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Justiça

Delação detalha onde Daniel Vorcaro escondeu dinheiro no exterior

Empresário diz ter operado recursos em espécie e apresentou documentos de transferências ao Havengate; destino final ainda é investigado

Antônio Carlos Freixo Júnior e Vorcaro
Antônio Carlos Freixo Júnior afirma ter realizado operações financeiras a pedido de Daniel Vorcaro Foto: Reprodução

A colaboração premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro, acrescentou uma nova frente às investigações sobre a movimentação financeira de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

O empresário relatou que atuava como operador financeiro de Vorcaro em operações que envolviam grandes quantias em dinheiro vivo e transferências para o exterior.

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Parte dos recursos, segundo seu relato, era colocada em malas e entregue a pessoas indicadas pelo banqueiro.

A colaboração foi firmada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) e encaminhada ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), responsável por decidir sobre sua homologação.

As declarações de Freixo ainda precisam ser confrontadas com outras provas. Uma delação premiada, isoladamente, não é suficiente para comprovar as acusações apresentadas pelo colaborador.

Dinheiro vivo

Segundo apuração do jornalista José Marques, da Folha de S.Paulo, Freixo contou que Vorcaro transferia recursos ou bens para empresas sob seu controle e, posteriormente, solicitava a transformação de parte desses valores em dinheiro em espécie.

Mineiro procuraria outros operadores financeiros capazes de disponibilizar grandes quantidades de dinheiro vivo. Esses intermediários cobrariam 4% do valor movimentado pelo serviço.

Depois da operação, os valores seriam colocados em malas e entregues a emissários indicados pelo então dono do Master.

Freixo afirmou, porém, não saber qual era o destino final do dinheiro nem quem efetivamente recebia os recursos depois das entregas.

Esse ponto deve ser uma das frentes de aprofundamento da investigação, que tenta reconstruir não apenas a origem dos valores, mas também os beneficiários das operações em espécie.

Papel da Entre

Freixo é dono da Entre Investimentos e Participações, empresa que já aparecia nas investigações como uma estrutura utilizada para realizar operações determinadas por Vorcaro.

A Polícia Federal considera que a companhia funcionava como uma espécie de braço operacional em determinadas movimentações financeiras relacionadas ao ex-banqueiro.

A delação pode ajudar os investigadores a entender com maior precisão como essa relação funcionava e quais operações eram executadas a pedido do antigo controlador do Master.

Freixo também comandava a Entrepay, instituição financeira do Grupo Entre que foi liquidada extrajudicialmente pelo Banco Central em março deste ano.

Remessas externas

Freixo entregou documentos sobre pagamentos realizados pela Entre Investimentos ao Havengate Development Fund, fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos.

O Havengate é administrado pelo advogado Paulo Calixto, próximo de Eduardo Bolsonaro, e passou a ser investigado por ter recebido recursos relacionados ao financiamento de Dark Horse, filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.

Freixo afirmou que os valores encaminhados ao fundo pertenciam a Vorcaro e que as transferências foram realizadas por determinação do banqueiro.

O empresário apresentou ainda comprovantes de operações de câmbio e descreveu uma estrutura semelhante a uma conta conjunta utilizada para executar pagamentos.

Bahamas e Texas

A rota internacional também teria chamado a atenção do Banco Central. Segundo o relato atribuído a Freixo, técnicos da autoridade monetária identificaram movimentações consideradas atípicas envolvendo a Entrepay.

O fluxo descrito pelo empresário teria início no Brasil, passaria pelas Bahamas e terminaria no Texas, onde está sediado o Havengate.

Os investigadores apuram se as transações podem configurar evasão de divisas ou outras irregularidades financeiras.

A existência das transferências internacionais, por si só, não significa que tenha ocorrido crime.

A PF deverá analisar a origem dos recursos, a documentação cambial e a finalidade de cada operação.

Dark Horse

Mensagens encontradas no celular de Vorcaro mostram que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) procurou o banqueiro para obter recursos destinados à produção do filme sobre Jair Bolsonaro.

Parte dos pagamentos relacionados a Vorcaro passou pela Entre antes de chegar ao fundo nos Estados Unidos.

A Polícia Federal investiga se todo o dinheiro encaminhado ao Havengate foi posteriormente destinado à produtora responsável pelo longa ou se parte permaneceu no fundo ou teve outra finalidade.

Freixo declarou não saber se os valores beneficiaram Eduardo Bolsonaro ou qualquer outro aliado do ex-presidente.

Até agora, não há comprovação de que recursos de Vorcaro tenham sido utilizados para custear despesas pessoais do ex-deputado nos Estados Unidos.

Documentos entregues

A diferença entre essa colaboração e outras tentativas de acordo envolvendo personagens do Caso Master está na possibilidade de apresentação de documentação capaz de confirmar parte dos relatos.

Além das declarações, Freixo teria entregue extratos, comprovantes de transferências e documentos relacionados às operações de câmbio realizadas para o exterior.

Esse material deverá ser analisado pela Polícia Federal e pela PGR para verificar se confirma a rota financeira descrita pelo colaborador.

A legislação exige justamente essa etapa de corroboração. O relato de um delator pode orientar novas diligências, mas não pode servir sozinho como fundamento para uma condenação.

Multa bilionária

O acordo foi fechado com a PGR em agosto. Freixo se comprometeu a pagar aproximadamente R$ 2 bilhões em multa dentro das condições negociadas para sua colaboração.

O valor e os demais benefícios previstos no acordo somente produzirão efeitos depois da análise judicial.

Mendonça marcou para 8 de setembro uma audiência destinada a verificar se Freixo aderiu voluntariamente à colaboração e se compreende as condições acertadas com a Procuradoria.

Segunda delação

A primeira foi fechada com João Carlos Mansur, fundador da Reag Investimentos, que apresentou 17 anexos relacionados às estruturas financeiras investigadas.

Freixo ocupa uma posição diferente. Sua colaboração pode alcançar diretamente a movimentação de dinheiro realizada por determinação de Vorcaro, incluindo operações em espécie e transferências internacionais.

Também é a primeira delação formal a avançar diretamente sobre a estrutura de pagamentos relacionada ao financiamento de Dark Horse.

O Brasilianista permanece aberto a manifestações das defesas e dos demais citados nesta reportagem. Eventuais posicionamentos enviados após a publicação serão acrescentados ao texto.

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