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Entrevistas

O agronegócio nos próximos 4 anos

O que esperar de um dos pilares mais importantes da economia brasileira

Agronegócio
Especialista alerta sobre o que empresários devem ficar de olho (Foto: Magnific)

Em um setor estratégico para a economia brasileira, como o agronegócio, as decisões políticas e econômicas podem impactar diretamente a rentabilidade dos produtores, desde os custos de produção e o acesso ao crédito rural até as regras de tributação e os investimentos no campo.

A perspectiva de mais quatro anos de governo Lula coloca o agronegócio diante de uma série de desafios e incertezas, principalmente diante das discussões sobre arrecadação e da transição para o novo sistema tributário que podem afetar a atividade rural.

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Altair Heitor, especialista em gestão tributária para produtores rurais e empresas do agronegócio e diretor financeiro da consultoria Palin & Martins, conversou com O Brasilianista sobre o assunto. Confira a íntegra.

O que o agronegócio pode esperar de um novo mandato de Lula?

O produtor precisa acompanhar como as diretrizes do governo vão se transformar em medidas concretas para crédito, seguro rural, infraestrutura e tributação. A expectativa do setor deve ser por previsibilidade e condições para investir. Independentemente do posicionamento político, o planejamento da propriedade precisa considerar diferentes cenários, sem depender de promessas de apoio ou de renegociação de dívidas.

Quais são as principais preocupações e expectativas dos produtores rurais?

A principal preocupação é transformar produção em rentabilidade. Uma boa colheita pode conviver com margem apertada quando o custo dos insumos, os juros e o endividamento consomem o resultado. Também pesam os riscos climáticos, a oscilação dos preços e a adaptação à reforma tributária. O produtor espera crédito compatível com o ciclo da atividade, segurança jurídica e condições para investir em produtividade.

O que o produtor rural deve observar na política econômica do governo para antecipar possíveis mudanças nos custos e na rentabilidade?

É fundamental acompanhar juros, câmbio, política fiscal e regras do crédito rural. Também será necessário observar a regulamentação da reforma, especialmente o enquadramento do produtor, o aproveitamento de créditos e os prazos de ressarcimento. Mas acompanhar indicadores só faz diferença quando eles entram no planejamento da propriedade. O produtor deve simular como mudanças nos juros, no dólar e nos preços de venda afetam sua margem e sua capacidade de pagar compromissos.

O que pode acontecer com a competitividade do agronegócio brasileiro caso haja aumento dos custos tributários e de produção?

Quando os custos aumentam sem ganho equivalente de produtividade ou de preço de venda, a margem diminui. Isso é especialmente relevante nas commodities, cujos preços dependem do mercado internacional e sobre os quais o produtor tem pouca influência. O efeito pode aparecer na redução dos investimentos, na necessidade de mais capital de giro e no aumento do endividamento. Na tributação, é preciso olhar também para o crédito: um valor recuperável que demora a voltar ao caixa representa custo financeiro para a atividade.

Quais são as principais mudanças da reforma tributária que o produtor rural precisa conhecer antes de 2027?

O primeiro ponto é o calendário: 2026 é o ano de testes do IBS e da CBS. Em 2027, a CBS passa à cobrança plena, substituindo PIS e Cofins, enquanto a transição do sistema segue até 2033. O produtor precisa avaliar seu enquadramento, a possibilidade de opção pelo regime regular, os créditos sobre as compras e o tratamento tributário dos produtos e insumos com que trabalha. Há regras específicas para produtores não contribuintes e para o crédito presumido de seus compradores. É necessário simular compras, vendas, investimentos e perfil dos clientes. A preparação também envolve documentos fiscais, sistemas, cadastros e contratos.

Quais despesas podem sofrer maior pressão nos próximos anos: fertilizantes, combustíveis, energia, máquinas, mão de obra ou serviços?

O impacto depende da cultura, da região, da tecnologia utilizada e da participação de cada item no custo da propriedade. Fertilizantes e máquinas importadas têm exposição ao câmbio e ao mercado internacional. Combustíveis influenciam as operações e o frete. A energia merece atenção especial nas atividades irrigadas, enquanto mão de obra e serviços variam conforme a necessidade de qualificação e a oferta local. A prioridade deve ser identificar quais despesas mais afetam a margem de cada atividade.

O produtor deve rever sua estratégia de endividamento diante das incertezas tributárias e econômicas?

Sim. A dívida precisa ser compatível com a geração de caixa e com o ciclo da produção. O produtor deve revisar o custo efetivo total, as garantias, os vencimentos e a exposição ao câmbio, além de comparar as linhas de financiamento disponíveis. Alongar prazos pode ajudar, mas é necessário verificar o custo total da renegociação. Também é importante avaliar se receitas em moeda estrangeira realmente compensam eventuais dívidas nessa moeda. O objetivo é preservar capacidade de pagamento mesmo em uma safra ou em um cenário de preços menos favorável.

Qual é o principal conselho para o produtor rural que deseja proteger sua rentabilidade e seu patrimônio nos próximos quatro anos?

Tratar a propriedade como uma empresa, com planejamento financeiro, tributário e patrimonial integrado. O produtor precisa conhecer sua margem por atividade, projetar o caixa entre as safras e tomar decisões com base em números. Isso inclui revisar o enquadramento tributário, identificar créditos a que efetivamente tem direito, organizar a documentação e planejar a sucessão. A escolha entre pessoa física, pessoa jurídica ou holding exige análise individual; nenhuma estrutura garante, por si só, economia de impostos ou proteção absoluta do patrimônio. Produzir mais é importante, e transformar essa produção em lucro, preservando o patrimônio construído, é o que sustenta o negócio ao longo do tempo.

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