Vorcaro voltou a procurar o ministro e perguntou se havia possibilidade de uma ação policial ocorrer já na manhã seguinte.
A Polícia Federal afirmou, a partir da análise das conversas, que o conteúdo permite investigar se Vorcaro recebia informações sobre o andamento da Operação Compliance Zero, incluindo datas e horários de diligências planejadas.
Essa é uma interpretação dos investigadores e ainda não representa conclusão de que Moraes tenha vazado informações sigilosas.
Vorcaro acabou preso em 17 de novembro, quando tentava embarcar em um avião particular com destino a Dubai.
Pedido de ajuda
Outras mensagens encontradas pela PF mostram o ex-banqueiro pedindo ajuda relacionada ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Em uma das conversas, Vorcaro afirmou que seria importante reforçar com “Andrei e Paulo” para evitar uma ação contra ele.
A Polícia Federal passou a trabalhar com a suspeita de que o destinatário dessas mensagens fosse Moraes.
O ministro André Mendonça, relator das investigações relacionadas ao Banco Master no STF, encaminhou o material à Procuradoria-Geral da República e deu cinco dias para que a PGR se manifeste.
Moraes havia negado anteriormente ter recebido mensagens atribuídas a Vorcaro no dia de sua prisão e classificou a versão como uma tentativa de atacar o Supremo.
O escritório da esposa de Moraes confirmou apenas a análise da minuta do contrato e afirmou não haver impedimento jurídico para a contratação.
Bate-boca no STF
A descoberta das mensagens também provocou um embate entre Alexandre de Moraes e André Mendonça dentro do Supremo Tribunal Federal.
Moraes procurou Mendonça nesta segunda-feira (31) para cobrar explicações sobre as diligências determinadas no inquérito do Banco Master. O ministro teria reclamado que o colega estava “investigando ministros do STF”.
Mendonça, relator do caso, respondeu explicando que havia determinado à Polícia Federal a identificação das pessoas mencionadas ou que apareciam como interlocutoras nas mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro.
Foi durante esse trabalho que a PF identificou Moraes, além de referências ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues.
A discussão ganhou outro componente quando Mendonça perguntou a Moraes como ele havia tomado conhecimento do relatório policial, já que o documento estava sob sigilo e, naquele momento, nem mesmo a Procuradoria-Geral da República havia recebido acesso ao material.
Após o episódio, Mendonça encaminhou o relatório à PGR e pediu esclarecimentos sobre as mensagens.
A iniciativa do relator também causou reação dentro da Polícia Federal. O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou a interlocutores que Mendonça teria ultrapassado suas atribuições ao determinar as diligências sem solicitação da PF ou da Procuradoria-Geral da República.
A avaliação atribuída ao diretor-geral não representa, até o momento, uma decisão formal sobre eventual irregularidade na atuação do ministro.
Cotas aéreas
Outro material encontrado no celular de Vorcaro indica que cotas para utilização de um avião e de um helicóptero foram disponibilizadas ao escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes.
As aeronaves são um Legacy 650, avaliado em US$ 5,5 milhões (R$ 28,32 milhões), e um helicóptero Airbus EC 155 B1, avaliado em US$ 1,3 milhão (R$ 6,69 milhões).
Segundo a Polícia Federal, o direito de utilização das aeronaves aparecia relacionado à remuneração prevista no contrato entre o escritório e o Banco Master.
Antes da elaboração do acordo, Vorcaro teria solicitado que um interlocutor encaminhasse a Viviane uma apresentação com informações sobre os dois veículos aéreos.
Mensagens posteriores indicam que as cotas chegaram a ser utilizadas. Em uma conversa reproduzida no material da PF, um interlocutor de Vorcaro perguntou a Viviane se a família estava satisfeita com o serviço.
“Sim, estamos gostando muito”, respondeu a advogada, acrescentando que havia sido bem atendida durante as utilizações.
Em outro diálogo, Vorcaro cobrou a resolução de uma pendência relacionada às cotas e perguntou se “eles” estavam utilizando as aeronaves.
Seu interlocutor respondeu que já haviam usado aviões e helicópteros. As mensagens passam a integrar o conjunto de elementos relacionados ao contrato de R$ 131 milhões entre o Master e o escritório da família de Moraes.
Sigilo retirado
Horas depois da divulgação dos novos documentos, André Mendonça determinou a retirada do sigilo do relatório da Polícia Federal que contém as mensagens entre Vorcaro e Moraes.
O ministro afirmou que o conteúdo deverá inevitavelmente ser analisado pelo plenário do Supremo e defendeu que a discussão ocorra publicamente, em sessão presencial, em data que ainda deverá ser definida pelo presidente da Corte, Edson Fachin.
Ao justificar a decisão, Mendonça sustentou que a transparência é necessária diante da relevância institucional do material e das pessoas mencionadas.
Com a retirada do sigilo, os documentos que embasam as novas revelações deixam de permanecer restritos aos autos.
O próximo passo deverá envolver a manifestação da Procuradoria-Geral da República e, posteriormente, a análise do caso pelos demais ministros do STF.
A existência das mensagens, do contrato e das informações sobre as aeronaves não representa, por si só, conclusão de que Moraes tenha cometido crime ou outra irregularidade.
Dinheiro ao filme
Ao mesmo tempo em que novas informações aproximam Vorcaro de Moraes, outro conjunto de documentos amplia a relação financeira do ex-banqueiro com o projeto cinematográfico associado à família Bolsonaro.
Vorcaro enviou em 16 de setembro de 2025 mais US$ 1,6 milhão, aproximadamente R$ 8,5 milhões na cotação da época, para o Havengate Development Fund.
O fundo administrava recursos destinados à produção de Dark Horse, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Com o novo pagamento identificado, o total relacionado a Vorcaro teria passado de US$ 10,6 milhões para US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 63,7 milhões.
O repasse chama atenção também pela data. Ele ocorreu menos de duas semanas depois de o Banco Central ter rejeitado a operação de venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB), quando as dificuldades da instituição já eram públicas.
Pedido de Flávio
Flávio Bolsonaro admitiu anteriormente que procurou Vorcaro para pedir financiamento para Dark Horse.
Um áudio revelado em maio mostra o senador cobrando novos recursos do então banqueiro para concluir a produção.
Naquele momento, Vorcaro já havia repassado aproximadamente R$ 61 milhões ao projeto.
A relação causou desgaste à candidatura presidencial de Flávio porque o senador inicialmente negou envolvimento direto na captação e posteriormente reconheceu que havia pedido dinheiro ao banqueiro.
As informações divulgadas nesta terça-feira indicam que o volume de recursos relacionados a Vorcaro pode ser superior ao valor inicialmente conhecido.
Questionado sobre os novos repasses, Flávio afirmou que não trata das finanças do projeto e direcionou as perguntas para a Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme.
“Essas informações eu não tenho como saber porque eu não trato disso. Tem que perguntar para a produtora”, afirmou nesta terça-feira.
Dark Horse
A Polícia Federal investiga se parte dos recursos relacionados ao projeto pode ter sido utilizada para bancar despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
A Polícia Civil de São Paulo também acompanha suspeitas relacionadas à produtora responsável pelo filme e a contratos públicos de outra entidade ligada à empresária Karina Ferreira da Gama.
A produtora afirma que o filme foi financiado com recursos privados e apresentou uma perícia particular segundo a qual aproximadamente US$ 13,39 milhões (R$ 68,97 milhões) foram gastos na produção.
O documento, porém, não apresenta todos os fornecedores, comprovantes e detalhes dos pagamentos.
A prestação de contas completa e os contratos individuais dos financiadores também não foram tornados públicos.
Flávio nega ter oferecido qualquer vantagem política ou administrativa a Vorcaro em troca do dinheiro destinado ao longa.
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