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Geopolítica

Um governo Trump com oposição fortalecida

Congresso de maioria democrata pode dificultar a governabilidade do republicano

Donald Trump
A perda da maioria parlamentar não significa a perda da capacidade total de governar (Foto: Creative Commons/ Wikimedia Commons)

Um novo jogo político começa nos Estados Unidos após o resultado das eleições de meio mandato realizadas na última terça-feira (03).

A primeira consequência dessas eleições é uma alteração significativa na correlação de forças entre o Executivo e o Legislativo norte-americanos. Donald Trump deixa de contar com o Congresso politicamente alinhado e passa a enfrentar uma oposição fortalecida.

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Isso significa uma mudança importante na dinâmica do presidencialismo norte-americano. Isso porque o Congresso não é apenas uma instituição legislativa, mas um instrumento de fiscalização, de controle orçamentário e de limitação do poder presidencial.

O Partido Democrata conquistou o controle da Câmara dos Representantes e do Senado. Dos governadores eleitos, a maioria também foi democrata e alguns estados também tiveram resultados históricos.

No Texas, por exemplo, os eleitores encerraram décadas de domínio republicano em disputas estaduais, enquanto candidaturas de diferentes partidos registraram marcos inéditos de representação política.

O presidente Donald Trump não apareceu nas cédulas, mas o resultado interfere diretamente nos dois anos restantes de seu segundo mandato.

O Partido Democrata recuperou o controle da Câmara dos Representantes, que possui 435 cadeiras e exige pelo menos 218 para formar maioria. Os democratas também conquistaram a maioria das 100 cadeiras do Senado.

Os efeitos do Congresso oposto ao governo

Segundo José Renato Ferraz da Silveira, professor titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), a partir de janeiro de 2027, os democratas terão condições de ampliar investigações parlamentares, dificultar nomeações, questionar decisões administrativas e impor maiores custos políticos à agenda presidencial de Donald Trump.

Ainda assim, o internacionalista explica que a perda da maioria parlamentar não significa a perda da capacidade de governar.

"Trump continuará a disponer de instrumentos constitucionais relevantes, como veto presidencial, ele já disse que será o Mr. Veto, competências executivas e atribuições em política externa. Portanto, nós não teremos necessariamente um presidente paralisado, mas um presidente submetido, limitado a constrangimentos institucionais mais intensos", afirma.

O professor comenta que Trump continuará ocupando a presidência, mas terá muito menos liberdade para transformar suas preferências políticas em decisões legislativas.

O ponto de virada

Uma das dimensões mais relevantes das eleições de 2026 nos EUA foi o apoio aos democratas em estados e colégios eleitorais que tradicionalmente são republicanos ou conhecidos como imprevisíveis.

Silveira explica que, quando um partido conquista vitórias em seus territórios tradicionais, o resultado é interpretado como uma mobilização de sua própria base eleitoral, o que é muito natural. Entretanto, quando consegue avançar em estados historicamente associados ao adversário, é um fenômeno  politicamente mais abrangente.

O Texas constitui um exemplo particularmente significativo. Durante décadas, o Estado representou um dos principais pilares eleitorais do Partido Republicano. As vitórias democratas na disputa ao Senado e o governo estadual indicam uma ruptura importante nesse padrão.

"É um turning point sem dúvidas. O mesmo raciocínio se aplica com as devidas diferenças históricas e demográficas em estados como a Iowa e Maine", afirma o professor.

No entanto, é necessário lembrar que esses estados possuem estruturas eleitorais distintas. O Texas apresenta umalonga tradição republicana nas eleições estaduais. O Iowa tornou-se mais favorável aos republicanos nas disputas e presidenciais recentes. Maine, por sua vez, possui um comportamento eleitoral mais competitivo, com diferenças entre eleições presidenciais e legislativas.

"Portanto, não estamos diante de um movimento uniforme, mas existe um elemento comum: a capacidade dos democratas de conquistar eleitores para além de seus territórios eleitorais tradicionais. Isto sugere que, a insatisfação com o governo Trump, ultrapassou os segmentos normalmente identificados com a oposição democrata", explica.

A economia desempenha um papel central nessa interpretação, por exemplo quando o eleitor percebe deterioração de poder de compra, aumento das despesas familiares, insegurança econômica. Isso porque questões materiais podem adquirir maior peso do que identidades partidárias consolidadas.

Silveita alerta, entretanto, que ainda não é possível concluir que o eleitorado norte-americano tem abandonado definitivamente o conservadorismo.

"Uma derrota eleitoral expressiva não significa necessariamente uma transformação ideológica permanente. O que as eleições revelam é que a capacidade de mobilização do Trumpismo não foi suficiente para neutralizar a insatisfação com o desempenho do governo", reforça.

Apesar da derrota eleitoral do governo Trump, ainda é preciso observar se ela produzirá uma transformação duradoura do sistema partidário norte-americano.

Cenário de 2028 ainda não está definido

Ainda que as eleições de meio mandato representem uma reação dos americanos ao governo vigente, não é possível afirmar que o resultado de maior apoio aos democratas seja um reflexo direto do que deve acontecer em 2028.

O resultado das cédulas parece expressar não apenas divergências ideológicas, mas insatisfação com as condições materiais de existência, o custo de vida, as dificuldades econômicas, os efeitos das tarifas comerciais e os custos associados à guerra contra o Irã, que contribuíram para transformar a eleição em um julgamento sobre a administração do Trump.

"Existe também uma dimensão sociológica importante, a ampliação da representação de mulheres, negros, indígenas, latinos e integrantes da comunidade LGBTQIAPN+ demonstra a crescente pluralidade da representação política norte-americana. Mas isso não significa que todos esses grupos constituem um eleitorado homogêneo", revela o especialista.

Há ainda uma disputa interna do partido democrata, associado a propósitas mais abrangentes de redistribuição de renda, proteção social e direito de serviço, convive com setores moderados que priorizam a competitividade eleitoral e a negociação institucional. Para o professor, o desafio democrata será conciliar essas correntes e apresentar respostas concretas às demandas socioeconômicas.

"Uma coisa é conquistar o voto de protesto, o que é muito normal nas eleições de meio de mandato. Outra muito diferente é transformar esse voto em uma maioria presidencial duradoura", diz.

Os efeitos sobre o Brasil

Para o Brasil, que recentemente elegeu à Presidência o adversário do aliado de Donald Trump, a mudança na composição do Congresso norte-americano representa uma alteração importante no ambiente político bilateral.

Ainda assim, vale lembrar que a relação entre Brasil e Estados Unidos não depende exclusivamente das preferências pessoais de seus presidentes. Ela envolve interesses comerciais, instituições, investimentos, segurança, tecnologia e disputas geopolíticas.

O resultado desta terça poderá ampliar a fiscalização sobre decisões tarifárias questionadas, determinadas iniciativas de política externa e principalmente aumentar o custo político de medidas unilaterais adotadas pela Casa Branca. Dessa forma, a diplomacia brasileira terá mais oportunidades de diálogo em diversas áreas.

Silveira alerta que o cenário não é totalmente otimista, visto que o próprio partido democrata possui setores protecionistas, preocupados com a indústria norte-americana, com a competição internacional e a preservação da liderança econômica dos Estados Unidos.

Portanto, uma maioria democrata não significa necessariamente uma política comercial favorável ao Brasil.

"Existe ainda uma dimensão geopolítica. A derrota eleitoral de Trump pode reduzir sua margem  de manobra para iniciativas de pressão sobre governos latino-americanos. Mas eu faria também uma ressalva importante: a redução da capacidade política de intervenção não significa o desaparecimento dos interesses estratégicos os Estados Unidos da América Latina. Esses interesses ultrapassam governos e partidos", afirma o professor.

Ainda assim, o Brasil pode aproveitar esse momento para ampliar sua negociação e preservar sua autonomia diplomática.

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