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Justiça

De Willer para Ciro Nogueira

Senador usou ao menos R$ 136,5 mil de verba do Senado para complementar aluguel de imóvel pertencente a empresa de Willer Tomaz

Ciro Nogueira e Willer Tomaz
Cálculo indica que gasto público total com a residência pode ter chegado a R$ 350 mil Foto: reprodução/Marcelo Camargo/Agência Brasil

O senador Ciro Nogueira (PP-PI) utilizou pelo menos R$ 136,5 mil de recursos do Senado para pagar a WT Administração de Imóveis e Bens, empresa do advogado Willer Tomaz.

O dinheiro bancou, durante 39 meses, um complemento de R$ 3,5 mil ao auxílio-moradia recebido pelo parlamentar.

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A relação vai além de um contrato pontual. Ciro se mudou em abril de 2021 para uma casa de 632 metros quadrados em Brasília, pouco depois de o imóvel ter sido adquirido pela empresa de Tomaz por R$ 4,5 milhões.

Segundo reportagem do UOL, o aluguel da residência era de R$ 15 mil.

Desde março de 2023, o Senado passou a pagar a Ciro um complemento de R$ 3,5 mil mensais, custeado pela cota parlamentar.

O parlamentar já recebia outros R$ 5,5 mil de auxílio-moradia. Segundo o Senado, os dois benefícios só podem ser destinados ao aluguel de um único imóvel.

Com isso, o UOL calcula que até R$ 9 mil mensais de recursos públicos podem ter sido direcionados à residência pertencente à WT, alcançando aproximadamente R$ 350 mil no período.

Os comprovantes do auxílio-moradia de R$ 5,5 mil, no entanto, são mantidos sob sigilo.

Imóvel próprio

O uso dos benefícios ocorre apesar de Ciro declarar à Justiça Eleitoral possuir um apartamento em Brasília desde pelo menos 2018.

Nas eleições deste ano, o senador informou patrimônio total de R$ 34,6 milhões.

Antes de se mudar para a casa de Willer, Ciro utilizou um imóvel funcional do Senado entre junho de 2019 e abril de 2021.

Enquanto permanecia na residência oficial, não tinha direito a receber auxílio-moradia.

Quando retornou ao Senado após deixar a Casa Civil do governo Jair Bolsonaro, em dezembro de 2022, voltou a receber o benefício.

Poucos meses depois, passou a utilizar também o complemento de R$ 3,5 mil, criado pela Casa no início de 2023.

Apenas oito dos 81 senadores receberam parte desse complemento em 2026. No caso de Ciro, todas as 39 parcelas identificadas tiveram como destinatária a empresa de Willer.

Pagamentos interrompidos

A última parcela do complemento foi paga em maio de 2026. No mesmo mês, Ciro foi alvo de busca e apreensão na Operação Compliance Zero, investigação da Polícia Federal sobre suspeitas relacionadas ao Banco Master. Os pagamentos de auxílio e complemento deixaram de ocorrer em junho.

Willer afirmou que a empresa mantém contratos regulares com os locatários. Segundo ele, “os aluguéis são pagos diretamente por eles” e cabe aos inquilinos informar a origem dos recursos utilizados no pagamento. A defesa acrescentou que os contratos foram firmados a valores de mercado.

Rede imobiliária

A WT Administração possui uma carteira relevante de imóveis em Brasília. Registros oficiais apontam 22 propriedades da empresa no Distrito Federal.

Além da residência utilizada por Ciro, a companhia comprou por R$ 6 milhões um imóvel apontado como residência do senador Weverton Rocha (PDT-MA), que aparece nas investigações da Operação Sem Desconto.

A mesma WT também é proprietária de um apartamento utilizado por Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante a campanha presidencial.

Como O Brasilianista já mostrou, a empresa de Willer adquiriu o imóvel em fevereiro por R$ 3,5 milhões.

O apartamento pertencia anteriormente a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e personagem das investigações do Caso Master. Zettel havia comprado a unidade por R$ 5,5 milhões menos de um ano antes.

Ciro e Willer

A relação entre Ciro e Willer também tem um capítulo anterior no Senado.

Em 2021, durante a CPI da Pandemia, parlamentares discutiram a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Tomaz em meio à investigação sobre negociações de vacinas contra a Covid-19.

Ciro atuou para retirar o nome de Willer do requerimento, e a quebra de sigilo do advogado acabou não sendo aprovada.

Tomaz havia sido preso pela Polícia Federal em 2017 durante a Operação Patmos, sob suspeita de atuar na intermediação de informações relacionadas a investigações envolvendo a JBS.

Ele foi libertado menos de três meses depois, e a denúncia apresentada contra ele acabou rejeitada pela Justiça.

Caso Master

O Brasilianista destacou em maio que um relatório da PF utilizado para fundamentar buscas contra o senador apontou suspeitas de pagamentos atribuídos a Daniel Vorcaro.

Segundo os investigadores, valores mensais teriam começado em R$ 300 mil em 2021 e chegado a R$ 500 mil em 2023. Ciro nega ter recebido propina ou praticado irregularidades.

O senador também foi associado pela investigação a viagens e outras despesas custeadas por Vorcaro.

Em junho, O Brasilianista detalhou uma viagem a Courchevel, nos Alpes franceses, cujo custo foi estimado em aproximadamente R$ 2 milhões e que, segundo a PF, teria sido bancada pelo banqueiro. Ciro contesta as conclusões da investigação.

Depois das buscas, o senador trocou sua defesa no Caso Master. O criminalista Conrado Gontijo passou a representá-lo após a saída do escritório de Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay.

Willer e Vorcaro

Willer também aparece em conexões patrimoniais com personagens do Master. O advogado possuía uma participação em um avião que também teve uma cota vinculada à Prime You, empresa da qual Vorcaro foi sócio.

Flávio Bolsonaro viajou dos Estados Unidos a Brasília nessa aeronave em janeiro de 2025, acompanhado da família e do próprio Willer.

A WT comprou ainda o apartamento de Zettel posteriormente utilizado por Flávio na campanha.

Tomaz sustenta que não conhecia Vorcaro nem Zettel e afirma que suas operações patrimoniais são regulares.

Em agosto, Willer foi alvo de busca na Operação Sem Desconto. A PF o descreveu em documentos da investigação como um possível “hub financeiro” ligado ao senador Weverton Rocha.

Willer nega ter participado das fraudes do INSS e afirma que não integra o esquema investigado.

Confira, na íntegra, a nota enviada pela defesa de Willer Tomaz

A relação com os inquilinos é regida por contratos regulares, firmados a valores de mercado e protegidos por confidencialidade, nos termos da legislação de proteção de dados. Os aluguéis são pagos diretamente por eles, e não cabe à locadora comentar sobre suas fontes de renda.

O Brasilianista procurou a defesa de Ciro Nogueira, mas não recebeu resposta até a publicação. O espaço permanece aberto para manifestações, e o texto será atualizado caso sejam enviados posicionamentos.

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