Caças furtivos F-35B do Reino Unido participaram de uma operação militar conjunta com aeronaves da Noruega e dos Estados Unidos sobre o Mar da Noruega, em uma demonstração da capacidade da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) de mobilizar forças aéreas avançadas no extremo Norte.
Durante o exercício Global Thunder, divulgado nesta segunda-feira (26), os aviões britânicos e noruegueses escoltaram um bombardeiro estratégico americano B-52.
A operação ocorreu nas proximidades do porta-aviões HMS Prince of Wales e integrou atividades de treinamento relacionadas à dissuasão militar e à coordenação entre os três países.
A movimentação faz parte de uma expansão da presença militar ocidental no Ártico, região que concentra rotas marítimas estratégicas, infraestrutura energética e recursos minerais.
A redução da cobertura de gelo amplia as possibilidades de navegação e exploração econômica, enquanto a Rússia fortalece suas instalações militares e a China procura aumentar sua participação em projetos regionais.
Para o Reino Unido, a capacidade de operar caças de quinta geração a partir de porta-aviões representa uma maneira de proteger as ligações entre a América do Norte e a Europa, sem depender exclusivamente de bases terrestres.
Corredor estratégico
O interesse militar pelo Ártico está relacionado à sua posição geográfica. Entre a Groenlândia, a Islândia e o Reino Unido existe uma passagem marítima conhecida pela sigla GIUK, utilizada por embarcações que transitam entre o Oceano Ártico e o Atlântico Norte.
A região é especialmente importante para o monitoramento de submarinos russos que operam a partir das bases da Frota do Norte.
Segundo relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso dos Estados Unidos, publicado em 14 de outubro, o Ártico abriga uma parcela significativa da capacidade de dissuasão nuclear marítima russa.
Para Marco Aurelio da Silva, mestre em Administração, consultor de empresas em Negócios Internacionais e docente dos cursos de Comércio Exterior e Relações Internacionais da FSG – Centro Universitário da Serra Gaúcha, a geografia explica o aumento das operações militares.
"Controlar e monitorar essas passagens é indispensável para conter a projeção naval russa e assegurar as linhas de comunicação marítima entre a América do Norte e a Europa", explica.
A importância estratégica aumentou com a entrada da Finlândia e da Suécia na OTAN. Atualmente, sete dos oito países com território no Ártico integram a aliança militar, ampliando sua presença territorial e capacidade de coordenação no extremo Norte.
Interesses econômicos
O derretimento do gelo marítimo também altera o valor econômico da região. Rotas antes limitadas pelas condições climáticas tornam-se acessíveis durante períodos maiores do ano, embora continuem sujeitas a riscos operacionais.
A Rússia possui extensas reservas de petróleo e gás em territórios árticos e investe em infraestrutura associada à chamada Rota Marítima do Norte.
A China, por sua vez, busca ampliar o acesso a minerais críticos, recursos energéticos e corredores comerciais que possam reduzir determinadas distâncias entre a Ásia e a Europa.
Em relatório divulgado em 22 de outubro, a Comissão de Defesa da Câmara dos Comuns britânica identificou a exploração de matérias-primas e a abertura de trajetos comerciais como fatores que intensificam a competição internacional.
Na avaliação de Silva, essa combinação modificou o planejamento militar dos países da OTAN.
"O planejamento militar aliado na região deixou de ser estritamente defensivo para se tornar uma estratégia proativa de dissuasão e negação de acesso, onde a presença ostensiva garante a proteção de infraestruturas críticas e a salvaguarda de interesses econômicos e soberanos emergentes", afirma.
Limites do caça
O F-35B possui capacidade de decolagem curta e pouso vertical, característica que permite sua utilização em porta-aviões como o HMS Prince of Wales.
A aeronave combina baixa detectabilidade por radares, sensores integrados e compartilhamento de informações com outras unidades militares.
Entretanto, essas capacidades exigem manutenção especializada em condições polares, nas quais temperaturas extremamente baixas, gelo e tempestades dificultam as operações.
"Operar uma plataforma de quinta geração como o F-35B no ambiente polar impõe severas restrições técnicas que testam o limite da engenharia militar", observa Silva.
O especialista menciona possíveis efeitos das temperaturas sobre revestimentos absorventes de radar, sistemas eletrônicos e equipamentos de comunicação.
Também destaca as dificuldades de abastecimento e reposição de peças durante operações marítimas prolongadas.
As limitações descritas são desafios técnicos gerais desse ambiente e não representam falhas comprovadas nos aviões empregados no exercício.
A Marinha britânica já havia testado essas capacidades em julho, quando caças F-35B decolaram do HMS Prince of Wales para interceptar um avião russo Tupolev Tu-142 que se aproximou do grupo naval no Mar da Noruega.
Segundo o comunicado oficial britânico, a aeronave russa lançou equipamentos de monitoramento acústico no mar durante o episódio.
Resposta russa
A ampliação das patrulhas militares faz parte da operação Arctic Sentry, lançada pela OTAN em fevereiro de 2026 para coordenar atividades de vigilância e defesa no extremo Norte.
A iniciativa reúne operações aéreas, marítimas e terrestres, buscando aumentar a capacidade de identificar movimentações militares na região e responder a possíveis ameaças.
Silva considera que os exercícios demonstram a integração tecnológica dos aliados, mas podem provocar interpretações diferentes entre as potências envolvidas.
"Do ponto de vista de Moscou, tais manobras também são lidas como uma infringência à sua esfera de influência histórica no Ártico, o que tende a intensificar o dilema de segurança e impulsionar a militarização recíproca na região", analisa.
A Rússia mantém sua Frota do Norte como componente relevante da estratégia nuclear e naval do país.
O fortalecimento das instalações russas é apontado pela OTAN como uma das razões para intensificar sua presença regional, embora Moscou também apresente a expansão militar ocidental como ameaça à própria segurança.
Defesa europeia
A mobilização britânica também integra uma mudança nas prioridades militares europeias.
Após décadas de participação em operações fora do continente, países da OTAN passaram a ampliar investimentos em defesa territorial, vigilância marítima e capacidade de resposta a adversários com tecnologia militar avançada.
O HMS Prince of Wales retornou ao Atlântico Norte em outubro para a segunda fase da Operação Firecrest.
A embarcação transporta caças F-35, helicópteros antissubmarino e drones, com mais de 1.200 militares britânicos envolvidos no grupo de combate.
Para Silva, o emprego conjunto de porta-aviões e aeronaves de quinta geração demonstra uma tentativa europeia de ampliar sua participação na segurança regional.
"A integração bem-sucedida de caças de quinta geração com grupos de combate de porta-aviões demonstra que potências europeias como o Reino Unido estão dispostas e capacitadas a assumir uma parcela maior do fardo da segurança regional, reduzindo a dependência exclusiva da estrutura americana", considera.
O especialista adverte que o aumento da presença militar também exige mecanismos de comunicação capazes de evitar incidentes entre forças de países rivais.
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