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Economia

Inteligência artificial pode deixar o Brasil sem energia?

No Brasil, projetos já pressionam a capacidade de transmissão, enquanto especialistas alertam para o risco de consumidores pagarem pela expansão da infraestrutura

Inteligência artificial
Consumo elétrico dos data centers deve mais que dobrar até 2030 no mundo (Foto: creative commons)

A expansão da inteligência artificial está colocando à prova a capacidade dos sistemas elétricos de acompanhar o crescimento das empresas de tecnologia.

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os data centers consumiram aproximadamente 415 terawatts-hora (TWh) de eletricidade em 2024, volume equivalente a 1,5% da demanda mundial.

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Até 2030, esse consumo poderá atingir 945 TWh, mais que o dobro do registrado seis anos antes.

O avanço ocorre porque o treinamento e a operação de modelos de IA exigem milhares de processadores funcionando continuamente.

No Brasil, o problema já aparece no planejamento da rede elétrica. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) identificou, em novembro de 2025, projetos de data centers que somavam 26,2 gigawatts (GW) de demanda potencial em processos de conexão no Ministério de Minas e Energia.

O risco envolve não apenas conseguir produzir eletricidade suficiente, mas transportá-la até os servidores sem transferir indevidamente os custos dessa expansão aos consumidores residenciais.

Demanda crescente

A IEA calcula que os data centers deverão representar pouco menos de 3% do consumo mundial de eletricidade em 2030.

Embora essa participação pareça pequena, a concentração das instalações em determinadas regiões pode criar dificuldades de abastecimento que não aparecem nos números globais.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a agência projeta que essas estruturas responderão por quase metade do crescimento da demanda elétrica até o fim da década.

Para Alysson Nunes Diógenes, doutor em Engenharia e professor do Programa de Pós-Graduação em Gestão Ambiental da Universidade Positivo, a velocidade da expansão tecnológica precisa ser acompanhada pela infraestrutura energética.

“A inteligência artificial está elevando a demanda por eletricidade, especialmente porque os data centers de IA concentram milhares de processadores operando continuamente”, explica.

O consumo não se limita ao funcionamento dos equipamentos que processam informações.

Os centros de dados também precisam alimentar sistemas de refrigeração, armazenamento, comunicação e proteção contra interrupções.

Quanto maior a concentração de servidores de alto desempenho, maior pode ser a demanda por potência elétrica em um mesmo local.

A IEA estima que o consumo dos servidores acelerados, utilizados principalmente em aplicações de inteligência artificial, cresça cerca de 30% ao ano no cenário central de suas projeções.

Esses equipamentos representam quase metade do aumento líquido esperado na demanda elétrica dos data centers até 2030.

Gargalo brasileiro

O Brasil possui uma matriz elétrica com elevada participação de fontes renováveis, característica que pode atrair empresas interessadas em reduzir as emissões associadas às operações digitais.

Entretanto, a disponibilidade de geração no território nacional não significa que qualquer região tenha capacidade para receber grandes centros de processamento.

“O desafio brasileiro não é apenas gerar mais energia, mas entregá-la no lugar certo, na hora certa e com confiabilidade”, destaca Diógenes.

O principal obstáculo apontado pelo especialista é a capacidade de conexão às redes de transmissão e distribuição.

Um empreendimento pode conseguir contratar eletricidade e ainda assim depender da construção de subestações, linhas ou reforços necessários para receber a potência prevista.

A EPE reconhece essa dificuldade. Em julho de 2026, o órgão apresentou estudos sobre grandes cargas elétricas em São Paulo, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte.

As análises consideram a chegada de data centers e empreendimentos de produção de hidrogênio, setores que exigem grandes volumes de eletricidade em localidades específicas.

Em estudo sobre a expansão da infraestrutura paulista, a estatal recomendou aproximadamente R$ 1,6 bilhão em investimentos de transmissão capazes de viabilizar cerca de 4 GW adicionais de margem para conexão de novos projetos. 

Conta de luz

O aumento da demanda dos data centers também levanta uma questão sobre quem deve financiar as obras necessárias para conectá-los ao sistema elétrico.

Grandes consumidores podem exigir instalações específicas, mas parte dos investimentos em transmissão e distribuição acaba incorporada às tarifas reguladas, conforme a natureza das obras e as regras do setor.

“O risco de repasse existe quando novos investimentos na rede são rateados entre todos os consumidores, mesmo que tenham sido necessários principalmente para atender a grandes data centers”, alerta Diógenes.

O professor defende que as empresas responsáveis pelo aumento da demanda contribuam proporcionalmente para a infraestrutura adicional.

Isso inclui os custos específicos de conexão, garantias financeiras e contratos capazes de reduzir o risco de obras planejadas para empreendimentos que eventualmente não sejam concretizados.

A preocupação aparece nos próprios dados da EPE. Em setembro de 2025, os projetos de data centers em processo de conexão somavam 19,8 GW de demanda potencial.

Dois meses depois, chegaram a 26,2 GW, crescimento de 6,4 GW. A estatal ressalta, porém, que a realização dos investimentos depende de viabilidade econômica, disponibilidade de infraestrutura e atendimento às condições regulatórias.

“Quem gera a necessidade de um investimento deve arcar com uma parcela proporcional de seus custos”, sustenta o engenheiro.

O poder público participa do planejamento das redes, da definição de regras e do licenciamento das instalações.

Já a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) regula aspectos tarifários que influenciam a distribuição dos custos de transmissão e distribuição entre os agentes do setor.

Risco de apagão

A chegada de milhares de servidores de alto desempenho não significa que o Brasil esteja prestes a enfrentar uma interrupção nacional de eletricidade.

O risco identificado pelo especialista está relacionado principalmente à concentração de novos consumidores em regiões onde a rede já possui limitações.

“O risco aumenta quando grandes cargas entram em operação rapidamente em regiões com pouca capacidade de transmissão ou distribuição, especialmente se os investimentos em reforços da rede atrasarem”, adverte Diógenes.

Nessas circunstâncias, operadores podem precisar limitar novas conexões até a conclusão das obras.

A situação também pode elevar os custos de atendimento, especialmente quando houver necessidade de equipamentos adicionais, novas subestações ou contratação de suprimento complementar.

A diferença entre os prazos de construção representa outra dificuldade. Um data center pode ser instalado em período relativamente curto, enquanto grandes obras de transmissão dependem de estudos técnicos, licenciamento ambiental, fabricação de equipamentos e execução de estruturas que levam anos.

“Hoje, o principal gargalo brasileiro é a capacidade de conexão à rede nos locais onde os investimentos estão sendo planejados, e não necessariamente uma falta generalizada de geração”, esclarece o professor.

A afirmação acompanha a avaliação da EPE, que vem coletando informações de empresas interessadasem instalar centros de dados no país para melhorar as previsões de demanda e orientar os estudos de expansão da transmissão.

Energia renovável

A elevada participação de fontes renováveis na geração brasileira oferece oportunidades para os data centers, mas não elimina a necessidade de fornecimento contínuo.

Usinas solares produzem energia conforme a disponibilidade de luz, enquanto a geração eólica depende das condições de vento.

“A geração renovável pode oferecer energia competitiva e de baixa emissão de carbono, mas sua produção varia conforme as condições climáticas”, observa Diógenes.

Para manter servidores funcionando ininterruptamente, as empresas precisam combinar contratação de energia, infraestrutura confiável e sistemas de proteção contra falhas.

Uma das alternativas envolve baterias capazes de armazenar eletricidade e fornecer energia durante determinados períodos.

“Baterias ajudam a equilibrar a oferta e a demanda por algumas horas, porém seu custo e sua autonomia limitam o uso como única solução para garantir energia contínua”, pondera o especialista.

Outra possibilidade é a geração dedicada, instalada ou contratada especificamente para atender ao empreendimento.

A solução pode diminuir determinadas limitações de suprimento, mas sua eficácia depende da capacidade disponível, das características da fonte e das condições de conexão.

A IEA projeta que as energias renováveis responderão por quase metade do aumento da geração destinada aos data centers no mundo até 2030.

O gás natural e o carvão também aparecem entre as fontes utilizadas para atender à expansão, conforme as características dos sistemas elétricos de cada país.

Expansão da rede

A disputa por capacidade elétrica já influencia o planejamento de investimentos brasileiros.

Além das obras recomendadas em São Paulo, a EPE estuda alternativas para ampliar a conexão de grandes consumidores no Nordeste e no Rio de Janeiro.

No Rio Grande do Sul, a estatal também acompanha um projeto de data center com demanda potencial de até 5 GW.

No caso do Rio de Janeiro, os estudos consideram alternativas de reforço para viabilizar aproximadamente 4 GW em novas cargas.

Esses valores representam necessidades potenciais de conexão analisadas no planejamento, não instalações comprovadamente em funcionamento.

Entre as tecnologias consideradas estão equipamentos capazes de controlar o fluxo de potência nas linhas, baterias e substituição de condutores para ampliar a capacidade de estruturas existentes.

A utilização de cada recurso depende dos resultados dos estudos elétricos e da relação entre custos e benefícios.

“Minha opinião é num futuro que combine geração renovável, armazenamento, contratos de energia firme e expansão antecipada da rede”, acrescenta Diógenes.

Para o especialista, a localização dos empreendimentos será determinante na escolha das soluções.

 Regiões com infraestrutura disponível poderão receber novas instalações em condições diferentes daquelas que exigem reforços extensos na transmissão.

O planejamento também precisará considerar a confiabilidade exigida pelos operadores.

Mesmo com energia contratada, um centro de dados pode permanecer impedido de iniciar suas atividades caso não tenha acesso a uma conexão capaz de fornecer a potência necessária de maneira contínua.

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