Publicidade
Justiça

Amigo de Flávio, advogado preso na Lava Jato é investigado por vazamentos do STJ

Willer Tomaz, mantém relações pessoais e financeiras sob investigação com o candidato à Presidência, aparece em apurações sobre informações sigilosas, apostas bilionárias e suspeitas de lavagem de dinheiro no caso INSS

Willer Tomaz de Souza
Willer também mantém relações com políticos de diferentes partidos e grupos do Congresso (Foto: reprodução)

A Polícia Federal (PF) cumpriu nesta segunda-feira (19) um mandado de busca e apreensão contra Humberto Fontoura Pradera, ex-secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação do Superior Tribunal de Justiça (STJ), suspeito de fornecer antecipadamente decisões judiciais e documentos sigilosos ao advogado Willer Tomaz de Souza, amigo do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL).

A operação investiga possíveis crimes de violação de sigilo funcional, corrupção, peculato eletrônico e lavagem de dinheiro.

Publicidade

O advogado já havia sido preso em 2017 na Operação Patmos, relacionada às investigações da Lava Jato e às delações de executivos da JBS.

Em 2026, voltou a aparecer em apurações sobre descontos indevidos em aposentadorias do INSS, movimentações bilionárias em plataformas de apostas e possíveis transferências financeiras envolvendo integrantes do Congresso.

A proximidade com Flávio Bolsonaro também passou a ser examinada após a descoberta de viagens em aeronaves particulares, utilização de imóveis e registros bancários que associam o parlamentar a empresas do advogado. 

Vazamentos no STJ

Pradera deixou o cargo na sexta-feira (16), após o presidente do STJ, ministro Luis Felipe Salomão, determinar a abertura de um procedimento administrativo para examinar suspeitas de acesso irregular aos sistemas do tribunal.

Segundo a Polícia Federal, o ex-secretário teria permitido que informações de processos em tramitação fossem encaminhadas ao escritório de Willer antes da publicação oficial das decisões.

Os investigadores identificaram referências a minutas de votos, decisões judiciais e pareceres do Ministério Público Federal (MPF).

O acesso antecipado poderia permitir que advogados conhecessem o provável resultado de recursos e modificassem estratégias jurídicas antes da divulgação aos demais interessados.

Entre os casos examinados está uma disputa envolvendo a J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista, e a Paper Excellence, pelo controle da Eldorado Celulose.

A apuração também alcança processos ligados ao senador Weverton Rocha (PDT-MA), próximo de Willer, e uma disputa imobiliária em Brasília que envolve reivindicações de R$ 176,4 milhões.

O STJ confirmou a exoneração de Pradera e a abertura do procedimento interno. A Corte informou que as medidas criminais estão sob sigilo.

Pareceres do MPF

A investigação também examina a atuação de Antônio Carlos Simões Martins Soares, ex-subprocurador-geral da República aposentado em março de 2026.

Mensagens analisadas pela Polícia Federal indicam que ele poderia ter compartilhado documentos internos do MPF com Willer Tomaz e participado de discussões sobre o conteúdo de manifestações processuais.

Soares ocupou um dos cargos mais elevados da carreira no Ministério Público Federal e chegou a ser cogitado para assumir a Procuradoria-Geral da República em 2019, durante o governo Jair Bolsonaro. 

O material sob análise inclui situações em que documentos teriam circulado antes de sua disponibilização oficial e argumentos apresentados pelo escritório do advogado apareceriam em manifestações posteriores.

A coincidência entre argumentos jurídicos, isoladamente, não demonstra interferência criminosa, já que advogados podem encaminhar memoriais e pedidos aos integrantes do Ministério Público.

Willer negou ter recebido informações por meios ilegais ou interferido no conteúdo de pareceres.

Sua defesa declarou que a atuação profissional ocorreu por procedimentos institucionais legítimos e classificou as suspeitas como interpretações equivocadas de atividades regulares da advocacia. 

Prisão em 2017

O histórico de Willer com investigações federais começou a ganhar repercussão nacional em maio de 2017, quando ele foi preso preventivamente durante a Operação Patmos.

A ação foi deflagrada a partir das delações de executivos da JBS e investigava suspeitas de corrupção, obstrução de Justiça e repasse de informações sobre apurações sigilosas.

Na época, Willer atuava como advogado ligado ao grupo J&F e foi acusado de participar de negociações para obter informações privilegiadas junto ao procurador da República Ângelo Goulart Villela, integrante da força-tarefa da Operação Greenfield.

Segundo a acusação apresentada pelo Ministério Público Federal, o esquema envolveria pagamentos a um integrante da investigação para fornecer informações sobre procedimentos em andamento.

A Polícia Federal acompanhou uma reunião realizada em 3 de maio de 2017, na residência do advogado, com participação de um executivo da JBS.

A gravação foi utilizada pela acusação para sustentar a existência de negociações envolvendo pagamentos indevidos.

Willer e Ângelo foram denunciados em junho daquele ano por corrupção e obstrução à investigação de organização criminosa.

A prisão ocorreu em 18 de maio. Em 1º de agosto de 2017, a Segunda Turma do STF determinou a soltura dos dois investigados.

O julgamento terminou empatado, com os ministros Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski favoráveis à liberdade, enquanto Edson Fachin e Celso de Mello votaram pela manutenção da prisão. Diante do empate, prevaleceu a decisão favorável aos presos.

O Supremo também decidiu que a ação deveria tramitar no Tribunal Regional Federal da 1ª Região. A soltura revogou a prisão preventiva, sem representar, por si só, absolvição definitiva das acusações. 

Fraudes no INSS

Em agosto de 2026, Willer voltou a ser alvo de buscas durante a Operação Sem Desconto, que investiga fraudes em descontos associativos de aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

A Polícia Federal passou a examinar sua atuação financeira e patrimonial em benefício de políticos, especialmente do senador Weverton Rocha (PDT-MA).

Segundo os investigadores, empresas ligadas ao advogado transferiram pelo menos R$ 11 milhões a Samya Bernardes Rocha, mulher de Weverton.

A PF também identificou a aquisição de uma casa avaliada em R$ 6 milhões, em Brasília, utilizada pelo parlamentar.

As transações despertaram suspeitas sobre a possibilidade de estruturas empresariais terem sido utilizadas para movimentar recursos de origem ilícita.

A investigação descreveu Willer como um centro de operações financeiras e logísticas associado ao senador.

Entre os elementos examinados estavam movimentações bancárias, negociações de imóveis, viagens e mensagens sobre pagamentos em dinheiro vivo.

A defesa de Willer negou qualquer envolvimento com os desvios do INSS. Segundo seus advogados, Samya mantém vínculo profissional antigo com o escritório e os repasses são decorrentes dessa relação.

Também sustentou que as buscas estavam relacionadas à utilização de uma aeronave por Weverton, e não à participação direta de Willer nas fraudes previdenciárias.

Bilhões nas bets

Outra frente investigativa envolve movimentações do advogado em plataformas de apostas.

Documentos apresentados por Willer em uma ação contra a Blaze revelaram que ele realizou apostas que somaram R$ 6,6 bilhões entre janeiro de 2025 e julho de 2026.

O volume corresponde à soma das apostas realizadas, não ao dinheiro efetivamente depositado.

Os registros identificaram 2.145 depósitos, que totalizaram aproximadamente R$ 325,3 milhões, e 2.733 saques, equivalentes a R$ 180,3 milhões.

A diferença entre entradas e retiradas levou a Polícia Federal a examinar a origem dos recursos, a frequência das movimentações e possíveis mecanismos de ocultação financeira.

Em outubro, investigadores passaram a analisar aproximadamente R$ 1,4 bilhão em transações relacionadas ao advogado e à plataforma.

Uma das hipóteses apuradas é a utilização de operações de apostas para movimentar recursos entre diferentes contas e empresas.

A PF também investiga a possibilidade de Willer atuar como sócio oculto da Blaze, apesar de seu nome não constar formalmente entre os controladores da plataforma.

O advogado nega as suspeitas. Sua defesa declarou que as movimentações ocorreram em contas próprias, com identificação dos valores e sem ocultação da origem ou do destino do dinheiro. Também rejeitou a hipótese de participação societária clandestina na empresa.

Willer apresentou uma ação judicial contra a Blaze, alegando perdas milionárias associadas a problemas de controle dos jogos e ao descumprimento de mecanismos de proteção aos apostadores. A plataforma contestou as alegações.

Em 17 de outubro, a Justiça de São Paulo rejeitou um pedido de restituição de aproximadamente R$ 133,2 milhões.

O magistrado considerou que o próprio advogado havia solicitado limites elevados e acesso a mesas exclusivas, com apostas de até R$ 500 mil por rodada.

A decisão determinou apenas que a empresa interrompesse o envio de ofertas comerciais ao autor. 

Amizade com Flávio

A proximidade entre Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro aparece em registros de viagens, encontros pessoais e utilização de imóveis.

Em março de 2025, os dois participaram de um safári na África do Sul, acompanhados pelo senador Weverton Rocha e pelo empresário Carlos Alberto de Sá.

As relações também envolveram deslocamentos internacionais em aeronaves particulares.

Em janeiro de 2025, Flávio viajou com Willer e familiares de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, para Brasília, em um jato Embraer Legacy 650.

A aeronave pertencia à Fraction 024, empresa da qual a Alcazar Holdings, ligada ao advogado, detinha participação de 33,33%.

Outra participação na empresa proprietária do avião pertencia à Prime You, companhia da qual Daniel Vorcaro foi sócio entre setembro de 2021 e setembro de 2025.

A ligação empresarial despertou questionamentos porque o ex-banqueiro também financiou o filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro, por meio de uma operação investigada pela Polícia Federal.

Flávio declarou ter viajado como convidado do amigo. Willer, por sua vez, afirmou que não conhecia Vorcaro, nunca havia se encontrado com ele e desconhecia sua participação indireta na estrutura societária da aeronave.

A aproximação também chegou à campanha presidencial. Reportagem da revista piauí identificou que o senador utilizou um imóvel ligado ao advogado em São Paulo durante atividades políticas.

Willer negou irregularidades no uso da propriedade e classificou as suspeitas sobre suas relações pessoais como tentativas de interferência eleitoral. 

Conta compartilhada

A Polícia Federal identificou e-mails que associam o nome de Flávio Bolsonaro a uma conta bancária da Alcazar Holdings, empresa de Willer sediada na Ilha da Madeira, em Portugal.

Os registros mencionam o senador como usuário com acesso administrativo ao relacionamento bancário mantido pela companhia no Santander.

Em 22 de maio de 2025, uma funcionária do advogado solicitou à instituição financeira a retirada do nome de Flávio do cadastro da conta.

Os investigadores procuram esclarecer por que o parlamentar foi incluído, quais permissões estavam disponíveis e se houve movimentação de recursos sob sua responsabilidade.

O vínculo bancário passou a integrar uma nova frente de apuração envolvendo suspeitas de lavagem de dinheiro. A

 PF encaminhou ao Supremo Tribunal Federal informações sobre as relações financeiras entre o senador e o advogado.

Flávio e Willer negaram a existência de uma conta compartilhada. Suas assessorias classificaram a interpretação dos e-mails como falsa e sustentaram que não houve movimentação financeira conjunta.

A defesa do advogado também anunciou medidas para contestar a divulgação dos registros.

Disputa com Richarlison

A relação entre o advogado e o candidato à Presidência também aparece em uma controvérsia imobiliária envolvendo o atacante Richarlison, jogador do Tottenham e da seleção brasileira.

O atleta afirma ter investido aproximadamente R$ 10 milhões em uma mansão localizada na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, no litoral do Rio de Janeiro.

Segundo o jogador, o investimento ocorreu durante negociações realizadas entre 2020 e 2021, com participação de seu então empresário Renato Velasco e de Alencar da Silveira Júnior.

Richarlison afirma que posteriormente perdeu a posse do imóvel em uma disputa judicial que beneficiou uma empresa ligada a Willer.

A propriedade passou a ser controlada pela WT Administração de Imóveis, pertencente ao advogado.

Flávio também foi associado ao caso depois de visitar o imóvel e aparecer como testemunha em documentos relacionados à negociação.

Na segunda-feira (19), o coletivo Derrubando Muros apresentou ao Ministério Público Federal um pedido de investigação sobre a atuação de Flávio no episódio.

A representação levanta suspeitas de advocacia administrativa em razão de contatos com a Secretaria do Patrimônio da União (SPU), mas não representa uma conclusão de que o crime tenha ocorrido.

Willer contestou publicamente as declarações do jogador e afirmou que a empresa vinculada a Richarlison perdeu a disputa judicial.

Também desafiou o atacante a apresentar documentos que comprovassem seu direito à propriedade, prometendo transferir o imóvel gratuitamente caso as provas fossem apresentadas.

O advogado sustenta que não houve crime na aquisição do bem e afirmou que o jogador responde judicialmente por declarações relacionadas ao caso.

Flávio negou qualquer participação irregular na disputa e declarou que sua relação com Willer é de amizade. 

Relações políticas

Willer também mantém relações com políticos de diferentes partidos e grupos do Congresso.

Além de Flávio Bolsonaro e Weverton Rocha, o advogado participou de articulações políticas durante os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro, inclusive em discussões relacionadas a indicações para cargos no Judiciário.

Seu nome chegou a ser cogitado para uma vaga no Conselho Nacional de Justiça, enquanto Antônio Carlos Simões Martins Soares, associado à investigação sobre documentos do MPF, foi mencionado como possível procurador-geral da República em 2019.

As relações políticas passaram a receber atenção das autoridades diante das suspeitas de movimentações financeiras realizadas por empresas do advogado.

Os investigadores procuram identificar a natureza dos pagamentos, a finalidade das operações e a existência de eventuais contrapartidas.

Defesa de Willer

Willer Tomaz rejeitou as suspeitas envolvendo o recebimento antecipado de documentos do STJ e do Ministério Público Federal.

Em manifestação, negou categoricamente ter obtido acesso irregular ou não autorizado a decisões judiciais e pareceres sigilosos, assim como qualquer interferência na elaboração de manifestações de procuradores.

O advogado sustentou que sua atuação ocorreu pelos meios institucionais e processuais previstos na legislação.

Ao comentar as acusações, declarou que as informações divulgadas distorcem o exercício regular da profissão e representam uma tentativa de criminalizar a advocacia.

Sobre a Operação Patmos, Willer afirmou em carta enviada à Folha de S.Paulo, em junho de 2017, que Joesley Batista e executivos da J&F haviam preparado uma armadilha para produzir provas contra ele e o procurador Ângelo Goulart Villela.

Negou o pagamento de R$ 50 mil ao integrante do Ministério Público e atribuiu as acusações a interesses relacionados à negociação de acordos de colaboração premiada.

Em relação à Operação Sem Desconto, sua defesa afastou qualquer participação no esquema de fraudes previdenciárias e atribuiu os pagamentos a Samya Rocha a serviços profissionais prestados ao escritório.

Também contestou a hipótese de utilização irregular de aeronaves e imóveis vinculados ao senador Weverton Rocha.

Nas suspeitas envolvendo plataformas de apostas, os advogados declararam que as operações financeiras eram rastreáveis e não tinham finalidade de lavagem de dinheiro.

Willer também negou ser sócio oculto da Blaze e contestou os valores atribuídos pela investigação a determinadas transações.

Sobre Flávio Bolsonaro, afirmou que mantém uma relação de amizade com o parlamentar, sem compartilhamento de contas bancárias ou negócios ilícitos.

O senador apresentou a mesma posição ao comentar os documentos financeiros e as viagens realizadas em aeronaves ligadas ao advogado.

Humberto Pradera, por sua vez, negou possuir acesso administrativo irrestrito a processos judiciais em tramitação no STJ.

O ex-secretário sustentou que suas permissões nos sistemas eram limitadas. O tribunal confirmou sua exoneração e a instauração de procedimento administrativo para apurar os fatos.

Veja mais notícias de O Brasilianista