O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central inicia nesta terça-feira (03) sua primeira reunião desde a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 25 de outubro.
A decisão sobre a taxa Selic, atualmente em 13,75% ao ano, será anunciada na quarta-feira (04).
Em setembro, a dívida bruta brasileira alcançou R$ 11,1 trilhões, equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto os juros acumulados pelo setor público ultrapassaram R$ 1,2 trilhão em 12 meses.
Apesar de cinco reduções consecutivas da taxa básica desde março, o crédito permanece caro para famílias e empresas.
O primeiro Boletim Focus divulgado após a eleição também registrou revisões para cima nas projeções de inflação, dólar e juros.
Para Filipe Martins, cientista contábil, mestre em Controladoria e Contabilidade, especialista em finanças e gestão empresarial e docente dos cursos de gestão do Centro Universitário Cesuca, as escolhas fiscais do governo podem limitar a continuidade dos cortes da Selic e afetar o consumo, os investimentos e a geração de empregos.
Decisão do Copom
A Selic começou 2026 em 15% ao ano e foi reduzida nas reuniões de março, abril, junho, agosto e setembro.
No último encontro, em 16 de setembro, o Copom diminuiu a taxa de 14% para 13,75%, reconhecendo sinais de moderação da atividade econômica, mas mantendo cautela diante das expectativas de inflação.
A meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional é de 3% ao ano, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual. Assim, o limite superior é de 4,5%.
Martins destaca as variáveis que devem orientar os integrantes do comitê. "Entre os principais fatores que devem influenciar as próximas decisões do Copom estão a inflação, a situação das contas públicas, o comportamento do dólar e as expectativas para a economia brasileira."
No Boletim Focus divulgado nesta terça-feira, a projeção para a Selic no encerramento de 2026 passou de 13,25% para 13,5%.
A estimativa ainda indica expectativa de um corte adicional de 0,25 ponto percentual até dezembro.
A previsão para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) aumentou de 5,19% para 5,22% neste ano. Para 2027, subiu de 4,34% para 4,76%, também acima do limite superior da meta.
No câmbio, a cotação projetada para o dólar no fim de 2026 passou de R$ 5,05 para R$ 5,34.
As expectativas de crescimento do PIB recuaram de 1,8% para 1,76% neste ano e de 1,31% para 1,2% em 2027.
Inflação resistente
O IPCA de setembro registrou alta de 0,82%, depois de uma deflação de 0,32% em agosto.
Com isso, a inflação acumulada em 12 meses alcançou 4,58%, ultrapassando o limite superior da meta.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o resultado foi influenciado pelo encerramento de um desconto na conta de energia elétrica relacionado ao Bônus de Itaipu.
A prévia da inflação de outubro, medida pelo IPCA-15, apresentou alta de 0,32%, acumulando 4,62% em 12 meses.
Os indicadores possuem períodos de coleta diferentes, sendo o IPCA utilizado oficialmente para acompanhar o cumprimento da meta.
O comportamento dos preços também depende de fatores externos. A valorização do dólar pode encarecer produtos importados e insumos industriais, embora o impacto sobre os consumidores varie conforme as condições de cada mercado.
Na avaliação de Martins, o espaço para reduzir a Selic depende de uma desaceleração consistente da inflação, e não apenas de resultados favoráveis em determinados meses.
Pressão fiscal
Os dados do Banco Central divulgados em 29 de outubro mostram que a dívida bruta aumentou 4,3 pontos percentuais do PIB desde dezembro de 2025.
Em setembro, o setor público consolidado apresentou déficit primário de R$ 5,5 bilhões.
No acumulado de 12 meses, o resultado negativo chegou a R$ 70,1 bilhões, equivalente a 0,52% do PIB.
A situação muda quando são considerados os juros da dívida. Somente em setembro, essas despesas somaram R$ 107,5 bilhões, ante R$ 84,7 bilhões no mesmo mês de 2025.
No acumulado de 12 meses, os juros nominais alcançaram R$ 1,205 trilhão, frente a R$ 984,8 bilhões um ano antes.
Com a inclusão dos custos financeiros, o déficit nominal atingiu R$ 1,275 trilhão, correspondente a 9,51% do PIB.
O crescimento do endividamento não decorre exclusivamente de novas despesas do Executivo.
O estoque da dívida, a inflação, os juros e operações financeiras também influenciam o resultado.
Martins relaciona a administração do orçamento federal às expectativas econômicas. "Quando o governo aumenta seus gastos sem apresentar uma previsão de receitas suficientes para manter o equilíbrio das contas públicas, isso acaba por gerar uma pressão sobre a inflação e aumentar a desconfiança dos investidores."
O especialista considera que uma política fiscal sustentável pode favorecer a confiança dos agentes financeiros e criar condições mais adequadas para a redução dos juros.
Crédito encarecido
A taxa média de juros das novas operações de crédito chegou a 32,4% ao ano em setembro, segundo as Estatísticas Monetárias e de Crédito divulgadas pelo Banco Central em outubro.
Nas operações com recursos livres, a média alcançou 49% ao ano. Para pessoas físicas, os juros atingiram 62,4%, enquanto a taxa média cobrada das empresas chegou a 24,4%.
Os efeitos aparecem nos indicadores de endividamento. Em agosto, as dívidas das famílias chegaram a 50,1% da renda acumulada em 12 meses, com aumento de 1,2 ponto percentual em relação ao ano anterior.
O comprometimento da renda com o pagamento de dívidas alcançou 29%, avanço de 1,4 ponto percentual na mesma comparação.
A inadimplência também cresceu. Em setembro, 6% da carteira total de crédito às famílias estava em atraso, percentual que chegou a 8,1% nas operações com recursos livres destinadas às pessoas físicas.
Martins explica como o custo do financiamento interfere nas despesas domésticas. "Para a população, o crédito fica mais caro, aumentando o valor dos empréstimos, financiamentos e compras parceladas. Com isso, as famílias acabam comprometendo uma parcela maior da renda com o pagamento de dívidas, reduzindo os recursos disponíveis para o consumo."
Investimentos adiados
As taxas elevadas também interferem no planejamento de empresas que dependem de financiamento para comprar equipamentos, manter estoques ou ampliar suas atividades.
O custo do dinheiro é um dos fatores utilizados para avaliar a viabilidade de novos projetos.
Quando os juros aumentam, determinados investimentos podem deixar de apresentar o retorno financeiro esperado.
Martins relaciona esse cenário à capacidade de expansão das empresas. "Por consequência, muitos empresários acabam adiando investimentos e até mesmo novas contratações e acaba por afetar a geração de empregos e o crescimento da economia."
Os dados mais recentes do IBGE mostram sinais de moderação da atividade econômica brasileira.
No segundo trimestre de 2026, o PIB cresceu 0,5% em relação aos três meses anteriores e 2% na comparação com o mesmo período de 2025. No acumulado de quatro trimestres, a expansão foi de 1,9%.
A formação bruta de capital fixo, indicador relacionado aos investimentos produtivos, recuou 0,2% na comparação interanual. Já o consumo das famílias cresceu 0,9%, enquanto o consumo do governo avançou 2,8%.
Autonomia monetária
Embora a política fiscal influencie as condições econômicas, Lula não determina diretamente o percentual da Selic.
A definição cabe ao Copom, formado pelo presidente e pelos diretores do Banco Central, instituição que possui autonomia operacional prevista em lei.
O governo federal responde pela condução das políticas fiscais e orçamentárias, enquanto a autoridade monetária utiliza os juros e outros instrumentos para buscar o cumprimento da meta de inflação.
As responsabilidades são distintas, mas seus efeitos se encontram na atividade econômica.
Alterações nas despesas públicas podem influenciar a demanda e as expectativas, enquanto a Selic interfere nas condições de financiamento e nas decisões de consumo.
O cenário internacional também participa dessa avaliação. Mudanças na política monetária dos Estados Unidos, por exemplo, podem afetar o dólar, a movimentação de capitais e o custo de financiamento de países emergentes.
Martins identifica riscos associados tanto à velocidade dos cortes quanto à manutenção prolongada de uma política monetária restritiva. "Uma redução muito rápida pode provocar novas pressões sobre os preços, enquanto a manutenção dos juros elevados por muito tempo pode comprometer o crescimento econômico."
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