A dívida pública da União bateu recorde em 2026 ao atingir 77,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em abril. O dado indica que os débitos do país foram maiores do que o endividamento do setor privado, que era de 75,7% do PIB no mesmo mês.
É o que mostra o relatório do Centro de Estudos do Financiamento das Empresas Brasileiras (Cefeb), da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), divulgado pelo Valor. Esse movimento gerou agora um efeito conhecido como “crowding out”, em que o aumento dos gastos públicos ou do endividamento do governo reduz os investimentos do setor privado. Ao captar recursos no mercado financeiro, o Estado eleva as taxas de juros, encarecendo o crédito e afastando os investidores particulares.
Isso não acontecia desde a crise do governo de Dilma Roussef, entre 2014 e 2016. O estudo utilizou como base a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG), que considera governo federal, Estados e municípios.
O movimento destoa do que aconteceu até o fim de 2025, quando, segundo o estudo, as dívidas pública e privada cresciam de forma paralela, mostrando uma economia se alavancando. Com o aumento da dívida, o governo pega dinheiro da poupança e prejudica a saúde financeira do setor privado.
Os efeitos aparecem no financeiro das empresas. A inadimplência das pessoas jurídicas atingiu 4,8%, considerado pico histórico — desses, as micro e pequenas empresas eram 6%, enquanto nas grandes companhias eram 0,5%. As empresas negativadas subiram 34,5% desde 2024, com 8,96 milhões em abril deste ano.
A questão fiscal do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mostra dificuldades de manter a dívida pública estável de diversas maneiras.
A importância da dívida pública
A Dívida Pública Federal (DPF) é a forma como o país se financia, visto que a arrecadação com impostos é insuficiente para suprir as demandas orçamentárias do governo. No Brasil, o Tesouro Nacional pode emitir títulos ou assinar contratos que confirmam débitos a serem pagos no longo prazo.
Ou seja, a dívida pública é necessária para manter o governo. As despesas podem ser contraídas em real (dívida interna) ou em outra moeda (dívida externa), no caso de negociações ou emissões de títulos para outros países.
No entanto, há riscos quando a dívida pública sobe muito sem passar por momentos de estabilidade. Por exemplo, quanto maior o gasto do governo no pagamento dos débitos, menores serão os orçamentos para outras despesas como saúde, educação, previdência, funcionalismo público e investimentos.
Governo sem dinheiro para saúde e educação
O governo do presidente Lula ficou sem dinheiro para pagar R$ 105,5 bilhões em despesas neste ano e os ministérios da Saúde e Educação são os mais afetados.
Reportagem do Estadão mostra que o governo tem R$ 330,9 bilhões em despesas não obrigatórias para pagar neste ano. Desses, R$ 226,3 bilhões são do Orçamento e o restante são faturas de anos anteriores que ainda não foram quitadas. Porém, o bloqueio orçamentário em vigor implica uma restrição de R$ 105,5 bilhões nesse pagamento.
Esse cenário gera o que é conhecido como uma “bola de neve” no Orçamento, que acontece quando o governo não consegue executar ações ou fica sem dinheiro para bancar despesas em um ano e precisa transferir os gastos para o ano fiscal seguinte.
A fatura vem crescendo e formando um “orçamento paralelo”. O valor aumentou de R$ 310,8 bilhões no início de 2025 para R$ 391,6 bilhões no início de 2026. Há dez anos, a quantia era de R$ 186,3 bilhões.
Brasil precisa de ajuste fiscal nos moldes da Argentina
Alberto Ramos, diretor do grupo de pesquisas macroeconômicas para América Latina do Goldman Sachs, revelou ao Estadão que um próximo presidente do Brasil, seja Lula ou um nome da oposição, não deve implementar ajuste fiscal similar ao que Javier Milei fez na Argentina.
Para ele, a crise fiscal brasileira não é severa, mas o tamanho da dívida diminui o crescimento da economia, aumenta a volatilidade e a vulnerabilidade do país sofrer choques.
Já os economistas Alexandre Schwartsman e Ana Paula Vescovi, também ao Estadão, comentaram que a economia brasileira vai entrar num cenário de deterioração crescente se não resolver a situação das contas públicas no próximo mandato. Se a solução para o problema fiscal brasileiro não começar a ser desenvolvido, o país pode se afundar mais ainda na dívida pública.
Abordagens distintas no governo Lula
O mercado enxerga divergências dentro do próprio governo sobre o caminho a seguir no ajuste fiscal. Os ministérios da Fazenda e do Planejamento têm dado sinais divergentes neste tema em um eventual quarto mandato do presidente Lula.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, tem indicado a possibilidade de reduzir o limite de despesas do arcabouço fiscal de 2,5% para 1,5% ao ano. Por outro lado, o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, acredita que regras mais rígidas não devem funcionar e o governo precisa de mais instrumentos de gestão fiscal para cumprir as metas.
Nos bastidores do mercado financeiro, há uma espécie de “guerra fria” entre os dois ministros, em busca de protagonismo em um próximo governo petista.

