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Geopolítica

Quem vai lucrar com a reconstrução da Ucrânia?

Empresas brasileiras como WEG, Jacto e Embraer possuem tecnologias que poderiam participar dos projetos, mas contratos internacionais e riscos militares dificultam a entrada nesse mercado

Ucrânia
Guerra abriu demanda por energia, máquinas agrícolas, transporte e infraestrutura (Foto: Max Kukurudziak/Unsplash)

A reconstrução da Ucrânia deverá movimentar quase US$ 588 bilhões ao longo de dez anos, segundo levantamento divulgado em fevereiro de 2026 pelo Banco Mundial, pela União Europeia, pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pelo governo ucraniano.

O valor equivale a quase três vezes o Produto Interno Bruto (PIB) do país em 2025 e representa uma oportunidade comercial para fabricantes de equipamentos elétricos, empresas de engenharia, fornecedores agrícolas e prestadores de serviços.

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Parte desse mercado já está sendo movimentada, mesmo com a continuidade da guerra contra a Rússia.

O Brasil possui empresas com capacidade industrial para fornecer produtos necessários à recuperação ucraniana, especialmente transformadores elétricos, máquinas agrícolas e equipamentos de infraestrutura.

Entretanto, a participação brasileira ainda depende da conquista de contratos, de financiamento e de garantias contra riscos de guerra.

Em entrevista a O Brasilianista, Cássio Eduardo Zen, doutor em Direito Internacional e professor de Direito Internacional Público e Privado do Centro Universitário de Pinhais (Fapi), identifica oportunidades para fabricantes nacionais e explica por que alianças com empresas europeias podem facilitar a entrada dos brasileiros.

Bilhões em contratos

O quinto levantamento de danos e necessidades de reconstrução da Ucrânia, conhecido como RDNA5, identificou US$ 195,1 bilhões em danos físicos diretos acumulados até dezembro de 2025.

O estudo também calculou US$ 666,7 bilhões em perdas econômicas e sociais provocadas pela invasão russa iniciada em fevereiro de 2022.

Esses valores representam indicadores diferentes. Os danos diretos correspondem à destruição de estruturas e equipamentos; as perdas abrangem efeitos econômicos mais amplos; e os US$ 588 bilhões representam a estimativa de recursos necessários à recuperação ao longo da década seguinte. Portanto, os montantes não devem ser somados.

O setor de transportes concentra a maior necessidade estimada, superior a US$ 96 bilhões.

Em seguida aparecem energia, com quase US$ 91 bilhões, habitação, com aproximadamente US$ 90 bilhões, comércio e indústria, com mais de US$ 63 bilhões, e agricultura, com mais de US$ 55 bilhões.

O governo ucraniano calculou que precisaria de US$ 15,25 bilhões para iniciativas prioritárias apenas em 2026. Cerca de um terço desse montante estava assegurado no orçamento e por parceiros internacionais.

Empresas brasileiras

Entre as companhias nacionais com atividades compatíveis com as necessidades de reconstrução está a WEG, sediada em Jaraguá do Sul, em Santa Catarina.

A multinacional fabrica transformadores, motores elétricos, geradores e equipamentos para sistemas de transmissão e distribuição, produtos utilizados na recuperação de redes atingidas pelos ataques russos.

Zen identifica o setor elétrico como uma das possibilidades de inserção comercial brasileira.

“A infraestrutura da Ucrânia foi em boa parte destruída. O setor elétrico e de transmissão elétrica é um setor que tem a necessidade urgente de reconstrução”, explica o professor.

A demanda envolve desde a substituição de transformadores danificados até a instalação de equipamentos de geração descentralizada, destinados a manter o fornecimento mesmo quando grandes instalações são atingidas.

O especialista chama atenção para a experiência industrial brasileira na fabricação desses componentes.

“O Brasil tem uma das maiores empresas do mundo em transformadores de energia elétrica. Então pode ser um excelente passo para esse setor produtivo de transformadores e geradores elétricos”, acrescenta.

Máquinas agrícolas

A recuperação da agricultura representa outra possibilidade para empresas brasileiras.

A Ucrânia possui uma importante produção de trigo, milho e outros grãos, mas a guerra afetou propriedades rurais, máquinas, armazéns, redes de transporte e áreas agrícolas contaminadas por minas terrestres e explosivos.

Entre as companhias brasileiras com produtos compatíveis com essa demanda estão a Jacto, fabricante de pulverizadores, plantadeiras e equipamentos de agricultura de precisão, e a Stara, especializada em máquinas para plantio, pulverização e distribuição de insumos.

O Brasil também possui fabricantes de implementos agrícolas, sistemas de irrigação e tecnologias de monitoramento que poderiam fornecer equipamentos diretamente ou participar de projetos com empresas europeias.

“A Ucrânia é historicamente o grande celeiro da Europa. O Brasil tem muita experiência e um volume de tecnologia no agro considerável, seja de controle de semeadura, seja de engenharia agrônoma”, observa Zen.

A modernização da agricultura ucraniana envolve dificuldades que ultrapassam a compra de máquinas.

O país precisa recuperar instalações de armazenamento, restabelecer rotas de exportação e garantir condições de segurança para trabalhadores em áreas afetadas pelos confrontos.

O Banco Mundial informa que seu programa de apoio à agricultura, denominado ARISE, já ajudou mais de 87 mil produtores a manter atividades econômicas.

O financiamento internacional também está direcionado à recuperação de empresas rurais e ao acesso ao crédito.

Transporte e defesa

A reconstrução também envolve a circulação de pessoas e mercadorias. Estradas, pontes, ferrovias e sistemas de transporte urbano sofreram danos durante a guerra, criando demandas por veículos, equipamentos e serviços de engenharia.

A Marcopolo, fabricante brasileira de ônibus e soluções de mobilidade, possui produtos compatíveis com eventuais projetos de renovação de frotas municipais.

Entre as oportunidades divulgadas em plataformas internacionais de compras está o fornecimento de ônibus de piso baixo para Lviv, cidade situada no oeste ucraniano.

Zen também identifica oportunidades no setor aeroespacial, em que o Brasil possui capacidade industrial por meio da Embraer.

“Setores da Embraer, por exemplo, podem fornecer tecnologia para defesa, para monitoramento das fronteiras ucranianas”, sugere o professor.

Quem financia

Os recursos para a reconstrução ucraniana vêm de diferentes instituições, governos e investidores privados.

O Banco Mundial administra o Ukraine Relief, Recovery, Reconstruction and Reform Trust Fund, conhecido pela sigla URTF, mecanismo que reúne contribuições internacionais para financiar prioridades identificadas pelo governo da Ucrânia.

Até março de 2026, o fundo havia mobilizado US$ 2,8 bilhões em contribuições de doadores e ajudado a viabilizar outros US$ 7,3 bilhões em financiamento.

Os recursos apoiam iniciativas de recuperação da infraestrutura elétrica, habitação, saúde e agricultura, entre outras áreas.

O Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD) e o Banco Europeu de Investimento (BEI) também financiam projetos.

As oportunidades são distribuídas por meio de contratos, concorrências públicas e operações estruturadas com empresas ou governos locais.

Para Zen, uma empresa brasileira interessada nesse mercado pode buscar um parceiro europeu para compartilhar investimentos e reduzir dificuldades operacionais.

“Uma empresa brasileira faz uma parceria com uma empresa europeia e essa joint venture recebe um financiamento dessas instituições europeias, normalmente para investir na Ucrânia a juros muitas vezes baixos”, descreve.

A possibilidade depende das regras de cada programa. Nem todos os financiamentos oferecem taxas subsidiadas, e a formação de uma empresa conjunta não garante acesso automático aos recursos.

Contratos disponíveis

O mercado de reconstrução já possui concorrências internacionais para fornecimento de equipamentos, execução de obras e prestação de serviços.

Entre as oportunidades divulgadas em outubro estão projetos de geração de energia, recuperação de rodovias, eficiência energética e renovação do transporte público.

Na região de Ivano-Frankivsk, uma concorrência financiada pelo BERD prevê a instalação de unidades de geração elétrica a gás, distribuídas por quatro localidades, com capacidade conjunta aproximada de 60 megawatts. O prazo divulgado para apresentação de propostas é 30 de outubro.

Outro processo envolve a recuperação de aproximadamente 40 quilômetros da rodovia M-06, que liga Kyiv a Chop, no oeste ucraniano.

Também há projetos de instalação de energia solar em sistemas de abastecimento de água e de recuperação de instalações públicas.

As licitações financiadas pelo BERD são divulgadas em sua plataforma eletrônica de compras, que aceita o cadastro de fornecedores de diferentes países.

O sistema ucraniano Prozorro reúne oportunidades contratadas diretamente por órgãos públicos, enquanto projetos de bancos multilaterais podem seguir procedimentos próprios.

A participação brasileira dependerá da capacidade de apresentar propostas competitivas, comprovar experiência técnica e cumprir exigências de integridade, financiamento e execução contratual.

Apoio brasileiro

A entrada de empresas nacionais pode envolver também instituições de promoção comercial e financiamento.

A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e os Setores de Promoção Comercial do Ministério das Relações Exteriores atuam na identificação de mercados e na aproximação entre empresas brasileiras e compradores estrangeiros.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) possui instrumentos de apoio à exportação de bens e serviços brasileiros, sujeitos às condições de cada modalidade.

“A ideia é que produtos brasileiros feitos por empresas brasileiras sejam exportados para outros países. O produto brasileiro vai lá para fora, o dinheiro vem para o Brasil e isso traz empregos e lucro para empresários brasileiros”, argumenta Zen.

O professor também menciona a Confederação Nacional da Indústria (CNI) como possível articuladora de contatos entre fabricantes brasileiros e parceiros europeus.

A relação entre Brasil e Ucrânia possui ainda um componente histórico. O Paraná concentra uma comunidade de imigrantes ucranianos e descendentes que mantém instituições culturais e relações com o país europeu.

Esses vínculos podem auxiliar na aproximação comercial, embora não substituam as exigências técnicas e financeiras dos projetos.

Riscos da guerra

O potencial econômico acompanha riscos de segurança que não existem na mesma intensidade em mercados estáveis.

A guerra continua afetando usinas, estradas, ferrovias, instalações industriais e cadeias de abastecimento, dificultando o planejamento de contratos de longo prazo.

“Existem algumas regiões na Ucrânia que precisam de mais ajuda de reconstrução e, ao mesmo tempo, essas mesmas regiões possuem muitas vezes mais oportunidades e mais riscos de um aprofundamento do confronto”, alerta Cássio Eduardo Zen.

O professor menciona a possibilidade de destruição dos equipamentos enviados ao país e os riscos enfrentados por funcionários estrangeiros que precisem acompanhar a instalação ou a manutenção dos produtos.

“Existe esse risco físico de destruição efetiva ou até mesmo de morte de funcionários brasileiros que eventualmente viajem para a Ucrânia para participar de alguma operação de uma empresa brasileira”, adverte.

Os contratos também precisam considerar problemas de pagamento, oscilações cambiais, dificuldades logísticas e mudanças regulatórias.

A moeda ucraniana, a hryvnia, pode sofrer desvalorização, afetando operações negociadas em moeda local.

Outro fator é o cenário político. A Ucrânia permanece sob lei marcial em razão da invasão russa, situação que restringe a realização de eleições nacionais conforme as regras vigentes.

Mudanças futuras na administração e nas prioridades governamentais podem alterar o andamento de projetos.

“É importante se cercar, por exemplo, de um parceiro europeu com algum amparo de uma instituição da União Europeia”, recomenda o especialista.

Entre os instrumentos possíveis estão garantias de crédito, seguros contra riscos políticos e contratos estruturados com instituições financeiras multilaterais. 

Mercado em disputa

A dimensão dos recursos necessários à recuperação ucraniana também atrai fornecedores de países europeus, norte-americanos e asiáticos.

Empresas com presença comercial estabelecida na região podem ter vantagens logísticas em relação a fabricantes brasileiros que precisem transportar equipamentos por grandes distâncias.

O Banco Mundial estima que investimentos privados poderiam atender aproximadamente 40% das necessidades totais de recuperação, desde que existam condições para mobilização de capital.

O governo ucraniano mantém plataformas de compras públicas voltadas à reconstrução de habitações, rodovias e instalações sociais.

Em determinadas situações, projetos emergenciais e estruturas consideradas críticas recebem tratamento contratual específico.

Para fabricantes interessados em participar, as decisões comerciais envolvem ainda a escolha entre exportar diretamente do Brasil, estabelecer operações locais ou integrar consórcios que já atuam na Europa.

A WEG, por exemplo, possui unidades industriais e operações comerciais em diversos países, condição que poderia facilitar o atendimento internacional.

Empresas agrícolas brasileiras também podem utilizar redes de distribuição e assistência técnica no exterior para participar de negócios, caso sejam selecionadas.

No caso das máquinas agrícolas, a necessidade de adaptação às características da produção ucraniana e a disponibilidade de peças de reposição podem influenciar a escolha dos fornecedores.

Já equipamentos elétricos precisam atender aos padrões técnicos e aos requisitos de conexão exigidos pelos compradores.

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