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Geopolítica

Sem China, fábricas param

Estados Unidos projetam dependência até a próxima década, Europa compra 98% dos ímãs dos chineses e Brasil tem a segunda maior reserva do mundo, mas ainda importa produtos transformados

Fábricas chinesas
China controla 91% do refino e 94% dos ímãs de terras raras (Foto: TruckRun/Unsplash)

Estados Unidos, União Europeia, Japão e Índia gastam bilhões para diminuir a dependência chinesa de terras raras, mas uma década pode não ser suficiente para substituir a cadeia construída por Pequim.

A vulnerabilidade não está apenas nas minas, a China controla etapas industriais que transformam minerais em componentes usados por carros elétricos, caças, mísseis, turbinas eólicas, robôs, celulares e servidores de inteligência artificial.

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Em 2024, os chineses respondiam por 60% da mineração mundial das quatro terras raras mais importantes para ímãs.

A participação aumentava para 91% quando o material chegava ao refino e atingia 94% na fabricação de ímãs permanentes.

Nas terras raras pesadas, utilizadas em aplicações capazes de suportar altas temperaturas e exigências militares, a concentração é ainda maior.

Estimativas do Fundo Monetário Internacional colocam a China e cadeias diretamente integradas a ela em 98% da mineração, 96,5% da separação dos óxidos e 95% do refino dos metais.

As exportações chinesas voltaram a mostrar a dimensão desse mercado em setembro.

O país enviou 4.269,8 toneladas de terras raras para o exterior, alta de 6,7% sobre o mesmo mês de 2025.

No acumulado dos nove primeiros meses de 2026, contudo, os embarques ficaram 9,6% menores.

Poder industrial

Ter uma jazida não resolve o problema. Depois que o minério é retirado do solo, diferentes elementos precisam ser separados.

Os óxidos passam por refino, são convertidos em metais, transformados em ligas e finalmente utilizados na produção de ímãs de alta potência.

É essa sequência que explica por que países com reservas próprias continuam dependentes da China.

A Agência Internacional de Energia calcula que, mesmo considerando projetos já existentes ou anunciados fora da China, em 2035 a capacidade diversificada deverá atender apenas cerca de metade da necessidade de mineração de terras raras magnéticas fora do país.

No refino, essa cobertura cai para aproximadamente 25%. Na fabricação de ímãs, fica abaixo de 20%.

A distância entre abrir uma mina e fabricar um ímã significa que substituir a China integralmente não é um projeto de dois ou três anos.

A estimativa internacional é que cerca de US$ 60 bilhões (R$ 311 bilhões) em investimentos adicionais serão necessários ao longo da próxima década apenas para diversificar a cadeia de terras raras usadas em ímãs.

Mapa chinês

Os países não possuem o mesmo grau de exposição.

País ou blocoDependência atualAlternativa em construçãoPrazo
União Europeia98% da demanda por ímãs de terras raras vem da China; terras raras pesadas chegam a 100%Mineração, refino europeu, reciclagem e acordos com Vietnã e outros fornecedoresMeta para 2030, sem independência garantida
Estados UnidosChina ainda fornece parcela decisiva de compostos, metais e ímãs; produção doméstica de ímãs permanece muito abaixo do consumoMinas, refinarias, MP Materials, USA Rare Earth e contratos militaresDependência deve avançar pelos anos 2030
JapãoDependência geral caiu, mas terras raras pesadas continuam extremamente concentradas na ChinaAustrália, Malásia, reciclagem e redução do uso de mineraisDiversificação começou há 15 anos e ainda não terminou
ÍndiaEntre 84,8% e 90,4% de categorias de ímãs importados vêm da China em quantidadePrograma para produzir 6 mil toneladas anuais de ímãsPrimeiras novas plantas precisam de ao menos dois anos após contratação
Coreia do SulIndústrias de eletrônicos e automóveis seguem expostas a terras raras e ímãs chinesesVietnã, Laos, EUA e projetos privadosSem data oficial para independência
AustráliaGrande produtor mineral, mas ainda constrói etapas industriais posterioresLynas, refino e expansão da separaçãoCapacidade cresce nesta década
BrasilGrande reserva e produção crescente, mas ainda importa óxidos e ímãs transformadosSerra Verde, novos projetos e política de industrializaçãoCadeia industrial ainda em construção

Europa presa

A União Europeia possui uma das dependências mais profundas. Cerca de 98% de sua demanda por ímãs de terras raras é atendida por importações chinesas.

Quando se observam determinados elementos pesados, a dependência chega a 100%.

O bloco importou 15,1 mil toneladas de elementos de terras raras em 2025. A China respondeu diretamente por 46,8% desse volume, seguida pela Rússia, com 25,9%, e pela Malásia, com 23,1%.

Esses números de matéria-prima não revelam toda a exposição europeia porque parte do material que chega de outros países já passou por cadeias industriais asiáticas.

No produto final mais sensível, o ímã permanente a dependência chinesa é muito maior.

A União Europeia estabeleceu para 2030 a meta de extrair internamente 10% do consumo de matérias-primas estratégicas, processar 40% e reciclar 25%.

Outra regra determina que, até lá, não mais que 65% do consumo anual de cada matéria-prima estratégica deve depender de um único país externo.

A distância entre a regra e a situação atual é enorme quando 98% dos ímãs vêm de um único fornecedor.

Corrida europeia

Bruxelas começou a acelerar projetos próprios. Em outubro, a Comissão Europeia selecionou outros 46 projetos estratégicos de matérias-primas para receber prioridade em licenciamentos e apoio na busca por financiamento. O conjunto precisaria mobilizar aproximadamente € 21,1 bilhões (R$ 118,88 bilhões).

A França abriu outra frente. Em maio, o governo lançou um plano específico para recuperar capacidade industrial em terras raras e ímãs permanentes.

Projetos franceses procuram reativar etapas de separação e processamento que desapareceram da Europa à medida que a produção chinesa ganhou escala e pressionou preços.

A Estônia iniciou produção de ímãs em uma das poucas instalações desse tipo fora da Ásia.

Fabricantes europeus de automóveis já começaram a buscar contratos com a planta, mesmo aceitando pagar valores maiores por uma cadeia não chinesa.

Bruxelas também tenta aproximar o Vietnã. Documentos europeus preparados para negociações em outubro tratam o país asiático como possível fornecedor de terras raras, tungstênio, antimônio, bismuto e outras matérias-primas estratégicas.

EUA atrasados

Os Estados Unidos possuem minas, projetos de refino, dinheiro público e um dos maiores mercados consumidores do planeta. Mesmo assim, não esperam romper rapidamente a dependência chinesa.

Entre 2020 e 2023, aproximadamente 56% do consumo americano de compostos e metais de terras raras era atendido diretamente por importações chinesas.

A dependência total de importações, considerando todos os fornecedores externos, chegava a 80%.

O gargalo aparece com maior força nos ímãs. Em 2025, os Estados Unidos produziram aproximadamente 300 toneladas de ímãs de terras raras e consumiram cerca de 48 mil toneladas.

O governo americano colocou dezenas de bilhões de dólares em empresas e projetos relacionados a minerais críticos.

O Departamento de Energia anunciou somente neste ano US$ 134 milhões (R$ 672,8 milhões) para recuperação e refino de terras raras provenientes de rejeitos de mineração, lixo eletrônico e outras fontes.

O Pentágono também passou a financiar diretamente a formação de uma cadeia doméstica, incluindo acordos com a MP Materials e outras empresas responsáveis por mineração, processamento e fabricação de ímãs.

Prazo americano

A meta política é mais rápida que a indústria. A legislação americana prevê restrições crescentes à aquisição de minerais críticos provenientes da China para determinadas aplicações militares.

Um dos prazos importantes começa em janeiro de 2027. A produção doméstica não deve estar pronta para atender toda a necessidade até lá.

Projeções do setor indicam que os Estados Unidos continuarão dependentes de fornecimento chinês de alguns elementos durante os anos 2030, principalmente de terras raras pesadas.

Até 2031, a capacidade projetada ainda não cobre toda a necessidade americana desses minerais.

O problema não é apenas encontrar depósitos. Uma nova mina precisa passar por licenciamento, financiamento, construção e qualificação.

Depois disso, são necessárias instalações capazes de separar elementos com características químicas extremamente semelhantes e transformá-los em materiais utilizáveis pela indústria.

Japão tentou

O Japão começou a fazer o que Estados Unidos e Europa agora tentam há mais de 15 anos.

Em 2010, uma crise diplomática com a China expôs a vulnerabilidade japonesa. Naquele período, aproximadamente 85% das importações japonesas de terras raras vinham dos chineses.

Tóquio respondeu investindo em minas na Austrália, processamento na Malásia, reciclagem, estoques estratégicos e tecnologias capazes de utilizar quantidades menores desses minerais.

Em 2020, a participação chinesa nas importações japonesas havia caído para aproximadamente 58%.

A redução demorou mais de uma década. Mesmo assim, o Japão continua vulnerável justamente nos materiais mais difíceis de substituir.

Documentos oficiais publicados em 2026 indicam dependência de 100% da China nas importações de determinadas terras raras pesadas.

A estratégia atual inclui investimentos da estatal JOGMEC em projetos ligados à Lynas, que extrai material na Austrália e o processa na Malásia.

Índia corre

A Índia apresenta outra contradição: possui recursos próprios de terras raras, mas ainda compra da China grande parte dos ímãs utilizados por sua indústria.

Dados oficiais mostram que, dependendo da categoria aduaneira, entre 84,8% e 90,4% dos ímãs permanentes importados pelo país em quantidade vieram da China no ano fiscal de 2024-2025.

O governo indiano aprovou 72,8 bilhões de rúpias para criar uma cadeia integrada capaz de fabricar 6 mil toneladas de ímãs permanentes de terras raras por ano.

O programa prevê transformar óxidos em metais, metais em ligas e ligas em ímãs acabados.

O edital começou a selecionar empresas em 2026. Depois da contratação, o próprio programa prevê um período de aproximadamente dois anos para implantação das fábricas. A demanda indiana por esses ímãs, entretanto, deve dobrar até 2030.

Coreia negocia

A Coreia do Sul decidiu seguir duas estratégias simultaneamente. Seul procura reduzir a vulnerabilidade estimulando investimentos nos Estados Unidos, Vietnã e Laos, mas também negocia diretamente com Pequim para garantir que o fornecimento chinês continue funcionando.

Em fevereiro, o governo anunciou 250 bilhões de wons para apoiar projetos de mineração no exterior e ampliar fontes alternativas de minerais críticos.

Pouco depois, Coreia do Sul e China criaram mecanismos específicos para lidar com terras raras e ímãs permanentes.

Entre eles estão uma linha direta para problemas de abastecimento e procedimentos destinados a acelerar licenças de exportação.

Empresas sul-coreanas também começaram a deslocar produção. Fabricantes estão construindo capacidade de ímãs no Vietnã para atender clientes que passaram a aceitar pagar de 15% a 20% a mais por componentes produzidos fora da China.

Brasil sobe

Enquanto as maiores economias procuram fornecedores alternativos, o Brasil começa a sair de uma posição quase irrelevante na produção mundial.

O país possui reservas estimadas em 21 milhões de toneladas de óxidos equivalentes de terras raras, a segunda maior reserva conhecida do mundo. A China aparece em primeiro lugar, com aproximadamente 44 milhões.

A distância entre reserva e indústria, porém, continua grande. Dados divulgados pela Agência Nacional de Mineração nesta semana mostram que o Brasil produziu 326 toneladas de concentrado de óxidos de terras raras em 2025.

No mesmo ano, exportou US$ 14,9 milhões (R$ 75 milhões) desse concentrado. Ao mesmo tempo, importou US$ 30,6 milhões em produtos da transformação mineral, incluindo óxidos de elementos de terras raras e ímãs.

O país importou, portanto, em produtos transformados, valor superior ao dobro do que recebeu com a exportação do concentrado.

Goiás concentra

Toda a lavra ativa de terras raras identificada atualmente pela ANM está concentrada em Goiás. O país possui quatro áreas em produção, todas no estado.

Além delas, existem 78 áreas cujos relatórios finais de pesquisa já foram aprovados e que se encontram na etapa de direito de requerer lavra ou com pedido de concessão apresentado.

A corrida aumentou rapidamente. Entre 2021 e 2025, o número de autorizações de pesquisa para terras raras cresceu 485,4% no Brasil.

Um dos projetos que colocou o país no mapa internacional fica em Minaçu, no norte goiano.

A Serra Verde iniciou produção comercial no depósito Pela Ema e trabalha com neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, justamente os quatro elementos magnéticos acompanhados com maior atenção pelas cadeias de automóveis, energia e defesa.

A operação pretende chegar ao fim de 2026 com ritmo equivalente a aproximadamente 4 mil toneladas anuais de óxidos de terras raras.

EUA chegam

Parte do material produzido em Goiás já está entrando diretamente na estratégia americana de redução da dependência chinesa.

A Serra Verde fechou um acordo de fornecimento de 15 anos com o governo dos Estados Unidos.

As primeiras entregas do concentrado estão previstas para começar ainda no quarto trimestre de 2026. A empresa também acertou uma combinação com a americana USA Rare Earth.

O objetivo anunciado é conectar a produção brasileira a operações de separação, processamento, fabricação de metais e produção de ímãs nos Estados Unidos e em países aliados.

O desenho cria uma situação geopolítica incomum: uma das principais reservas capazes de ajudar o Ocidente a diminuir sua exposição à China está no Brasil, mas parte dessa produção já está contratada dentro de uma cadeia industrial organizada a partir dos Estados Unidos.

Minério não basta

A oportunidade brasileira depende de onde a cadeia terminará. Se o país extrair terras raras, produzir concentrados e enviá-los para fábricas estrangeiras, ocupará principalmente a etapa de menor transformação industrial.

O Brasil vende concentrado ao exterior enquanto compra óxidos processados e ímãs.

Esses ímãs aparecem em motores de veículos elétricos, geradores de turbinas eólicas, sistemas de defesa, robôs industriais, discos rígidos, equipamentos médicos e motores utilizados no resfriamento e operação de centros de dados.

O governo sancionou em setembro a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, que colocou o beneficiamento e a produção de maior valor agregado entre suas diretrizes.

A legislação criou também o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, responsável por coordenar a política.

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