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Entrevistas

O que empresas devem considerar ao planejar investimentos para 2027?

É preciso começar agora para evitar sustos futuros

Gráfico crescendo
Independentemente do presidente eleito, especialista enxerga um cenário desafiador para o empresário (Foto: Magnific)

Dívida pública federal batendo recorde, taxa selic em 13,75%, previsão de crescimento econômico de 2,2% em 2026 e 1,9% em 2027, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), e um segundo turno de eleições pela frente, em um Brasil visivelmente polarizado... 

É esse cenário que os empresários encaram neste momento e, nele, estar à frente do tempo e antecipar ações pode ser a linha tênue entre manter uma operação de pé e decretar falência. 

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Dessa forma, O Brasilianista conversou com Wagner Silva de Moraes, CEO da A&S Partners e economista, para trazer insights e dicas para garantir a saúde da sua empresa. 

Quais são os principais fatores econômicos que as empresas devem observar ao planejar seus investimentos para 2027?

Eu vejo 2027 como um ano bastante desafiador para as empresas brasileiras. Temos uma combinação preocupante de dívida pública elevada, déficits fiscais recorrentes, juros ainda altos e perspectivas de baixo crescimento econômico. Além disso, a carga tributária continua pressionando a atividade empresarial.

Na A&S Partners, acompanhamos empresas que, mesmo faturando bem, enfrentam dificuldades financeiras por conta do endividamento e da perda de margens. Por isso, antes de pensar em expansão, eu avaliaria principalmente o custo do capital, a geração de caixa, o comportamento do consumo e os riscos tributários.

E teria muita disciplina na estrutura de capital, porque aumentar o endividamento num momento como esse pode custar muito caro. É preciso avaliar bem os riscos e os retornos antes de tomar qualquer decisão. Não vejo espaço para investimentos baseados apenas em otimismo.

Em que medida o cenário político e as eleições de 2026 podem afetar as expectativas dos empresários e o planejamento financeiro para o próximo ano?

Independentemente de quem assumir o governo em 2027, o país terá pela frente uma situação econômica bastante delicada. A dívida pública elevada, os déficits recorrentes e a pressão sobre as despesas obrigatórias não desaparecem com o resultado das eleições.

Me preocupa bastante a situação fiscal do país. Estamos acumulando uma dívida enorme, gastando muito com juros e crescendo pouco. E, se não houver um ajuste sério nas contas públicas, fica difícil imaginar uma melhora consistente desse cenário. Isso acaba recaindo sobre as empresas, que já enfrentam dificuldades para investir e financiar suas operações.

O empresário precisa acompanhar a condução da política econômica, mas não pode fazer seu planejamento apostando em promessas eleitorais. O próximo ano exigirá muita prudência, seja qual for o cenário político.

Quais indicadores econômicos e financeiros os empresários deveriam acompanhar com mais atenção ao longo de 2027?

Além da inflação, Selic, câmbio, PIB e evolução das contas públicas, eu daria atenção especial aos indicadores financeiros da própria empresa.

Vejo muitos empresários preocupados com o crescimento do faturamento, mas que acabam deixando em segundo plano a geração de caixa, as margens e o endividamento. Uma empresa pode crescer em receita e, ao mesmo tempo, piorar sua situação financeira.

Eu acompanharia mensalmente o EBITDA, o fluxo de caixa operacional, a dívida líquida, o custo financeiro e a necessidade de capital de giro. Em um cenário de crédito caro e economia crescendo pouco, esses indicadores podem fazer toda a diferença. Faturamento é importante, mas é o caixa que paga as contas.

Quais critérios devem orientar a escolha entre investir no próprio negócio, ampliar a operação, reduzir dívidas ou manter recursos em caixa?

Eu começaria avaliando a situação financeira real da empresa e o retorno esperado de cada alternativa. Se a companhia está muito endividada, com juros elevados consumindo boa parte do resultado, provavelmente a prioridade deveria ser reorganizar suas dívidas antes de pensar em expansão. Já uma empresa capitalizada, com boa geração de caixa, pode encontrar excelentes oportunidades de investimento, inclusive aproveitando dificuldades dos concorrentes.

Também não podemos desprezar a importância de manter liquidez. Em momentos de incerteza, ter caixa é uma vantagem competitiva enorme. Eu não acredito em crescimento a qualquer custo. Crescer é importante, mas crescer sem rentabilidade e equilíbrio financeiro pode comprometer tudo aquilo que o empresário levou anos para construir.

Quais são os erros comportamentais mais comuns que levam empresários a tomar decisões ruins de investimento?

Pela minha experiência, o excesso de confiança é um dos principais erros. Muitos empresários tomam decisões baseados na intuição, no entusiasmo com determinado projeto ou simplesmente porque o concorrente está expandindo.

Outro problema é insistir em investimentos que já demonstraram não funcionar, apenas porque muito dinheiro foi colocado ali. Em processos de reestruturação, encontramos empresas que poderiam ter evitado dificuldades maiores se tivessem reconhecido os problemas mais cedo.

Também vejo projeções excessivamente otimistas, principalmente de receitas, enquanto custos e necessidades de capital de giro são subestimados. O empresário precisa ser otimista para empreender, mas não pode deixar que o otimismo se sobreponha aos números.

Quais práticas podem ajudar empresários a tomar decisões mais racionais, reduzindo a influência de impulsos, expectativas e vieses?

Eu vejo isso acontecer bastante. Às vezes, o empresário conhece profundamente seu negócio, mas acaba tomando decisões importantes sem avaliar direito o impacto financeiro.

Antes de realizar um investimento relevante, é fundamental avaliar o retorno esperado, os riscos, a necessidade de capital e, principalmente, o impacto no caixa. Também recomendo trabalhar com diferentes cenários, inclusive aqueles em que as coisas não saem como planejado.

Outro ponto importante é ter pessoas preparadas e com liberdade para questionar decisões, mesmo quando elas partem do próprio controlador. Na A&S Partners, muitas vezes nosso trabalho começa justamente por confrontar expectativas com a realidade financeira das empresas. Nem sempre a melhor decisão é investir mais. Em determinados momentos, a decisão mais inteligente é reorganizar, preservar recursos e esperar uma oportunidade melhor.

Se um empresário começar a organizar hoje o planejamento financeiro para 2027, quais seriam os primeiros passos?

Eu começaria fazendo um diagnóstico completo da situação financeira da empresa, olhando principalmente para caixa, endividamento, margens, custos e compromissos futuros. Depois, revisaria o orçamento e definiria quais investimentos são realmente prioritários e quais podem esperar. Também avaliaria a estrutura das dívidas, buscando renegociar custos e prazos antes que eventuais dificuldades apareçam.

Outro ponto que merece atenção é a Reforma Tributária, que exigirá adaptações importantes das empresas. Minha recomendação é trabalhar com cenários conservadores e manter uma boa reserva de liquidez. E não deixar esse planejamento para janeiro. Tenho visto muitas empresas entrarem em dificuldades não apenas pela situação econômica, mas porque demoraram demais para tomar decisões que já eram necessárias.

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