Estados Unidos, União Europeia, Japão e Índia gastam bilhões para diminuir a dependência chinesa de terras raras, mas uma década pode não ser suficiente para substituir a cadeia construída por Pequim.
A vulnerabilidade não está apenas nas minas, a China controla etapas industriais que transformam minerais em componentes usados por carros elétricos, caças, mísseis, turbinas eólicas, robôs, celulares e servidores de inteligência artificial.
Em 2024, os chineses respondiam por 60% da mineração mundial das quatro terras raras mais importantes para ímãs.
A participação aumentava para 91% quando o material chegava ao refino e atingia 94% na fabricação de ímãs permanentes.
Nas terras raras pesadas, utilizadas em aplicações capazes de suportar altas temperaturas e exigências militares, a concentração é ainda maior.
Estimativas do Fundo Monetário Internacional colocam a China e cadeias diretamente integradas a ela em 98% da mineração, 96,5% da separação dos óxidos e 95% do refino dos metais.
As exportações chinesas voltaram a mostrar a dimensão desse mercado em setembro.
O país enviou 4.269,8 toneladas de terras raras para o exterior, alta de 6,7% sobre o mesmo mês de 2025.
No acumulado dos nove primeiros meses de 2026, contudo, os embarques ficaram 9,6% menores.
Poder industrial
Ter uma jazida não resolve o problema. Depois que o minério é retirado do solo, diferentes elementos precisam ser separados.
Os óxidos passam por refino, são convertidos em metais, transformados em ligas e finalmente utilizados na produção de ímãs de alta potência.
É essa sequência que explica por que países com reservas próprias continuam dependentes da China.
A Agência Internacional de Energia calcula que, mesmo considerando projetos já existentes ou anunciados fora da China, em 2035 a capacidade diversificada deverá atender apenas cerca de metade da necessidade de mineração de terras raras magnéticas fora do país.
No refino, essa cobertura cai para aproximadamente 25%. Na fabricação de ímãs, fica abaixo de 20%.
A distância entre abrir uma mina e fabricar um ímã significa que substituir a China integralmente não é um projeto de dois ou três anos.
A estimativa internacional é que cerca de US$ 60 bilhões (R$ 311 bilhões) em investimentos adicionais serão necessários ao longo da próxima década apenas para diversificar a cadeia de terras raras usadas em ímãs.
Mapa chinês
Os países não possuem o mesmo grau de exposição.
| País ou bloco | Dependência atual | Alternativa em construção | Prazo |
|---|---|---|---|
| União Europeia | 98% da demanda por ímãs de terras raras vem da China; terras raras pesadas chegam a 100% | Mineração, refino europeu, reciclagem e acordos com Vietnã e outros fornecedores | Meta para 2030, sem independência garantida |
| Estados Unidos | China ainda fornece parcela decisiva de compostos, metais e ímãs; produção doméstica de ímãs permanece muito abaixo do consumo | Minas, refinarias, MP Materials, USA Rare Earth e contratos militares | Dependência deve avançar pelos anos 2030 |
| Japão | Dependência geral caiu, mas terras raras pesadas continuam extremamente concentradas na China | Austrália, Malásia, reciclagem e redução do uso de minerais | Diversificação começou há 15 anos e ainda não terminou |
| Índia | Entre 84,8% e 90,4% de categorias de ímãs importados vêm da China em quantidade | Programa para produzir 6 mil toneladas anuais de ímãs | Primeiras novas plantas precisam de ao menos dois anos após contratação |
| Coreia do Sul | Indústrias de eletrônicos e automóveis seguem expostas a terras raras e ímãs chineses | Vietnã, Laos, EUA e projetos privados | Sem data oficial para independência |
| Austrália | Grande produtor mineral, mas ainda constrói etapas industriais posteriores | Lynas, refino e expansão da separação | Capacidade cresce nesta década |
| Brasil | Grande reserva e produção crescente, mas ainda importa óxidos e ímãs transformados | Serra Verde, novos projetos e política de industrialização | Cadeia industrial ainda em construção |
Europa presa
A União Europeia possui uma das dependências mais profundas. Cerca de 98% de sua demanda por ímãs de terras raras é atendida por importações chinesas.
Quando se observam determinados elementos pesados, a dependência chega a 100%.
O bloco importou 15,1 mil toneladas de elementos de terras raras em 2025. A China respondeu diretamente por 46,8% desse volume, seguida pela Rússia, com 25,9%, e pela Malásia, com 23,1%.
Esses números de matéria-prima não revelam toda a exposição europeia porque parte do material que chega de outros países já passou por cadeias industriais asiáticas.
No produto final mais sensível, o ímã permanente a dependência chinesa é muito maior.
A União Europeia estabeleceu para 2030 a meta de extrair internamente 10% do consumo de matérias-primas estratégicas, processar 40% e reciclar 25%.
Outra regra determina que, até lá, não mais que 65% do consumo anual de cada matéria-prima estratégica deve depender de um único país externo.
A distância entre a regra e a situação atual é enorme quando 98% dos ímãs vêm de um único fornecedor.
Corrida europeia
Bruxelas começou a acelerar projetos próprios. Em outubro, a Comissão Europeia selecionou outros 46 projetos estratégicos de matérias-primas para receber prioridade em licenciamentos e apoio na busca por financiamento. O conjunto precisaria mobilizar aproximadamente € 21,1 bilhões (R$ 118,88 bilhões).
A França abriu outra frente. Em maio, o governo lançou um plano específico para recuperar capacidade industrial em terras raras e ímãs permanentes.
Projetos franceses procuram reativar etapas de separação e processamento que desapareceram da Europa à medida que a produção chinesa ganhou escala e pressionou preços.
A Estônia iniciou produção de ímãs em uma das poucas instalações desse tipo fora da Ásia.
Fabricantes europeus de automóveis já começaram a buscar contratos com a planta, mesmo aceitando pagar valores maiores por uma cadeia não chinesa.
Bruxelas também tenta aproximar o Vietnã. Documentos europeus preparados para negociações em outubro tratam o país asiático como possível fornecedor de terras raras, tungstênio, antimônio, bismuto e outras matérias-primas estratégicas.
EUA atrasados
Os Estados Unidos possuem minas, projetos de refino, dinheiro público e um dos maiores mercados consumidores do planeta. Mesmo assim, não esperam romper rapidamente a dependência chinesa.
Entre 2020 e 2023, aproximadamente 56% do consumo americano de compostos e metais de terras raras era atendido diretamente por importações chinesas.
A dependência total de importações, considerando todos os fornecedores externos, chegava a 80%.
O gargalo aparece com maior força nos ímãs. Em 2025, os Estados Unidos produziram aproximadamente 300 toneladas de ímãs de terras raras e consumiram cerca de 48 mil toneladas.
O governo americano colocou dezenas de bilhões de dólares em empresas e projetos relacionados a minerais críticos.
O Departamento de Energia anunciou somente neste ano US$ 134 milhões (R$ 672,8 milhões) para recuperação e refino de terras raras provenientes de rejeitos de mineração, lixo eletrônico e outras fontes.
O Pentágono também passou a financiar diretamente a formação de uma cadeia doméstica, incluindo acordos com a MP Materials e outras empresas responsáveis por mineração, processamento e fabricação de ímãs.
Prazo americano
A meta política é mais rápida que a indústria. A legislação americana prevê restrições crescentes à aquisição de minerais críticos provenientes da China para determinadas aplicações militares.
Um dos prazos importantes começa em janeiro de 2027. A produção doméstica não deve estar pronta para atender toda a necessidade até lá.
Projeções do setor indicam que os Estados Unidos continuarão dependentes de fornecimento chinês de alguns elementos durante os anos 2030, principalmente de terras raras pesadas.
Até 2031, a capacidade projetada ainda não cobre toda a necessidade americana desses minerais.
O problema não é apenas encontrar depósitos. Uma nova mina precisa passar por licenciamento, financiamento, construção e qualificação.
Depois disso, são necessárias instalações capazes de separar elementos com características químicas extremamente semelhantes e transformá-los em materiais utilizáveis pela indústria.
Japão tentou
O Japão começou a fazer o que Estados Unidos e Europa agora tentam há mais de 15 anos.
Em 2010, uma crise diplomática com a China expôs a vulnerabilidade japonesa. Naquele período, aproximadamente 85% das importações japonesas de terras raras vinham dos chineses.
Tóquio respondeu investindo em minas na Austrália, processamento na Malásia, reciclagem, estoques estratégicos e tecnologias capazes de utilizar quantidades menores desses minerais.
Em 2020, a participação chinesa nas importações japonesas havia caído para aproximadamente 58%.
A redução demorou mais de uma década. Mesmo assim, o Japão continua vulnerável justamente nos materiais mais difíceis de substituir.
Documentos oficiais publicados em 2026 indicam dependência de 100% da China nas importações de determinadas terras raras pesadas.
A estratégia atual inclui investimentos da estatal JOGMEC em projetos ligados à Lynas, que extrai material na Austrália e o processa na Malásia.
Índia corre
A Índia apresenta outra contradição: possui recursos próprios de terras raras, mas ainda compra da China grande parte dos ímãs utilizados por sua indústria.
Dados oficiais mostram que, dependendo da categoria aduaneira, entre 84,8% e 90,4% dos ímãs permanentes importados pelo país em quantidade vieram da China no ano fiscal de 2024-2025.
O governo indiano aprovou 72,8 bilhões de rúpias para criar uma cadeia integrada capaz de fabricar 6 mil toneladas de ímãs permanentes de terras raras por ano.
O programa prevê transformar óxidos em metais, metais em ligas e ligas em ímãs acabados.
O edital começou a selecionar empresas em 2026. Depois da contratação, o próprio programa prevê um período de aproximadamente dois anos para implantação das fábricas. A demanda indiana por esses ímãs, entretanto, deve dobrar até 2030.
Coreia negocia
A Coreia do Sul decidiu seguir duas estratégias simultaneamente. Seul procura reduzir a vulnerabilidade estimulando investimentos nos Estados Unidos, Vietnã e Laos, mas também negocia diretamente com Pequim para garantir que o fornecimento chinês continue funcionando.
Em fevereiro, o governo anunciou 250 bilhões de wons para apoiar projetos de mineração no exterior e ampliar fontes alternativas de minerais críticos.
Pouco depois, Coreia do Sul e China criaram mecanismos específicos para lidar com terras raras e ímãs permanentes.
Entre eles estão uma linha direta para problemas de abastecimento e procedimentos destinados a acelerar licenças de exportação.
Empresas sul-coreanas também começaram a deslocar produção. Fabricantes estão construindo capacidade de ímãs no Vietnã para atender clientes que passaram a aceitar pagar de 15% a 20% a mais por componentes produzidos fora da China.
Brasil sobe
Enquanto as maiores economias procuram fornecedores alternativos, o Brasil começa a sair de uma posição quase irrelevante na produção mundial.
O país possui reservas estimadas em 21 milhões de toneladas de óxidos equivalentes de terras raras, a segunda maior reserva conhecida do mundo. A China aparece em primeiro lugar, com aproximadamente 44 milhões.
A distância entre reserva e indústria, porém, continua grande. Dados divulgados pela Agência Nacional de Mineração nesta semana mostram que o Brasil produziu 326 toneladas de concentrado de óxidos de terras raras em 2025.
No mesmo ano, exportou US$ 14,9 milhões (R$ 75 milhões) desse concentrado. Ao mesmo tempo, importou US$ 30,6 milhões em produtos da transformação mineral, incluindo óxidos de elementos de terras raras e ímãs.
O país importou, portanto, em produtos transformados, valor superior ao dobro do que recebeu com a exportação do concentrado.
Goiás concentra
Toda a lavra ativa de terras raras identificada atualmente pela ANM está concentrada em Goiás. O país possui quatro áreas em produção, todas no estado.
Além delas, existem 78 áreas cujos relatórios finais de pesquisa já foram aprovados e que se encontram na etapa de direito de requerer lavra ou com pedido de concessão apresentado.
A corrida aumentou rapidamente. Entre 2021 e 2025, o número de autorizações de pesquisa para terras raras cresceu 485,4% no Brasil.
Um dos projetos que colocou o país no mapa internacional fica em Minaçu, no norte goiano.
A Serra Verde iniciou produção comercial no depósito Pela Ema e trabalha com neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, justamente os quatro elementos magnéticos acompanhados com maior atenção pelas cadeias de automóveis, energia e defesa.
A operação pretende chegar ao fim de 2026 com ritmo equivalente a aproximadamente 4 mil toneladas anuais de óxidos de terras raras.
EUA chegam
Parte do material produzido em Goiás já está entrando diretamente na estratégia americana de redução da dependência chinesa.
A Serra Verde fechou um acordo de fornecimento de 15 anos com o governo dos Estados Unidos.
As primeiras entregas do concentrado estão previstas para começar ainda no quarto trimestre de 2026. A empresa também acertou uma combinação com a americana USA Rare Earth.
O objetivo anunciado é conectar a produção brasileira a operações de separação, processamento, fabricação de metais e produção de ímãs nos Estados Unidos e em países aliados.
O desenho cria uma situação geopolítica incomum: uma das principais reservas capazes de ajudar o Ocidente a diminuir sua exposição à China está no Brasil, mas parte dessa produção já está contratada dentro de uma cadeia industrial organizada a partir dos Estados Unidos.
Minério não basta
A oportunidade brasileira depende de onde a cadeia terminará. Se o país extrair terras raras, produzir concentrados e enviá-los para fábricas estrangeiras, ocupará principalmente a etapa de menor transformação industrial.
O Brasil vende concentrado ao exterior enquanto compra óxidos processados e ímãs.
Esses ímãs aparecem em motores de veículos elétricos, geradores de turbinas eólicas, sistemas de defesa, robôs industriais, discos rígidos, equipamentos médicos e motores utilizados no resfriamento e operação de centros de dados.
O governo sancionou em setembro a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, que colocou o beneficiamento e a produção de maior valor agregado entre suas diretrizes.
A legislação criou também o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, responsável por coordenar a política.
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