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Geopolítica

Se Flávio vencer, direita comandará 8 de 12 países da América do Sul

Brasil colocaria as quatro maiores economias sul-americanas sob governos de direita ou centro-direita

América do sul mapa
País deixaria o Mercosul com apenas o Uruguai no campo progressista Foto: unplash

Uma vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno de 25 de outubro não representaria apenas uma mudança de governo no Brasil. Ela alteraria a correlação política de toda a América do Sul.

Hoje, com Luiz Inácio Lula da Silva no Planalto, o continente já vive uma sequência de vitórias eleitorais da direita e da centro-direita. Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai e Peru são governados por lideranças desse campo, enquanto a Bolívia encerrou em 2025 quase duas décadas de governos ligados ao Movimento ao Socialismo e passou a ser comandada pelo centrista Rodrigo Paz, que adotou uma agenda econômica mais orientada ao mercado.

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Se Flávio derrotar Lula, oito dos 12 países da América do Sul passariam a ser comandados por governos de direita, centro-direita ou centro com orientação econômica liberal.

Restariam fora desse eixo Uruguai, Guiana, Suriname e Venezuela, esta última sob o governo interino de Delcy Rodríguez e ainda em processo de transição política.

O impacto fica mais evidente quando se olha para o peso econômico desses países.

Dados mais recentes do Banco Mundial colocam Brasil, Argentina, Colômbia e Chile como as quatro maiores economias da América do Sul.

Com Flávio, todas estariam simultaneamente sob governos situados à direita ou centro-direita do espectro político.

A mudança seria mais profunda do que aquela observada em junho, quando O Brasilianista mostrou como a vitória de Keiko Fujimori no Peru ampliava o espaço conservador no continente.

Naquele momento, o Brasil ainda funcionava como principal contrapeso político dessa tendência.

Flávio chegou ao segundo turno em vantagem. Com praticamente todas as urnas apuradas, recebeu 56,1 milhões de votos, ou 47,03% dos votos válidos, contra 53,8 milhões, ou 45,16%, de Lula. A eleição ainda não está decidida e os dois voltam às urnas em 25 de outubro.

Brasil deixaria de ser o principal contrapeso

O Brasil possui a maior economia sul-americana, exerce influência determinante no Mercosul e tradicionalmente participa da articulação política de organismos regionais.

Durante o terceiro mandato de Lula, Brasília manteve uma política externa orientada ao multilateralismo e buscou preservar relações com governos de diferentes orientações ideológicas.

Na Argentina, Javier Milei consolidou um governo liberal-libertário baseado na redução do Estado e em reformas econômicas.

No Chile, José Antonio Kast assumiu a Presidência em março após vencer a eleição de 2025 com 58% dos votos, produzindo a mudança mais acentuada para a direita desde o retorno da democracia chilena.

A Colômbia, que havia se tornado uma referência regional da esquerda durante o governo Gustavo Petro, também mudou de direção.

Abelardo de la Espriella venceu a eleição presidencial de junho com uma plataforma de direita baseada em endurecimento da segurança, redução de impostos e retomada da exploração de petróleo e gás.

No Peru, Keiko Fujimori tomou posse em 28 de julho depois de vencer uma das eleições mais apertadas da história do país.

Sua chegada colocou Lima novamente sob um governo identificado com o conservadorismo e o fujimorismo.

Equador segue sob Daniel Noboa, cuja administração combina política econômica favorável a investimentos privados com uma estratégia de segurança baseada no emprego das Forças Armadas contra organizações criminosas.

No Paraguai, Santiago Peña mantém o Partido Colorado no poder com uma agenda pró-negócios e de baixa tributação.

Quatro das cinco cadeiras do Mercosul

A mudança também alteraria a dinâmica interna do Mercosul. Desde a entrada plena da Bolívia, o bloco possui cinco Estados Partes: Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai. Documentos da cúpula realizada em junho já registram os cinco países nessa condição.

Com uma vitória de Flávio, a configuração ficaria:

PaísGovernoCampo político
ArgentinaJavier MileiDireita liberal/libertária
BolíviaRodrigo PazCentro / centro-direita econômica
BrasilFlávio Bolsonaro*Direita
ParaguaiSantiago PeñaDireita / centro-direita
UruguaiYamandú OrsiCentro-esquerda

*Cenário condicionado à vitória no segundo turno.

Isso deixaria Yamandú Orsi como o único presidente de centro-esquerda entre os cinco integrantes plenos do Mercosul.

Orsi pertence à Frente Ampla e iniciou sua trajetória política dentro da coalizão de esquerda uruguaia.

Desde junho, o Uruguai exerce a presidência pro tempore do bloco e tem defendido aprofundamento da integração regional, multilateralismo e abertura comercial negociada conjuntamente.

Mas o ponto de equilíbrio

Discussões sobre flexibilização das regras comerciais, abertura a acordos externos, segurança de fronteiras, imigração e tamanho da atuação estatal poderiam encontrar um ambiente político mais favorável do que durante o governo Lula.

Do Chile à Colômbia, toda a costa sul-americana do Pacífico ficaria governada pela direita

Há outro desenho que aparece quando o mapa é observado geograficamente.

Os quatro países sul-americanos banhados pelo Pacífico, Chile, Peru, Equador e Colômbia, estariam simultaneamente sob governos de direita ou centro-direita.

Kast no Chile, Fujimori no Peru, Noboa no Equador e De la Espriella na Colômbia formariam uma sequência territorial contínua de governos conservadores ou liberais ao longo da costa oeste do continente.

Alinhamento não é apenas simbólico

Segurança pública aparece como uma das maiores convergências entre essas administrações.

Kast chegou ao governo chileno após uma campanha marcada por endurecimento contra criminalidade e imigração irregular.

De la Espriella fez do combate aos grupos armados e ao narcotráfico uma das bases de sua candidatura. Noboa mantém operações militares contra organizações criminosas no Equador.

A região já começou a criar estruturas que refletem essa prioridade. Chile, Argentina, Bolívia, Equador, Paraguai, Peru e Uruguai formaram em 2026 o Compromisso Regional de Santiago contra o Crime Organizado Transnacional, com grupos de trabalho dedicados a fronteiras, finanças, migração e segurança.

O governo brasileiro de Lula chegou a avaliar uma eventual adesão, mas deixou a decisão para depois da eleição.

Guiana e Suriname 

Ao norte do continente, Guiana e Suriname também permaneceriam fora do novo eixo.

Irfaan Ali foi reeleito presidente da Guiana em setembro de 2025 pelo Partido Progressista Popular/Cívico.

A legenda, tradicionalmente situada no campo de centro-esquerda, venceu com 55% dos votos.

No Suriname, Jennifer Simons tornou-se em julho de 2025 a primeira mulher a assumir a Presidência, depois de uma negociação parlamentar liderada pelo Partido Democrático Nacional.

Os dois países, porém, vivem uma transformação econômica provocada pela exploração offshore de petróleo e gás, o que pode fazer com que relações energéticas e comerciais pesem mais do que alinhamentos ideológicos nas relações com Brasília.

A Guiana já se transformou em uma das economias de crescimento mais acelerado do mundo por causa do petróleo. O Suriname prepara sua própria entrada em grande escala nesse mercado a partir de 2028.

Venezuela

A Venezuela exige uma categoria própria. Delcy Rodríguez permanece como presidente interina depois da captura de Nicolás Maduro em janeiro.

Em setembro, prometeu realizar eleições como parte de uma transição para o que chamou de “democracia plena”, mas ainda não apresentou uma data definida.

Rodríguez veio diretamente do núcleo político chavista, mas seu governo opera hoje num cenário muito diferente daquele das administrações anteriores.

Caracas abriu negociações econômicas com atores internacionais, recebeu novamente interlocução com organismos como o FMI e conduz uma transição sob forte influência externa.

Por isso, classificá-la simplesmente ao lado dos demais governos de esquerda esconde parte da mudança venezuelana.

No mapa abaixo, O Brasilianista mantém a origem política chavista do governo, mas registra sua condição interina e de transição.

Como ficaria o mapa sul-americano se Flávio vencer

PaísChefe de Estado/GovernoClassificação aproximada
ArgentinaJavier MileiDireita liberal/libertária
BolíviaRodrigo PazCentro / centro-direita
BrasilFlávio Bolsonaro*Direita
ChileJosé Antonio KastDireita conservadora
ColômbiaAbelardo de la EspriellaDireita
EquadorDaniel NoboaCentro-direita
GuianaIrfaan AliCentro-esquerda
ParaguaiSantiago PeñaDireita / centro-direita
PeruKeiko FujimoriDireita conservadora
SurinameJennifer SimonsCentro-esquerda
UruguaiYamandú OrsiCentro-esquerda
VenezuelaDelcy RodríguezOrigem chavista / governo interino em transição

*Cenário condicionado à vitória no segundo turno.

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