Um vídeo que imitava o Jornal da Band atribuiu a Flávio Bolsonaro (PL) 55% das intenções de voto contra 45% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Em outra publicação, o jornalista William Waack apareceu supostamente revelando um plano para anular as eleições presidenciais.
Nenhuma das informações era verdadeira. Os conteúdos utilizaram inteligência artificial para reproduzir a aparência e a voz de profissionais conhecidos, transformando informações fabricadas em materiais semelhantes a reportagens legítimas.
A estratégia integra um fenômeno que vai além da divulgação de mentiras isoladas.
Um levantamento da Lupa identificou 86 vídeos no TikTok que simulavam telejornais para divulgar pesquisas eleitorais inexistentes, acumulando 1,47 milhão de visualizações.
Desse total, 65 utilizavam inteligência artificial para manipular imagens ou vozes.
Para Flavio Pierobon, mestre em Ciência Jurídica, especialista em Direito Constitucional, advogado e docente da Universidade Positivo, a eficácia dessas publicações está relacionada à utilização de símbolos de autoridade, à repetição das mensagens e ao comportamento dos usuários nas redes sociais.
A combinação desses elementos ajuda a explicar como conteúdos falsos podem adquirir aparência de verdade e influenciar a percepção sobre acontecimentos políticos.
Credibilidade fabricada
Em setembro, um vídeo divulgado no TikTok utilizou a imagem da jornalista Adriana Araújo, apresentadora do Jornal da Band, para anunciar uma pesquisa eleitoral inexistente.
A gravação apresentava percentuais favoráveis a Flávio Bolsonaro e reproduzia elementos característicos de um telejornal, incluindo enquadramento de câmera, linguagem de apresentador e informações exibidas na tela.
A Agência Lupa verificou que a publicação havia sido produzida com inteligência artificial e que não existia levantamento eleitoral correspondente aos números apresentados.
O caso demonstra uma técnica de desinformação baseada na apropriação da credibilidade de pessoas e instituições reconhecidas pelo público.
Pierobon explica que a escolha do formato não ocorre por acaso.
"A desinformação ou a propagação de fake news, ela não é aleatória, ela usa uma estrutura de linguagem, um tipo de publicação que visa dar um respaldo, visa dar um certo argumento de autoridade", afirma.
Na semiótica, campo dedicado ao estudo dos signos e da construção de significados, elementos como o logotipo de uma emissora, a identidade visual de um noticiário e a presença de um apresentador conhecido podem funcionar como sinais de credibilidade.
Esses recursos não comprovam a autenticidade de uma informação, mas são capazes de influenciar a interpretação de quem a recebe.
Segundo o especialista, a estratégia também envolve a utilização de materiais verdadeiros para conferir legitimidade a afirmações sem fundamento.
"Então você cita um trecho de uma reportagem, você cita uma notícia de um jornal oficial e você vai demonstrando isso como reforço argumentativo", explica.
Verdade fora de contexto
Uma das estratégias utilizadas na produção de desinformação consiste em combinar imagens autênticas com declarações falsas.
Em outubro, publicações compartilhadas no Facebook e no Threads utilizaram um vídeo do jornalista William Waack, da CNN Brasil, para afirmar que o governo Lula preparava uma manobra para anular o resultado eleitoral caso Flávio Bolsonaro vencesse a disputa.
A Agência Lupa e o Aos Fatos verificaram que o áudio havia sido manipulado digitalmente.
Na gravação original, publicada pela CNN em setembro, Waack comentava uma sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal (STF), sem fazer qualquer referência a um suposto plano para impedir a vitória de determinado candidato.
A publicação enganosa também incorporava um trecho verdadeiro de um discurso de Lula sobre interferência estrangeira nas eleições.
O conteúdo, entretanto, alterava o significado das declarações ao apresentá-las como parte de uma estratégia de fraude eleitoral que não havia sido anunciada pelo presidente.
Esse tipo de manipulação depende menos da criação de uma realidade completamente fictícia e mais da reorganização de elementos existentes para sustentar uma interpretação falsa.
Uma imagem autêntica pode adquirir outro significado quando acompanhada de uma narração fabricada, de uma legenda enganosa ou de informações retiradas de seu contexto original.
Repetição organizada
A circulação de uma notícia falsa também pode ser estimulada pela publicação da mesma narrativa em diferentes perfis e plataformas.
No levantamento sobre falsas pesquisas eleitorais, a Lupa identificou uma conta que publicou 21 vídeos em apenas nove dias, entre 20 e 28 de junho.
As publicações acumularam aproximadamente 130 mil visualizações, 18,8 mil curtidas e 3,8 mil comentários.
Embora os vídeos utilizassem inteligência artificial para simular reportagens, somente três estavam identificados pela plataforma como conteúdos sintéticos.
Pierobon considera que a repetição exerce influência importante na percepção dos usuários.
"Isso usa um método muito claro de divulgação em massa por várias pessoas que defendem ou que são contratadas muitas vezes para propagar esse tipo de desinformação", afirma.
O advogado ressalta que o contato sucessivo com uma mesma narrativa pode produzir a impressão de que existe consenso sobre uma informação.
"Isso vai gerando em quem vê a notícia um certo grau de confiança. Afinal de contas, tem várias pessoas falando sobre isso", explica.
Viés de confirmação
Além da aparência de credibilidade e da repetição, a desinformação pode explorar convicções preexistentes do público.
O fenômeno é conhecido como viés de confirmação, expressão utilizada para descrever a tendência de aceitar com maior facilidade informações compatíveis com aquilo que uma pessoa já acredita.
Pierobon destaca que a identificação entre o público e o responsável pela publicação pode contribuir para essa dinâmica.
"Eu falo para um público que se me segue, um público que se me ouve é porque pensa muitas vezes como eu e, se pensa como eu, esta informação confirma a sua perspectiva da realidade", afirma.
O mecanismo ajuda a compreender por que determinadas notícias falsas são compartilhadas mesmo quando apresentam inconsistências.
Uma informação que reforça a visão política de um grupo pode ser recebida como confirmação de uma suspeita anterior, sem que seus integrantes procurem verificar a origem ou a autenticidade do conteúdo.
Segundo o especialista, a repetição de mensagens semelhantes intensifica esse processo.
"Isso confirma para a pessoa que vê o que ela já pensa sobre a realidade e portanto ela diz, bom, está vendo, é isso mesmo, esse outro lado não presta, ou essa informação é assim mesmo, eu já sabia", explica.
A influência desse mecanismo não significa que todos os usuários reajam da mesma maneira.
Escolaridade, confiança nas fontes, experiências pessoais e hábitos de consumo de informação também interferem na interpretação das mensagens.
Algoritmos e influência
Os sistemas de recomendação das redes sociais representam outro elemento importante na circulação de conteúdos enganosos.
As plataformas utilizam sinais como tempo de visualização, curtidas, compartilhamentos e histórico de interação para selecionar publicações apresentadas aos usuários.
Esse funcionamento pode aumentar a exposição a materiais semelhantes àqueles que já despertaram interesse anteriormente.
Para Pierobon, a dinâmica favorece a circulação de mensagens que confirmam determinadas percepções.
"O algoritmo ajuda a entregar para pessoas que tendem a acreditar na notícia que é falsa aquele tipo de postagem", afirma.
O especialista também chama atenção para a participação dos influenciadores digitais, cuja popularidade pode conferir autoridade a afirmações não verificadas.
"Você pega um grande influenciador, que tem muitos seguidores, ele faz uma postagem como essa, praticamente ninguém vai na fonte para entender o que está acontecendo, afinal de contas é um influenciador que disse, e se ele disse deve ser verdade", observa.
Esse mecanismo pode ocorrer em diferentes temas, incluindo política, economia, programas sociais e decisões governamentais.
Apoios inexistentes
As notícias falsas durante a eleição de 2026 também exploraram a fabricação de sinais de popularidade política.
Um levantamento da Agência Lupa, divulgado em outubro, comparou conteúdos verificados durante os primeiros turnos de 2018, 2022 e 2026.
Entre 80 afirmações analisadas em 2026, 17 envolviam falsos sinais de apoio, rejeição ou vantagem eleitoral, o equivalente a 21,3%.
Esse percentual era de 15,4% na amostra de 2018 e de 14,9% em 2022. Os conteúdos incluíam pesquisas inventadas e apoios políticos que não haviam ocorrido.
A comparação sugere uma mudança nas narrativas encontradas pela agência, embora os números não permitam estimar a proporção de desinformação em todas as publicações da internet.
Na comunicação política, a imagem de uma personalidade pública pode funcionar como um sinal de reconhecimento social.
Quando esse apoio é fabricado, o público recebe uma representação enganosa sobre a popularidade ou a aceitação de determinada candidatura.
Inteligência artificial
A evolução das ferramentas de geração de imagens, vídeos e áudios também reduziu as dificuldades técnicas para produzir conteúdos sintéticos.
Em janeiro, uma verificação da agência AFP identificou vídeos no TikTok que simulavam noticiários sobre a liderança de Flávio Bolsonaro em pesquisas eleitorais.
As gravações apresentavam narradores artificiais, inconsistências visuais e textos sem sentido. A análise não encontrou correspondência entre os supostos levantamentos e pesquisas eleitorais legítimas.
O uso de inteligência artificial não caracteriza automaticamente desinformação. A tecnologia pode ser empregada em produções educativas, artísticas e jornalísticas devidamente identificadas.
O problema ocorre quando imagens ou vozes sintéticas são apresentadas como registros autênticos para atribuir declarações inexistentes ou divulgar acontecimentos fabricados.
Durante as eleições de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabeleceu normas para identificar conteúdos produzidos com inteligência artificial e restringiu determinadas formas de manipulação na propaganda eleitoral.
As regras também exigiram identificação explícita de materiais sintéticos e estabeleceram limitações para sua divulgação no período próximo à votação.
Em setembro, a Corte fixou critérios jurídicos para caracterizar deepfakes, considerando o grau de realismo, a manipulação de imagens ou vozes e o contexto de propaganda eleitoral.
Responsabilidade digital
A disseminação de notícias falsas também levanta questões sobre a responsabilidade de quem produz, publica e compartilha conteúdos.
No ambiente eleitoral, a legislação brasileira permite a adoção de medidas contra a divulgação de informações falsas ou descontextualizadas que comprometam a integridade do processo de votação.
Entretanto, a responsabilização depende das características de cada conduta. A simples divulgação de uma opinião incorreta não equivale necessariamente à prática de um crime.
A Constituição protege a liberdade de expressão, inclusive críticas a autoridades e instituições públicas.
Essa garantia precisa ser diferenciada da fabricação de informações, da falsificação de declarações e de outras práticas que possam configurar ilícitos específicos.
Para Pierobon, o problema se agrava porque muitas pessoas passaram a utilizar as redes sociais como principal meio de conhecer acontecimentos políticos e sociais.
"Esse então é um cenário muito ruim que nós temos, porque ele é propenso para a propagação de fake news e vai gerando uma confirmação da perspectiva da realidade das pessoas que, na verdade, não explica a realidade, apenas confirma uma realidade que ela já enxerga mas que não é toda a realidade", avalia.
A identificação de conteúdos enganosos depende da consulta a fontes originais, da comparação entre publicações e da verificação das informações atribuídas a pessoas ou instituições.
No caso das pesquisas eleitorais, por exemplo, a existência de um instituto responsável, a metodologia e o registro do levantamento na Justiça Eleitoral são elementos que permitem diferenciar um estudo verdadeiro de uma peça fabricada.
Nos vídeos manipulados, a localização da gravação original pode revelar alterações de áudio, cortes e mudanças de contexto que não são perceptíveis apenas pela aparência da publicação.
Siga O Brasilianista!

