Publicidade
Justiça

Caso Master: os vínculos de Kassio Nunes Marques

Investigação identifica reuniões intermediadas por desembargador, pagamentos a consultoria ligada ao filho de Nunes Marques

Kassio Nunes Marques
Decisão do STF foi favorável a interesses do Banco Master (Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil)

O Banco Master transferiu R$ 6,6 milhões a uma consultoria que repassou aproximadamente R$ 282 mil ao advogado Kevin Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), entre 2024 e 2025.

Os pagamentos ocorreram em um período de aproximação entre o banqueiro Daniel Vorcaro e pessoas ligadas ao magistrado, enquanto a Segunda Turma do tribunal analisava uma disputa judicial com possíveis repercussões sobre créditos bilionários adquiridos pelo banco.

Publicidade

As informações foram reveladas pela revista Piauí, em reportagem publicada na sexta-feira (23), ancorada em conversas de WhatsApp extraídas do celular de Vorcaro, registros telefônicos, decisões judiciais, documentos empresariais e informações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Intermediação judicial

Segundo a investigação, o desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), intermediou contatos entre Vorcaro e o ministro Nunes Marques.

Uma das mensagens foi enviada em abril de 2024, quando Ramos sugeriu um encontro entre os três. Posteriormente, o desembargador organizou um almoço com o banqueiro em sua residência, em Brasília, em 17 de junho.

Na ocasião, Ramos encaminhou a Vorcaro contatos identificados como pertencentes ao ministro e a seu filho, Kevin Marques.

Três dias depois, Kevin participou de uma reunião na sede do Banco Master, em São Paulo, acompanhado de Francisco Craveiro de Carvalho Junior, empresário próximo de Nunes Marques.

Ao menos nove encontros presenciais marcados pelo desembargador entre Vorcaro e o ministro. Os registros, entretanto, não permitem confirmar que todos tenham efetivamente ocorrido.

Caminho do dinheiro

De acordo com os documentos financeiros examinados pela revista, o Master transferiu R$ 6,6 milhões à Consult Inteligência Tributária entre agosto de 2024 e julho de 2025.

A empresa, por sua vez, repassou aproximadamente R$ 282 mil a Kevin Marques.

Mensagens do então diretor jurídico do banco, Luiz Rennó, também mencionam pagamentos mensais de R$ 500 mil relacionados à consultoria.

Em julho de 2025, Rennó perguntou a Vorcaro se o pagamento deveria continuar. Em agosto, voltou a mencionar a empresa entre as despesas consideradas essenciais.

Kevin afirmou à piauí que recebeu R$ 281,6 mil em dez parcelas por serviços jurídicos tributários e administrativos.

Negou ter prestado serviços ao Banco Master ou recebido pagamentos diretamente de Daniel Vorcaro.

Julgamento bilionário

A aproximação ocorreu durante a análise de uma disputa envolvendo a Destilaria Alcídia, que buscava indenização da União por políticas de controle dos preços do setor sucroalcooleiro.

O Banco Master havia adquirido créditos judiciais de outras empresas do mesmo setor.

Segundo estimativas da Polícia Federal citadas pela piauí, a carteira desses precatórios alcançava aproximadamente R$ 10 bilhões.

Embora o banco não fosse titular dos créditos discutidos diretamente no processo da Alcídia, o resultado interessava aos seus negócios.

Nunes Marques havia se declarado impedido de participar do julgamento porque atuara anteriormente no caso quando integrava o TRF1.

Em março de 2024, retirou o impedimento, alegando um registro equivocado de sua assessoria e um entendimento jurídico que permitiria sua participação.

Em 1º de outubro daquele ano, o ministro votou favoravelmente à destilaria e desempatou o julgamento da Segunda Turma do STF, encerrado por três votos a dois.

Após a decisão, mensagens internas do Banco Master registraram comemorações pelo resultado.

Rennó compartilhou com Vorcaro o contato de Kevin Marques acompanhado da expressão “Dominado aqui”.

Outros contratos

A reportagem também identificou relações comerciais entre o Master e um escritório de advocacia integrado por Camilla Ramos, esposa do desembargador Newton Ramos.

Segundo os documentos apresentados pela piauí, um contrato estabelecia honorários de êxito equivalentes a 5% do benefício econômico de doze ações judiciais envolvendo usinas.

Os processos somavam R$ 8,5 bilhões, o que representava uma possibilidade contratual de honorários de até R$ 427 milhões, caso as condições previstas fossem integralmente cumpridas.

Parte das ações tramitava no TRF1, tribunal ao qual Newton Ramos pertence.

A investigação também identificou pedidos de viagens, hospedagens e outros benefícios encaminhados pelo desembargador a Vorcaro. Entre março de 2024 e abril de 2025, os dois trocaram centenas de mensagens.

O escritório afirmou que Newton Ramos não integrava o colegiado responsável pelos julgamentos relacionados ao contrato, que a remuneração dependia do êxito das ações e que não havia recebido os valores previstos.

Respostas dos citados

Em manifestação à Piauí, Nunes Marques negou ter recebido favores de Vorcaro ou solicitado benefícios ao banqueiro.

O ministro afirmou que não votou em favor do empresário e sustentou que a ação da Destilaria Alcídia não tinha o Banco Master como parte.

Também negou conflito de interesses no julgamento, argumentando que a Segunda Turma havia reconhecido a inexistência de impedimento para sua participação.

Sobre os pagamentos ao filho, declarou que os recursos recebidos da consultoria correspondiam a serviços jurídicos e que Kevin não havia recebido dinheiro diretamente do Master.

Newton Ramos negou ter tratado de assuntos profissionais do escritório da esposa com integrantes do Judiciário. Segundo o desembargador, as conversas com Vorcaro eram de caráter privado e não se relacionavam ao exercício de sua função.

O escritório de Camilla Ramos também afirmou que não atuou no processo da Destilaria Alcídia no STF.

Turma do KN

A relação entre Daniel Vorcaro e o entorno de Kassio Nunes Marques também apareceu em investigações anteriores.

Em setembro, o Metrópoles revelou mensagens sobre a reserva de uma mansão no Joá, no Rio de Janeiro, para o Carnaval de 2025.

A hospedagem, avaliada em aproximadamente R$ 1,45 milhão, seria destinada a um grupo associado a um ministro identificado nas conversas como “KN”, além do desembargador Newton Ramos.

A Polícia Federal identificou as iniciais como uma possível referência a Nunes Marques.

O imóvel, pertencente ao apresentador Márcio Garcia, estava avaliado em cerca de R$ 250 milhões.

As mensagens também tratavam da contratação de motoristas, fornecimento de bebidas e acesso a camarotes.

Os registros indicam a organização da hospedagem, mas não comprovam, isoladamente, quem efetivamente utilizou o imóvel ou quais despesas foram pagas.

As relações apontadas nas investigações também passaram a repercutir na atuação do ministro no STF.

Em 15 de setembro de 2026, Nunes Marques declarou-se impedido de participar de um julgamento relacionado à possibilidade de investigação do ministro Alexandre de Moraes por informações surgidas no caso Master. 

Na ocasião, justificou a decisão pelo exercício da presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e pelos possíveis efeitos do processo sobre a disputa presidencial.

Em outubro, a Folha de S.Paulo revelou que Nunes Marques avaliava prolongar o período de impedimento após a divulgação de mensagens que sugeriam benefícios oferecidos por Vorcaro. 

O ministro cogitava manter o afastamento para evitar questionamentos sobre sua imparcialidade em processos relacionados ao banco.

O histórico de decisões também inclui um posicionamento contrário aos interesses pessoais do ex-banqueiro.

Em março de 2026, Nunes Marques acompanhou a decisão que manteve a prisão preventiva de Vorcaro, conforme registros do STF.

O voto é citado pelo próprio ministro em sua defesa das acusações de favorecimento.

Acompanhe O Brasilianista!