O mapa ideológico do mundo em 2026 está mais azul do que há quatro anos, mas está longe de mostrar um planeta uniformemente conservador.
A direita avançou de maneira expressiva nas Américas, consolidou governos importantes na Europa e permanece forte em grandes potências asiáticas.
Ao mesmo tempo, partidos de esquerda e centro-esquerda continuam controlando governos relevantes, e um pequeno grupo de países permanece sob sistemas comandados por partidos comunistas.
A América Latina é onde a mudança aparece com mais nitidez. Argentina, Chile, Colômbia e Peru estão hoje governados por presidentes identificados com a direita, enquanto o Brasil chega a outubro com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda na Presidência, mas enfrentando Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno marcado para 25 de outubro.
A Reuters descreve o movimento regional como uma reversão da chamada “onda rosa” que predominou no início da década.
Nos Estados Unidos, Donald Trump mantém uma administração republicana conservadora.
Na Europa, Giorgia Meloni governa a Itália pela direita, Friedrich Merz lidera a Alemanha pela centro-direita e Peter Magyar substituiu Viktor Orbán na Hungria com uma plataforma também de centro-direita, embora mais alinhada à União Europeia.
Espanha e Reino Unido permanecem entre os principais governos europeus controlados pela esquerda ou centro-esquerda.
Como ler

O mapa considera a orientação predominante do governo nacional em exercício em 6 de outubro de 2026.
Não é um índice de democracia. Um país pode ser autoritário e conservador, autoritário e comunista, democrático e de esquerda ou democrático e de direita.
A Rússia de Vladimir Putin, por exemplo, não deve ser classificada como comunista apenas pela herança soviética ou pela confrontação com o Ocidente.
O sistema atual é dominado pelo Rússia Unida e pelo próprio Putin, com forte nacionalismo, conservadorismo social e grande intervenção estatal na economia.
Nas eleições parlamentares de setembro, o partido pró-Putin manteve ampla maioria em um ambiente político fortemente controlado.
O mesmo cuidado vale para o Irã. O país possui uma teocracia islâmica comandada por setores conservadores, e não um governo de esquerda ou comunista.
Após a morte de Ali Khamenei durante a guerra deste ano, Mojtaba Khamenei assumiu como líder supremo, mantendo os setores linha-dura no comando.
Américas à direita
A mudança mais evidente aconteceu na América Latina.
Na Argentina, Javier Milei mantém um governo libertário de direita, baseado em redução do Estado, desregulamentação econômica e forte alinhamento político com Donald Trump.
No Chile, José Antonio Kast assumiu a Presidência em março. A Reuters o classifica como um político de extrema direita.
Seu governo priorizou segurança, controle migratório, redução de despesas e uma agenda de crescimento baseada em menos burocracia e maior participação privada.
A Colômbia também mudou de campo político. Depois do primeiro governo de esquerda de sua história, comandado por Gustavo Petro, o país elegeu Abelardo De La Espriella, identificado com a direita e apoiado por Trump.
Ele venceu prometendo endurecer o combate ao crime, reduzir impostos, diminuir o tamanho do Estado e retomar projetos de petróleo e gás.
No Peru, Keiko Fujimori venceu a eleição de junho por uma diferença mínima e assumiu em julho. A conservadora obteve 50,135% dos votos contra 49,865% de Roberto Sánchez.
Brasil em disputa
O Brasil é uma exceção importante para qualquer mapa publicado neste momento.
Lula continua sendo o presidente e seu governo permanece identificado com a esquerda, portanto essa é a classificação institucional do país em 6 de outubro.
As urnas, porém, indicam uma possível mudança. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno de domingo à frente de Lula, com cerca de 47% contra 45%, e os dois voltam às urnas no dia 25 de outubro.
A direita também avançou fortemente no Congresso, com o PL ampliando sua representação no Senado e na Câmara.
México resiste
Enquanto boa parte da América Latina migrou para governos conservadores, o México permanece à esquerda.
Claudia Sheinbaum continua à frente do país com o Morena, partido fundado por Andrés Manuel López Obrador.
Seu governo preserva uma agenda de forte presença estatal em setores estratégicos, ampliação de programas sociais e defesa da soberania energética.
O Morena também continua dispondo de grande força parlamentar. Em outubro, a coalizão governista conseguiu aprovar uma mudança constitucional defendida por Sheinbaum sobre requisitos de nacionalidade para futuros candidatos à Presidência.
Europa fragmentada
Na Europa, o desenho é menos uniforme. A Itália segue governada pela coalizão de direita de Giorgia Meloni. Seu bloco continuou mostrando força em eleições locais realizadas neste ano.
Na Alemanha, Friedrich Merz governa com a CDU, de centro-direita, em coalizão com o SPD, de centro-esquerda. Essa composição torna a Alemanha um caso menos simples do que países governados exclusivamente por partidos conservadores.
Ao mesmo tempo, a AfD, classificada como extrema direita, continua crescendo nas eleições regionais.
A Hungria também mudou. Viktor Orbán perdeu a eleição de abril depois de 16 anos no poder. Seu sucessor, Peter Magyar, lidera o Tisza, de centro-direita, e assumiu prometendo reaproximar Budapeste da União Europeia.
Já a Espanha continua governada pelo socialista Pedro Sánchez, embora o cenário possa mudar rapidamente.
Sánchez convocou eleição antecipada para 29 de novembro, e pesquisas apontam possibilidade de vitória de uma aliança entre o conservador PP e o Vox.
A Reuters descreveu o governo espanhol como um dos últimos grandes governos de esquerda ainda existentes na Europa.
O Reino Unido também permanece sob o Partido Trabalhista. Andy Burnham assumiu como primeiro-ministro em julho depois da saída de Keir Starmer.
O novo governo segue no campo da centro-esquerda e passou a discutir inclusive uma aproximação mais profunda com a União Europeia.
A França, por sua vez, ocupa uma posição intermediária. Emmanuel Macron permanece presidente e Sébastien Lecornu lidera o governo, enquanto Marine Le Pen aparece como principal força da direita radical para a eleição presidencial de 2027.
Direita asiática
Parte das maiores democracias asiáticas também é governada por partidos conservadores ou nacionalistas.
Na Índia, Narendra Modi continua no poder com o Bharatiya Janata Party. O BJP combina conservadorismo, nacionalismo e uma ideologia baseada no Hindutva, que coloca a identidade hindu no núcleo de sua plataforma política.
O Japão é governado por Sanae Takaichi, uma das figuras mais conservadoras do Partido Liberal Democrata.
Seu governo combina aumento de investimentos estratégicos, defesa reforçada e uma política econômica intervencionista, mostrando novamente como direita econômica e conservadorismo político nem sempre significam Estado pequeno.
A Indonésia, sob Prabowo Subianto, é outro caso que escapa de uma classificação simples.
Prabowo tem raízes nacionalistas e conservadoras, mas conduz programas sociais caros e seu governo acaba de apoiar uma legislação que aumentou proteções trabalhistas.
Já a Coreia do Sul, as Filipinas e vários países do Sudeste Asiático possuem coalizões ou sistemas políticos em que a divisão europeia entre esquerda e direita explica apenas parcialmente as disputas internas.
Vermelho comunista
O vermelho mais escuro do mapa deve ser reservado para um grupo muito menor.
A China continua sob a liderança do Partido Comunista Chinês, comandado por Xi Jinping.
O próprio sistema constitucional chinês estabelece a liderança do PCC como elemento central da estrutura política do país.
O Vietnã também permanece sob o Partido Comunista. To Lam foi reconduzido em janeiro à liderança partidária por mais cinco anos e posteriormente acumulou também a Presidência do país.
Cuba segue governada pelo Partido Comunista, ainda que tenha aprovado em junho reformas econômicas que ampliam espaço para empresas privadas, bancos privados e investimentos estrangeiros. O governo afirma que as mudanças não abandonam o modelo socialista.
Laos permanece governado pelo Partido Revolucionário Popular do Laos, enquanto a Coreia do Norte mantém um sistema autoritário dominado pelo Partido dos Trabalhadores e pela família Kim.
No caso norte-coreano, a classificação exige cautela, o regime tem origem comunista, mas desenvolveu uma ideologia própria baseada no Juche e em um sistema político hereditário.
África complexa
A África talvez seja o continente em que um mapa puramente vermelho e azul seja menos preciso.
Em diversos países, a política é estruturada por partidos de libertação nacional, coalizões étnicas, movimentos personalistas, regimes militares ou alianças regionais, e não por uma disputa clássica entre social-democracia e conservadorismo.
A África do Sul, por exemplo, é governada por uma coalizão liderada pelo ANC, historicamente ligado à centro-esquerda, mas que inclui a liberal e pró-mercado Aliança Democrática. Essa composição torna o governo mais adequado a uma classificação intermediária.
No Sahel, a questão é ainda mais difícil. Burkina Faso, Mali e Níger são comandados por regimes militares.
Em abril, Ibrahim Traoré afirmou abertamente que os cidadãos de Burkina Faso deveriam “esquecer a democracia”, depois de seu governo dissolver partidos políticos.
Oriente Médio
O Oriente Médio apresenta o mesmo problema. Israel, sob Benjamin Netanyahu, possui um governo identificado com a direita, embora o país tenha eleições parlamentares marcadas para 27 de outubro e possa mudar de governo ainda neste mês.
Já Irã, Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos não devem ser encaixados automaticamente na escala tradicional usada para democracias partidárias ocidentais.
O Irã é uma república teocrática de orientação religiosa conservadora. As monarquias do Golfo combinam conservadorismo social, forte poder estatal e políticas econômicas que variam entre liberalização e intervenção direta.
São países que podem aparecer próximos ao azul quando se observa apenas valores sociais, mas cujo sistema político exige uma classificação própria.
Direita avança
Mesmo com todas essas ressalvas, existe uma tendência visível. A direita ganhou território político relevante em 2025 e 2026.
Na América Latina, há uma sequência de vitórias conservadoras em Argentina, Chile, Colômbia e Peru, além do avanço da direita no Brasil.
Na Europa, partidos de direita radical cresceram mesmo onde não chegaram ao comando nacional.
A AfD ampliou seu peso na Alemanha, o Vox pressiona o governo espanhol e Marine Le Pen chega a 2027 como uma das principais candidatas à Presidência francesa.
Nos Estados Unidos, Trump voltou ao poder em 2025 e permanece uma das principais referências políticas internacionais da direita. Sua influência aparece explicitamente em eleições latino-americanas, como as de Colômbia e Brasil.
Isso não significa, entretanto, que o mundo tenha se tornado integralmente conservador.
China permanece comunista; México continua governado pela esquerda; Espanha ainda tem um governo socialista; Reino Unido está com os trabalhistas; Canadá permanece com os liberais de Mark Carney; Austrália segue governada pelo Partido Trabalhista; e o Brasil continua sob Lula enquanto espera o segundo turno presidencial.
O que explica
A Ciência Política não trata essa alternância como uma lei mecânica, mas há teorias que ajudam a explicar por que sociedades frequentemente oscilam entre ciclos mais liberais e mais conservadores.
Uma delas é a chamada opinião pública termostática. Quando governos e instituições avançam durante muito tempo em determinada direção, parte do eleitorado passa a demandar correção no sentido oposto, como um termostato político.
Em paralelo, Pippa Norris e Ronald Inglehart desenvolveram a teoria do “cultural backlash”, segundo a qual transformações de longo prazo em temas como costumes, gênero, imigração, diversidade e secularização podem produzir uma reação entre grupos que sentem que seus valores perderam espaço.
Esse movimento ajuda a entender por que discursos de ordem, identidade nacional, segurança, controle migratório e recuperação de valores tradicionais ganharam força em diferentes democracias.
A teoria é influente, mas não consensual, estudos posteriores apontam que fatores econômicos, históricos e institucionais também são decisivos e que não existe um único caminho para a ascensão da direita.
O ciclo atual também pode ser lido como uma reação ao período anterior. Depois de anos marcados por expansão de agendas progressistas, aumento dos gastos públicos durante e após a pandemia, inflação, crise do custo de vida, imigração, guerras, insegurança e desgaste de governos incumbentes, partidos conservadores passaram a oferecer uma promessa de ruptura baseada em ordem, controle fiscal, fronteiras mais rígidas e rejeição às elites políticas tradicionais.
Isso não significa que o eleitorado mundial tenha se tornado permanentemente conservador. Ciclos políticos costumam produzir suas próprias reações, quando governos de direita acumulam desgaste, crises econômicas ou frustrações, partidos de centro e de esquerda podem recuperar espaço.
Fantasma do comunismo
No Brasil, esse movimento conservador encontra terreno em um elemento antigo da disputa política: o “fantasma do comunismo”.
O medo de uma tomada comunista do Estado atravessa diferentes períodos da história nacional e já foi usado para mobilizar parcelas do eleitorado, justificar rupturas institucionais e transformar adversários de esquerda em ameaça ao próprio regime.
Em 1935, setores ligados ao PCB e à Aliança Nacional Libertadora participaram de levantes armados em Natal, Recife e Rio de Janeiro, dentro de uma estratégia que previa a instalação de um governo revolucionário liderado por Luís Carlos Prestes.
O movimento foi rapidamente derrotado. Dois anos depois, porém, o medo voltou a ser explorado com o Plano Cohen, um documento falso apresentado como se revelasse uma nova conspiração comunista e utilizado por Getúlio Vargas para criar o ambiente político que precedeu o Estado Novo.
Décadas mais tarde, a retórica reapareceu em 1964, os militares justificaram a deposição de João Goulart como necessária para conter uma suposta “ameaça comunista”, embora Jango fosse um líder trabalhista do PTB e seu governo defendesse reformas estruturais dentro de uma disputa política muito mais ampla.
Desde a redemocratização, entretanto, o uso eleitoral dessa ameaça ficou muito maior do que qualquer projeto concreto de transformação do Brasil em um Estado comunista.
Nenhum governo federal eleito sob a ordem democrática atual apresentou um projeto institucional para extinguir eleições competitivas, abolir o multipartidarismo, eliminar a propriedade privada e implantar um regime de partido único nos moldes de Cuba ou da China.
Os governos do PT, frequentemente classificados por adversários como “comunistas”, mantiveram economia de mercado, propriedade privada, sistema bancário privado, concessões, investimento estrangeiro e alternância eleitoral.
Ainda assim, a imagem de um país permanentemente ameaçado pelo comunismo continua politicamente eficiente porque desloca o debate das políticas concretas para uma escolha existencial entre dois modelos de sociedade.
Em períodos de polarização, essa linguagem tende a ganhar força justamente porque transforma o adversário não apenas em alguém com propostas diferentes, mas em alguém apresentado como uma ameaça à ordem existente.
Siga nossas redes sociais: O Brasilianista!

