A escolha do ministro das Relações Exteriores pode se tornar uma das decisões mais estratégicas de Lula para o quarto mandato, o que ganha ainda mais força em meio às especulações sobre uma possível saída de Mauro Vieira e a chegada de Mauricio Lyrio ao comando do Itamaraty.
A mudança, muito apontada como uma "troca geracional", pode também sinalizar ajustes na condução e foco das relações do Brasil com as principais potências e parceiros comerciais.
À frente do Itamaraty, o próximo chanceler terá desafios que exigem equilíbrio e habilidade de negociação. A tênue relação com Donald Trump e os Estados Unidos, a aproximação com a China, as negociações com a União Europeia, os vínculos com a Rússia e a relação estratégica com a Argentina estão entre os temas que devem pressionar a agenda diplomática brasileira.
A possível troca
Essa possível troca de Vieira por Lyrio sinalizaria principalmente continuidade, segundo Lívia Peres Milani, pesquisadora do quadro permanente do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e também pesquisadora associada do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU).
A especialista pontua: "O governo Lula, nos três mandatos, teve uma orientação de política externa que foi muito no sentido de manter boas relações com todos os países do mundo [...] O Mauricio Lyrio, pelo seu histórico, significa continuidade nesses pontos".
A política de relações exteriores
Essa "continuidade" se traduz em uma política de manter diálogo com os Estados Unidos, mas buscando diversificar parcerias, incluindo China, Índia, além de países africanos e sulamericanos.
Lívia destaca: "Mauricio Lyrio foi sherpa do Brasil nos BRICS e no G20 também, que são dois fóruns muito relevantes nessa orientação de política externa de diversificação de parcerias e de aumento do diálogo, principalmente com países do Sul Global".
Lyrio também é Secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores, o que a pesquisadora entende que pode indicar uma "ênfase maior nesses temas". O mesmo poderia se repetir com a China, uma vez que ele publicou um livro sobre o país (A Ascensão da China como potência: fundamentos políticos internos) e a própria trajetória do diplomata sugere uma priorização das relações com países do Sul Global.
Mas ela complementa: "Me parece que essas diferenças são muito mais no sentido de nuances, de talvez prioridades que se alterem em alguma medida, mas não de diferenças em termos da condução e orientação da política externa".
E reforça: "Eu não vejo grandes mudanças mesmo com a entrada do Mauricio Lyrio. Ele é uma mudança geracional no Itamaraty, mas ao mesmo tempo me parece uma pessoa que coaduna bastante com as orientações gerais de política externa que estão sendo seguidas no momento".
O papel do ministro das Relações Exteriores
Lívia esclarece que a decisão final é do presidente, contudo o chanceler tem um papel importante no sentido de conversar e aconselhá-lo. "É o chanceler que tem o contato mais direto com as embaixadas, com o corpo diplomático, existem negociações importantes nas quais o chanceler está presente, ele faz visitas para se encontrar com outros ministros", exemplifica.
Ela acrescenta: "No caso do Lula, nos três mandatos, além do chanceler, ele teve um assessor especial, que fazia também esse papel de aconselhamento e ser um ponto de referência nesse momento da formulação", Celso Amorim. Agora, será necessário ver se isso se mantém nos próximos quatro anos.
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