Justiça

Caso Master: o Vorcaroween

Encontro no Madame Satã, viagens de políticos e novos documentos ampliaram as ramificações das investigações nas duas primeiras semanas do mês

Banco Master
Festas, mensagens e R$ 17 bilhões em fraudes Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

As duas primeiras semanas de setembro trouxeram uma sequência de documentos, mensagens e relatórios da Polícia Federal (PF) sobre Daniel Vorcaro e o Banco Master.

Entre 1º e 14 de setembro, vieram a público registros de encontros do ex-banqueiro com o ministro Alexandre de Moraes, uma festa de Halloween para autoridades no Madame Satã, viagens internacionais pagas a políticos e servidores do Banco Central, suspeitas sobre um grupo chamado “A Turma”, o financiamento do filme Dark Horse e operações de aproximadamente R$ 17 bilhões entre o Master e o Banco de Brasília (BRB).

Parte do material foi divulgada depois que o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, cobrou do ministro André Mendonça a retirada do sigilo dos procedimentos relacionados ao Master que não dependessem de confidencialidade para preservar diligências.

Os documentos passaram a revelar episódios que ocorreram principalmente entre 2023 e 2025, mas que só se tornaram públicos neste mês.

Mensagens de Moraes

Moraes acusa Mendonça de seletividade e pede julgamento conjunto no plenário Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

O primeiro grande volume de informações apareceu em 1º de setembro, quando Mendonça retirou o sigilo de um relatório de 218 páginas produzido pela PF a partir do celular de Vorcaro.

As mensagens indicam que Vorcaro e Moraes se encontraram ao menos seis vezes entre 2024 e 2025.

Os primeiros contatos foram intermediados pelo ex-ministro das Comunicações Fábio Faria.

O material também registra pedidos de Vorcaro para conversar com o ministro nos dias anteriores à prisão do banqueiro, ocorrida em novembro de 2025.

Em 15 de novembro de 2025, dois dias antes da prisão, Vorcaro perguntou ao interlocutor identificado pela PF como Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.

No dia seguinte, informou que estava em voo e seguiria diretamente para um encontro após pousar. Os documentos não mostram que eventuais pedidos de Vorcaro tenham sido atendidos.

Os papéis também tratam do contrato de aproximadamente R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.

Outra proposta, de aproximadamente R$ 50 milhões, previa parte do pagamento por meio de cotas de um jato e um helicóptero.

A divulgação desencadeou um confronto entre Moraes e Mendonça. Em 3 de setembro, Moraes pediu que o colega fosse investigado por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade.

Segundo ele, Mendonça teria direcionado investigações por razões pessoais e políticas.

No dia 8, Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada.

O ministro alegou que havia sido alvo de monitoramento ilegal. A documentação citada, porém, não registrava vigilância física, interceptação telefônica ou acompanhamento de localização.

Madame Satã

Madame é o novo nome do Madame Satã, boate ícone da cena underground de SP Foto: creative commons

Entre os episódios divulgados na semana passada, a festa de Halloween promovida por Vorcaro em 31 de outubro de 2023 no Madame Satã, tradicional casa noturna do Bixiga, em São Paulo, tornou-se um dos mais comentados.

Segundo as mensagens divulgadas inicialmente pela revista Piauí, os celulares dos convidados eram recolhidos na entrada.

A festa reuniu cerca de 120 mulheres, empresários e convidados ligados à política. O evento teve apresentações de Swedish House Mafia, Solomun e Vintage Culture.

Fábio Faria aparece nas conversas como responsável por convidar parte dos homens.

Os nomes citados nas mensagens incluem Davi Alcolumbre, Rodrigo Pacheco, Dias Toffoli, Ciro Nogueira, Arthur Lira, Alexandre de Moraes e Wesley Batista.

A presença de todos eles, contudo, não foi confirmada. Alcolumbre, Pacheco e Toffoli negaram ter ido à festa.

A assessoria de Wesley Batista afirmou que o empresário nunca participou de festas promovidas por Vorcaro.

A PF trata algumas identificações, como as de Moraes e Lira, como suspeitas, e não como presença comprovada.

O Madame informou que o espaço havia sido alugado a uma produtora terceirizada e que não negociou diretamente com Vorcaro.

Banco Central

Diretor do BC detalha como Daniel Vorcaro corrompeu servidores do órgão Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Os documentos liberados também trouxeram informações sobre Belline Santana, ex-chefe de Supervisão Bancária do Banco Central, e Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização.

Segundo a PF, Vorcaro custeou parte de uma viagem de Belline e da mulher dele a Paris. As mensagens mostram orientações para reservas em restaurantes como Lapérouse e Loulou e pedidos para que fossem servidos “bons vinhos e comida”.

Paulo Sérgio também aparece em registros relacionados a uma viagem com a família para a Disney.

A defesa afirma que ele pagou passagens, hospedagem e outras despesas e que entregou US$ 8 mil em espécie por um pacote de acesso aos parques.

Os advogados dizem que o servidor desconhecia um pagamento adicional de US$ 38 mil atribuído a Vorcaro.

No caso de Belline, a PF encontrou comprovantes que somam R$ 3,8 milhões, com parcelas que chegariam a R$ 500 mil mensais.

A investigação suspeita de pagamentos relacionados a favorecimentos ao Master.

A defesa sustenta que o dinheiro estava ligado a um programa de treinamento financeiro para jovens e nega influência de Vorcaro sobre a atuação funcional do servidor.

A Turma

Nesta segunda-feira (14), novos detalhes foram publicados sobre o grupo chamado pela investigação de “A Turma”.

Segundo a PF, o núcleo era liderado pelo ex-policial federal Marilson Roseno da Silva e atuava na obtenção de informações sigilosas, levantamento de dados de pessoas e empresas e intimidação de desafetos de Vorcaro.

As mensagens indicam uma estrutura que recebia cerca de R$ 400 mil por mês e tinha até período de férias no fim do ano.

Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, aparece como intermediário financeiro.

Empresas ligadas ao conglomerado de Vorcaro faziam transferências utilizadas, segundo os investigadores, para financiar os grupos.

Conversas também mostram integrantes lamentando a saída de Dias Toffoli da relatoria do Caso Master no STF por considerarem que a mudança poderia prejudicar a situação jurídica da família Vorcaro.

Dark Horse

Crise no STF piora situação de Flávio Bolsonaro na investigação sobre Dark Horse Foto: creative commons

A abertura de documentos confirmou que Flávio Bolsonaro é formalmente investigado no inquérito sobre o financiamento de Dark Horse, filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.

O inquérito foi aberto em 22 de julho. A PF investiga suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas e aponta Flávio como interlocutor direto de Vorcaro nas negociações sobre recursos destinados à produção.

Os documentos citam negociações superiores a US$ 24 milhões, com pelo menos US$ 12,3 milhões já repassados, e investigam a destinação dos recursos.

A PF também analisa a participação de Eduardo Bolsonaro na administração de dinheiro nos Estados Unidos.

Flávio nega irregularidades. Depois da retirada do sigilo, disse estar tranquilo com a divulgação e afirmou que a documentação demonstraria sua versão sobre o caso.

Jaques Wagner

O senador Jaques Wagner (PT-BA) também aparece nos relatórios liberados. Em uma das mensagens, Vorcaro orienta um interlocutor sobre um voo que, segundo a PF, possivelmente transportaria Wagner e outras pessoas.

“Cuidado com o hangar lá na Bahia”, escreveu o ex-banqueiro. Depois, pediu que o avião fosse retirado rapidamente do local e que a operação ocorresse de maneira discreta.

Outra apuração trata de um apartamento de R$ 2,45 milhões, em Salvador. A PF identificou mensagens entre pessoas ligadas ao Master e um auxiliar do senador nas quais aparece a expressão “a altura do vão é 2,45m”.

Para os investigadores, a frase poderia representar de forma cifrada o valor do imóvel.

Wagner confirmou a negociação e afirmou que pretendia ajudar a filha na aquisição do apartamento.

Ciro Nogueira

Os relatórios também detalham viagens do senador Ciro Nogueira (PP-PI) pagas por Vorcaro.

Em maio de 2024, o grupo ficou no Park Hyatt New York. Uma suíte “royal” reservada para o período custou US$ 47,7 mil, cerca de R$ 245 mil.

Os documentos também mencionam uma degustação privada de uísques e charutos no Carnegie Club cujo custo geral chegou a aproximadamente US$ 1 milhão, incluindo US$ 674,7 mil em bebidas.

Em janeiro de 2025, Ciro e a mulher viajaram aos Alpes Franceses. Segundo a PF, Vorcaro pagou aluguel de equipamentos, instrutores de esqui, motoristas e restaurantes. Os gastos identificados no período chegaram a aproximadamente R$ 1,8 milhão.

Outro documento divulgado no fim de semana registrou uma folha encontrada pela PF na churrasqueira da residência de Ciro durante uma operação em maio.

O papel continha nomes de deputados e números que os investigadores consideram possíveis valores.

Uma funcionária afirmou que o senador entregou o documento e pediu que ele fosse queimado, dizendo que era antigo e não tinha utilidade.

Entre os nomes que a polícia tenta identificar estão referências que podem corresponder a Arthur Lira e Hugo Motta. A PF ressalta que o conteúdo ainda precisa ser esclarecido.

Fraude no BRB

Delação de presidente do BRB é negada pela PGR Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

O material divulgado também detalhou as operações entre o Banco Master e o BRB.

A PF calcula que a fraude investigada tenha alcançado aproximadamente R$ 17 bilhões.

Segundo a investigação, o BRB comprou carteiras de crédito do Master mesmo depois de equipes internas identificarem problemas nos ativos.

Em uma das conversas, Vorcaro escreveu que precisava “liquidar alguma coisa” porque estava com um “furo”.

Em outro diálogo, diante de problemas de documentação, disse a Paulo Henrique que chegava um momento em que era preciso “partir pro gol e depois arrumar a casa do que faltou”.

A PF também apura suspeita de R$ 146 milhões em imóveis entregues a Paulo Henrique como vantagem indevida. Vorcaro não se manifestou sobre esse relatório.

Celular de Vorcaro

O fim de semana terminou com outra disputa, quem poderá acessar todo o conteúdo extraído do celular de Vorcaro.

No domingo (13), Cristiano Zanin determinou que a PF enviasse ao seu gabinete a íntegra dos dados.

Gilmar Mendes fez solicitação semelhante. Zanin escreveu que “não existe hierarquia entre os ministros do Supremo Tribunal Federal” e defendeu que o material necessário ao julgamento deve estar disponível aos integrantes do plenário.

Mendonça se posicionou contra a disponibilização integral naquele momento e argumentou que a medida poderia prejudicar investigações em curso.

A PF respondeu a Fachin que possui condições técnicas de produzir e encaminhar cópias completas, mantendo os cuidados de sigilo necessários.

A discussão ocorre às vésperas da sessão marcada para 15 de setembro, quando o plenário do STF deverá analisar os documentos referentes às mensagens entre Vorcaro e Moraes e os questionamentos jurídicos apresentados sobre a investigação.

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