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Economia

Paz na Ucrânia pode ser um alívio para o agro brasileiro

Rússia responde por mais de 20% das importações brasileiras de fertilizantes, enquanto custos logísticos e preços internacionais pressionam os produtores

Rússia e Ucrânia
Especialista estima que um eventual acordo poderia reduzir despesas nas lavouras em até oito meses (Foto: creative commons)

As negociações de paz entre Rússia e Ucrânia podem trazer consequências para o agronegócio brasileiro, que depende do exterior para abastecer suas lavouras com fertilizantes.

Nesta quinta-feira (05), o presidente americano Donald Trump afirmou que um acordo entre os países estava próximo, embora o conflito iniciado em fevereiro de 2022 permaneça em andamento.

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Uma eventual normalização comercial poderia reduzir despesas com transporte, seguros e pagamentos internacionais.

O impacto seria relevante para o Brasil, que importou 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes em 2025, maior volume de sua série histórica.

A possibilidade de redução dos custos surge em um mercado altamente dependente de fornecedores estrangeiros.

Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, as importações respondem por aproximadamente 93% do consumo nacional de fertilizantes.

A Rússia permanece como principal origem desses produtos, apesar da redução das compras em 2026.

Para Marco Aurelio da Silva, mestre em Administração, consultor de empresas em Negócios Internacionais e docente dos cursos de Comércio Exterior e Relações Internacionais da FSG – Centro Universitário da Serra Gaúcha, a retomada de condições comerciais mais favoráveis poderia beneficiar especialmente as lavouras de soja, milho, algodão e café, embora os efeitos não fossem imediatos.

Dependência russa

Entre janeiro e setembro de 2026, o Brasil importou 28,5 milhões de toneladas de fertilizantes, redução de 15,7% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados do Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

Desse total, 6,2 milhões de toneladas vieram da Rússia, responsável por 21,9% das compras brasileiras.

Em 2025, a participação russa havia alcançado 24,4%, com 11,1 milhões de toneladas comercializadas.

A China aparece como segunda maior fornecedora neste ano, com 18,2%, seguida pelo Canadá, com 15%, e pelo Marrocos, com 7,7%.

Os produtos russos incluem diferentes categorias de nutrientes agrícolas. Até setembro, o Brasil adquiriu daquele país 3,4 milhões de toneladas de fertilizantes potássicos, 1,3 milhão de nitrogenados e 1,2 milhão de fosfatados.

A presença russa é especialmente relevante no fornecimento de fosfato monoamônico, conhecido como MAP, utilizado na adubação de diversas culturas. O país respondeu por 52,3% do volume importado desse produto no período.

"A Rússia é a principal fornecedora de fertilizantes para o agronegócio brasileiro, respondendo historicamente por cerca de 20% a 25% de todo o volume importado pelo país, com forte destaque para o suprimento de potássio, nitrogenados e fósforo", afirma Silva.

A dependência de um número limitado de fornecedores expõe os compradores brasileiros às condições de produção, transporte e comercialização estabelecidas no mercado internacional.

Guerra e preços

A invasão da Ucrânia modificou as condições do comércio de fertilizantes, principalmente pelo aumento dos riscos nas rotas marítimas e pelas restrições financeiras impostas à Rússia.

Em 2022, primeiro ano da guerra, o Brasil gastou US$ 24,7 bilhões (aproximadamente R$ 136,4 bilhões) na importação de fertilizantes químicos, segundo dados oficiais do comércio exterior.

O valor representou aumento de 63,2% em relação a 2021, apesar de o volume importado ter recuado 8,3%.

O preço médio de aquisição passou de US$ 364,30 (R$ 2.011) para US$ 648,30 (R$ 3.578) por tonelada.

Em 2025, o desembolso diminuiu para US$ 15,46 bilhões (R$ 85,3 bilhões), mas ainda ficou 14,1% acima do registrado em 2024.

"Com o início do conflito em 2022, o fluxo logístico no Mar Negro foi gravemente interrompido e as sanções financeiras impostas ao sistema bancário russo dificultaram os pagamentos internacionais, forçando o Brasil a reconfigurar rotas de transporte, recorrer a intermediários e pagar prêmios elevados de frete e seguro", explica o especialista.

A busca por fornecedores alternativos também alterou as rotas de abastecimento utilizadas pelos importadores brasileiros, exigindo adaptações logísticas e negociações com empresas de outros países.

Custos persistentes

Os números de 2026 indicam que a redução do volume importado não foi acompanhada por uma queda generalizada dos preços.

Entre janeiro e setembro, o preço médio dos fertilizantes adquiridos pelo Brasil aumentou 14,5% na comparação anual, alcançando US$ 393 (R$ 2.169) por tonelada, considerando o valor da mercadoria antes do frete e do seguro internacionais.

No mesmo período, a participação do frete no custo de importação passou a representar 8% do valor final da carga colocada no porto brasileiro, crescimento de 0,9 ponto percentual.

Em setembro, essa participação chegou a 9,2%, acima do percentual registrado no mesmo mês de 2025.

A pressão logística levou o governo brasileiro a estabelecer prioridade para o desembarque de fertilizantes minerais em portos nacionais, mantendo as exigências sanitárias, aduaneiras e de qualidade.

O Porto de Paranaguá, no Paraná, permaneceu como principal entrada desses produtos, com 10,89 milhões de toneladas recebidas durante 2025. Os terminais do Arco Norte movimentaram outros 8,27 milhões de toneladas.

Paz negociada

Os Estados Unidos anunciaram uma nova rodada de negociações envolvendo Rússia e Ucrânia para os dias 10 e 11 de novembro, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.

As discussões deverão abordar o encerramento das hostilidades, as garantias de segurança e medidas humanitárias.

Apesar das declarações americanas sobre a proximidade de um entendimento, os governos envolvidos ainda apresentam divergências.

Um cessar-fogo, por si só, não garante a retirada imediata de sanções financeiras nem a normalização integral das operações comerciais no Mar Negro.

"Sim, um acordo de paz tende a pressionar os preços dos fertilizantes para baixo no mercado brasileiro, principalmente pela descompressão dos custos logísticos de frete marítimo no Mar Negro, pela redução dos custos de seguro de navegação e pela normalização dos canais de pagamento e comércio global", destaca o docente.

Outro fator relevante é o gás natural, utilizado como matéria-prima na produção de fertilizantes nitrogenados.

Alterações no fornecimento e no preço desse insumo podem influenciar os custos industriais e a oferta internacional.

"A reabertura plena das rotas de escoamento e a retomada regular do fornecimento de gás natural, insumo essencial para a produção de nitrogenados, aumentariam a oferta global disponível", acrescenta Silva.

Queda nas fazendas

Mesmo que os preços internacionais recuem, os agricultores brasileiros não receberão necessariamente os benefícios no momento da assinatura de um acordo.

As distribuidoras mantêm estoques adquiridos anteriormente, enquanto novas cargas precisam atravessar o transporte marítimo, os procedimentos portuários e a distribuição interna.

"No entanto, essa redução não seria imediata para os agricultores locais, levando entre quatro e oito meses para ser sentida nas fazendas, devido ao tempo de navegação, ao processamento nos portos nacionais e, fundamentalmente, ao consumo dos estoques que já foram adquiridos a preços mais altos pelas distribuidoras", ressalta o consultor.

O intervalo apresentado é uma estimativa do entrevistado, não um prazo garantido.

A velocidade de transmissão dos preços também dependerá do câmbio, dos contratos comerciais e do calendário de compras de cada cultura.

No Brasil, produtores podem adquirir fertilizantes com antecedência em relação ao plantio, o que significa que parte das despesas de uma safra pode ser definida meses antes de sua utilização nas lavouras.

Regiões beneficiadas

A dimensão dos possíveis ganhos varia conforme a utilização de fertilizantes, o tamanho das propriedades e a distância entre os portos e as regiões produtoras.

Mato Grosso e Goiás estão entre os estados com grandes áreas agrícolas e forte participação na produção nacional de grãos.

No Matopiba, formado por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, o custo logístico também influencia a chegada dos insumos às propriedades.

Silva identifica as culturas mais expostas às oscilações dos preços internacionais.

"As culturas de grande escala e com expressivo uso de adubação por hectare seriam as mais beneficiadas, lideradas pelas lavouras de soja, milho, algodão e café", observa o professor.

A quantidade de adubo necessária depende das características do solo, da produtividade esperada e do sistema de manejo.

Por isso, a mesma redução percentual no preço de determinado produto pode representar economias diferentes entre propriedades.

No Sul, as lavouras de grãos também poderiam registrar redução das despesas. Já em regiões distantes dos portos, os custos rodoviários continuariam compondo uma parcela relevante do preço final dos fertilizantes.

Alimentos mais baratos

Uma eventual redução no custo da adubação não significa que os consumidores encontrarão imediatamente alimentos mais baratos nos supermercados.

O preço final depende de diferentes etapas, incluindo transporte, processamento industrial, armazenamento, energia elétrica, embalagens e comercialização.

Também há diferenças entre produtos destinados ao mercado interno e commodities negociadas internacionalmente, como soja e milho.

"O repasse para o consumidor final na prateleira do supermercado não é automático e ocorre de forma marginal ou no médio prazo", pontua Silva.

Para produtores que enfrentaram aumento das despesas com insumos e financiamento, uma diminuição dos custos pode inicialmente representar recomposição de caixa e das margens de rentabilidade.

No caso das carnes, por exemplo, o preço também depende da alimentação animal, da oferta de animais para abate e das condições comerciais dos frigoríficos.

Produção brasileira

A exposição às mudanças internacionais também está relacionada à capacidade limitada de produção doméstica de determinados nutrientes agrícolas.

O Plano Nacional de Fertilizantes, lançado em 2022, estabelece metas para ampliar a fabricação nacional e reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros até 2050.

A estratégia contempla projetos de mineração, produção de nitrogenados, aproveitamento de matérias-primas e desenvolvimento de tecnologias alternativas de fertilização.

Essas iniciativas exigem investimentos industriais, infraestrutura, licenciamento ambiental e condições comerciais competitivas.

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