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Geopolítica

Se Flávio vencer, quem ganha na América Latina?

Gás argentino, portos chilenos, Itaipu e empresas mexicanas estão entre os ativos que podem ser reposicionados se Flávio chegar ao Planalto

Flávio Bolsonaro
A eventual chegada de Flávio ao Planalto pode redesenhar projetos de energia, infraestrutura e expansão empresarial na América Latina Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

A primeira reação à vantagem de Flávio Bolsonaro no primeiro turno apareceu antes mesmo de qualquer mudança de governo.

Nesta segunda-feira, o Ibovespa chegou a subir mais de 8% e o real avançou mais de 4% diante da expectativa de parte do mercado de que uma eventual administração do candidato do PL adotaria ajuste fiscal, privatizações e uma agenda econômica mais liberal.

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A reação, no entanto, ocorreu três semanas antes do segundo turno e não garante que esse cenário se materializará.

Fora da disputa entre Estados Unidos e China, há outra pergunta menos explorada, o que uma mudança dessa dimensão na maior economia da América Latina significaria para as empresas e governos da própria região?

O Brasilianista cruzou acordos comerciais, documentos de integração regional, investimentos empresariais anunciados e projetos de infraestrutura para identificar os países mais expostos a uma eventual mudança de orientação econômica brasileira.

O resultado aponta para cinco relações especialmente sensíveis: Argentina, Chile, México, Paraguai e Uruguai.

O ponto de partida não é apenas ideológico. Flávio Bolsonaro já defendeu publicamente uma reformulação profunda da política comercial brasileira e chegou a dizer que o país deveria se libertar das “amarras do Mercosul”, além de propor uma nova área de livre comércio nas Américas.

Uma mudança desse tipo atingiria diretamente cadeias produtivas que há décadas foram construídas considerando a existência do bloco.

A eventual vitória, portanto, não colocaria apenas Brasília diante de uma escolha. Empresas latino-americanas com bilhões investidos no Brasil teriam de decidir se aceleram, congelam ou redirecionam capital.

Argentina chega à eleição brasileira

Nenhum vizinho combina tantas variáveis quanto a Argentina. O presidente Javier Milei foi o líder latino-americano que mais abertamente comemorou o desempenho de Flávio no primeiro turno.

Depois da apuração, declarou que “a liberdade avança no Brasil” e afirmou esperar trabalhar com o brasileiro para aprofundar as relações comerciais e políticas.

Brasil e Argentina mantêm uma das cadeias industriais mais integradas da América Latina, especialmente no setor automotivo.

O acordo bilateral permite comércio com tarifa zero para veículos e autopeças que cumpram as regras estabelecidas e prevê avanço gradual até o livre comércio automotivo em 1º de julho de 2029.

Uma administração Flávio mais favorável à abertura comercial poderia acelerar discussões sobre essa integração, mas também colocaria Buenos Aires diante de uma escolha, ajudar Brasília a flexibilizar o Mercosul ou preservar a estrutura comum que protege parte da própria indústria argentina.

Existe ainda uma segunda frente

Brasil e Argentina concluíram em abril de 2026 um relatório técnico bilateral para viabilizar a entrada de gás argentino no mercado brasileiro.

A expansão de Vaca Muerta cria a possibilidade de substituir parte do gás natural liquefeito comprado de mercados distantes e abastecer especialmente o Sul do Brasil.

A Empresa de Pesquisa Energética afirma que essa integração poderia reduzir custos logísticos e aumentar a segurança energética brasileira.

Para Buenos Aires, portanto, uma estratégia pragmática seria tentar transformar a afinidade política com um eventual governo Flávio em contratos de longo prazo de gás, infraestrutura de transporte e integração automotiva, em vez de limitar a aproximação a declarações ideológicas.

As empresas argentinas 

O Mercado Livre, fundado na Argentina e hoje uma companhia regional, anunciou R$ 57 bilhões de investimentos no Brasil somente em 2026, 50% acima do ano anterior.

A empresa planejou 14 novos centros de distribuição e cerca de 10 mil novas contratações. O Brasil já é seu maior mercado.

Outro exemplo é a Ternium, ligada ao grupo Techint, de origem argentina. A empresa informa ter acumulado aproximadamente R$ 11 bilhões em investimentos no Brasil, com produção voltada justamente a segmentos como automóveis, energia, agronegócio e construção.

São empresas que não precisam esperar a posse para descobrir se o Brasil importa. O país já está dentro do balanço delas.

Chile

O Chile ocupa uma posição diferente. José Antonio Kast assumiu a Presidência chilena em 2026 e participou da última Cúpula do Mercosul ao lado de governos que vêm defendendo abertura comercial e integração física.

O Brasil já é o terceiro maior fornecedor do mercado chileno, e o Chile é o segundo principal parceiro comercial brasileiro na América do Sul, atrás da Argentina.

O comércio bilateral funciona atualmente com tarifa zero para praticamente todo o universo de produtos por meio de acordos existentes.

Mas a maior oportunidade não está necessariamente nas tarifas. Está na estrada.

O Corredor Bioceânico de Capricórnio pretende conectar Brasil, Paraguai, Argentina e Chile por rodovia, criando uma saída terrestre do Centro-Oeste brasileiro para portos chilenos no Pacífico.

Autoridades dos quatro países mantiveram reuniões em 2026 para concluir obras, alfândegas e mecanismos de facilitação do comércio.

Kast já apresentou o corredor como uma das prioridades comerciais de seu governo e destacou que a ligação poderá aumentar o fluxo de mercadorias entre Brasil e os portos chilenos.

Um governo brasileiro orientado a abertura comercial e redução de custos para empresas tornaria essa infraestrutura ainda mais relevante.

Empresas chilenas

A Cencosud, por exemplo, controla no Brasil redes como GBarbosa, Prezunic, Bretas, Mercantil Atacado e outras operações.

Em junho, a companhia ampliou sua presença no país com a aquisição da rede premium St. Marche.

O grupo anunciou um plano global de aproximadamente US$ 600 milhões em investimentos para 2026, com 70% do capital direcionado à expansão.

O Brasil gera cerca de US$ 1,4 bilhão em receita anualizada para a operação brasileira da Cencosud, segundo apresentação da própria companhia.

Se a expectativa atual do mercado de juros menores, crédito mais barato e expansão do consumo se confirmar sob uma eventual administração Flávio, varejistas regionais como a Cencosud estarão entre as companhias que terão de decidir rapidamente quanto capital adicional colocar no país.

México tem empresas demais no Brasil

O caso mexicano é talvez o mais interessante porque México e Brasil podem terminar governados por campos políticos muito diferentes.

Claudia Sheinbaum mantém proximidade política com Lula. Em agosto, os dois governos afirmaram oficialmente existir uma “convergência de visões” e estabeleceram uma agenda para aprofundar a relação entre as duas maiores economias latino-americanas.

Só que empresas mexicanas estão profundamente inseridas na economia brasileira.

Em fevereiro deste ano, a FEMSA assumiu 100% da operação da OXXO no Brasil, encerrando a sociedade que mantinha com a Raízen.

A mexicana ficou com as lojas e com o centro de distribuição de Cajamar, em São Paulo.

Para 2026, a divisão da FEMSA que reúne OXXO no Brasil, Colômbia, Chile, Peru e outros mercados planejou aproximadamente US$ 888 milhões em investimentos de capital, incluindo abertura e reforma de lojas, logística e tecnologia.

A mexicana Bimbo seguiu caminho semelhante no setor alimentício. Em 2025, recebeu autorização do Cade para adquirir grande parte das operações da brasileira Wickbold, embora mediante desinvestimentos e compromissos concorrenciais.

A reação mais racional do México seria tentar blindar a relação econômica das diferenças ideológicas.

Esse mecanismo já está sendo construído. Brasil e México começaram a atualizar o ACE 53, o ACE 55, fundamental para o setor automotivo — e o acordo bilateral de investimentos.

A agenda inclui energia, segurança alimentar, indústria aeroespacial, saúde, ciência e tecnologia.

Para empresas mexicanas, a questão seria menos “Lula ou Flávio” e mais se a nova administração preservará regras previsíveis para varejo, alimentos, fintech, indústria automotiva e investimentos estrangeiros.

Paraguai tem uma negociação bilionária

No Paraguai, uma eventual vitória de Flávio chegaria em um momento particularmente delicado.

Brasil e Paraguai ainda estão negociando a revisão do Anexo C do Tratado de Itaipu, documento que define as bases financeiras e de comercialização de energia da maior usina binacional do mundo.

Em março, os chanceleres dos dois países afirmaram ter registrado “avanços substantivos”, mas o acordo definitivo ainda era negociado.

Somente entre janeiro e maio de 2026, Itaipu transferiu US$ 205 milhões ao Estado paraguaio em royalties, cessão de energia e pagamentos à estatal ANDE.

O entendimento vigente prevê ainda uma mudança estrutural a partir de 2027: o Paraguai poderá vender ao mercado brasileiro a parcela da energia de Itaipu que não consumir, dentro das regras a serem estabelecidas.

Ou seja, o próximo presidente brasileiro poderá assumir justamente quando o mercado de energia de Itaipu estiver entrando em uma nova configuração.

Para Assunção, conseguir fechar regras estáveis antes ou logo no início do próximo governo é muito mais relevante do que qualquer alinhamento partidário.

O Paraguai possui ainda outro ativo, está no caminho do Corredor Bioceânico. Energia barata, logística entre Atlântico e Pacífico e um ambiente de produção com custos menores podem transformar o país em plataforma industrial para empresas interessadas no mercado brasileiro.

Uruguai pode virar o fiador

O Uruguai talvez seja o país que tenha menos afinidade ideológica com um possível governo Flávio e, ao mesmo tempo, uma das funções institucionais mais importantes.

Yamandú Orsi assumiu em junho a presidência pro tempore do Mercosul e estabeleceu como prioridade construir um bloco “mais moderno, mais dinâmico e mais aberto ao mundo”.

Isso aproxima parcialmente Montevidéu de uma pauta defendida por Flávio, maior liberdade comercial.

Mas há uma diferença crucial. Uruguai vem defendendo abertura preservando o Mercosul como instrumento de negociação, enquanto Flávio já sugeriu que as regras do bloco podem funcionar como “amarras” ao Brasil.

Se o candidato do PL vencer, Montevidéu poderá acabar exercendo uma função de intermediário entre Argentina e Brasil, mais inclinados à flexibilização, e países preocupados com o enfraquecimento da união aduaneira.

Orsi já começou

Em maio, viajou a São Paulo e reuniu-se com investidores brasileiros dos setores de mineração, logística, finanças, alimentos e turismo para atrair novos projetos ao Uruguai.

Essa política pode ganhar força durante uma transição brasileira. Em períodos de mudança regulatória, países pequenos e estáveis frequentemente tentam se posicionar como bases regionais para sedes corporativas, serviços financeiros, logística e operações de exportação.

O Uruguai possui ainda uma vantagem já institucionalizada, o Protocolo de Cooperação e Facilitação de Investimentos do Mercosul está em vigor entre Brasil, Uruguai e Argentina e foi criado justamente para reduzir riscos e facilitar investimentos entre os países.

As empresas latino-americanas já estão apostando bilhões no Brasil antes de saber quem será presidente

Mercado Livre anunciou R$ 57 bilhões no Brasil em 2026. A Ternium informa ter acumulado R$ 11 bilhões em investimentos no país.

A Cencosud comprou uma nova rede brasileira neste ano. FEMSA passou a controlar integralmente a OXXO Brasil. Bimbo ampliou sua presença por meio da Wickbold.

A América Latina e o Caribe receberam US$ 194,2 bilhões em investimento estrangeiro direto em 2025, crescimento de apenas 1,7%.

A Cepal alertou que os países precisam deixar de tratar a atração de capital apenas como uma disputa por quantidade e direcioná-la para setores capazes de aumentar produtividade, tecnologia e integração produtiva.

O Brasilianista traz mais conteúdos nas redes sociais