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Geopolítica

O mundo está virando à esquerda?

Resultados no Brasil e nos EUA alimentam o debate sobre uma reação ao conservadorismo

Mundo
Vitórias da direita na América Latina e mudanças políticas na Europa revelam um cenário menos uniforme (Foto: creative commons)

A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 25 de outubro, e a conquista do Congresso americano pelos democratas, em 3 de novembro, colocaram em discussão a possibilidade de uma mudança no comportamento dos eleitores e no equilíbrio entre forças conservadoras e progressistas.

No Brasil, Lula derrotou Flávio Bolsonaro (PL) com 51,79% dos votos válidos, enquanto a oposição ao presidente Donald Trump conquistou o controle da Câmara dos Representantes e do Senado dos Estados Unidos.

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Os resultados ocorreram em países governados por lideranças de campos políticos distintos, mas foram interpretados por representantes progressistas como sinais de resistência ao avanço conservador.

A hipótese de uma nova maré progressista, entretanto, encontra limites nos resultados de outras eleições.

Chile, Peru e Colômbia escolheram presidentes de direita entre dezembro de 2025 e junho de 2026, enquanto a Hungria encerrou 16 anos de governo de Viktor Orbán com a vitória de uma oposição de centro-direita.

Para Flavio Pierobon, mestre em Ciência Jurídica, especialista em Direito Constitucional, advogado e docente da Universidade Positivo, o fenômeno não representa necessariamente uma conversão ideológica dos eleitores, mas pode indicar mudanças na relação entre a população, os governantes e as instituições democráticas.

Vitória brasileira

Lula conquistou seu quarto mandato presidencial após uma disputa apertada. Segundo a totalização do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), recebeu 64,2 milhões de votos, contra 59,8 milhões de Flávio Bolsonaro, uma diferença de aproximadamente 4,4 milhões.

A vitória não eliminou a força eleitoral da oposição. O PL também elegeu a maior bancada individual da Câmara dos Deputados para a legislatura que começa em 2027, mantendo influência sobre a tramitação de propostas do Executivo.

O resultado demonstra a diferença entre conquistar a Presidência e obter uma maioria legislativa.

Embora Lula permaneça no comando do governo federal, precisará negociar com partidos de orientações distintas para aprovar parte de sua agenda.

"Mas isso não quer dizer que as pessoas aderiram aos programas do PT ou aderiram a um modelo de governar mais à esquerda", afirma Pierobon.

Na avaliação do professor, parte do eleitorado pode ter escolhido o candidato a partir de sua percepção sobre os modelos de governo apresentados, sem necessariamente concordar com todas as propostas partidárias.

Reação americana

Nos Estados Unidos, a derrota republicana ocorreu em uma eleição de meio de mandato, tradicionalmente utilizada pelos eleitores para avaliar a administração presidencial.

Trump não estava nas urnas, mas sua atuação se tornou um dos temas centrais das campanhas.

Os democratas conquistaram cadeiras em estados tradicionalmente republicanos e recuperaram o controle das duas Casas do Congresso.

Uma pesquisa realizada pela Associated Press com mais de 100 mil eleitores apontou que aproximadamente nove em cada dez consideravam o custo de vida uma questão importante ou decisiva para seu voto.

Entre aqueles que atribuíram maior relevância ao problema, cerca de seis em cada dez apoiaram candidatos democratas à Câmara.

O levantamento também identificou insatisfação com as tarifas comerciais, os preços dos combustíveis e a condução da economia.

A pesquisa de boca de urna da CBS News registrou aprovação de 38% para Trump entre os entrevistados.

Aproximadamente seis em cada dez afirmaram que o presidente influenciou sua escolha para a Câmara.

Repercussão internacional

A vitória brasileira recebeu manifestações de líderes de diferentes orientações políticas.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou que a democracia e o multilateralismo haviam prevalecido no Brasil e defendeu a continuidade da cooperação comercial e ambiental.

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, associou o resultado a uma possível retomada internacional do progressismo.

Já o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, interpretou a reeleição de Lula como um acontecimento relevante para forças progressistas e países do Sul Global.

Entretanto, governantes conservadores também felicitaram o presidente brasileiro.

José Antonio Kast, do Chile, e Daniel Noboa, do Equador, destacaram interesses de cooperação entre seus países e o Brasil.

Direita vitoriosa

O cenário latino-americano apresenta resultados que dificultam a identificação de uma tendência única.

Em dezembro de 2025, José Antonio Kast venceu a eleição presidencial chilena com aproximadamente 58% dos votos, derrotando Jeannette Jara, candidata apoiada pela coalizão governista de esquerda.

Segurança pública e imigração estiveram entre os principais temas da disputa.

No Peru, a conservadora Keiko Fujimori foi declarada vencedora da eleição presidencial em julho de 2026.

Ela obteve 50,135% dos votos no segundo turno, contra 49,865% de Roberto Sánchez, em uma disputa decidida por aproximadamente 50 mil votos.

Na Colômbia, Abelardo de la Espriella, candidato de direita apoiado por Trump, venceu o segundo turno em junho, encerrando o período presidencial do governo de esquerda de Gustavo Petro.

Esses resultados ocorreram antes das eleições brasileiras e americanas, mas fazem parte do mesmo período de disputas políticas internacionais.

Em cada país, questões domésticas, como segurança, economia e avaliação dos governos, tiveram papel relevante.

Exemplo húngaro

A Hungria apresentou outra combinação política. Em abril de 2026, Viktor Orbán perdeu o poder depois de 16 anos, derrotado pelo partido Tisza, liderado por Péter Magyar.

Orbán havia se tornado uma referência internacional para movimentos nacionalistas e conservadores, especialmente por suas posições sobre imigração, soberania nacional e instituições europeias.

O vencedor, entretanto, não pertence à esquerda. Magyar representa uma alternativa de centro-direita e construiu sua campanha com críticas à corrupção, à concentração de poder e à situação econômica húngara.

A derrota de Orbán, portanto, demonstra que a rejeição a um governo conservador não resulta necessariamente na eleição de uma alternativa progressista.

Pierobon utiliza o conceito de democracia iliberal para discutir modelos de governo nos quais, segundo sua interpretação, instituições democráticas podem perder garantias e mecanismos de controle.

"Eu acho que o que está acontecendo é um reequilíbrio no campo democrático", destaca o advogado.

Próximas disputas

A Espanha será um dos próximos países a realizar eleições gerais, marcadas para 29 de novembro de 2026.

O primeiro-ministro Pedro Sánchez, que comemorou a reeleição de Lula como um sinal de retomada progressista, enfrentará uma disputa marcada por questões econômicas, habitação e críticas à sua administração.

Na França, o primeiro turno presidencial está marcado para 18 de abril de 2027, com eventual segundo turno em 2 de maio.

A disputa envolverá diferentes correntes políticas, incluindo a direita nacionalista do Reagrupamento Nacional e partidos de centro e esquerda.

Para Pierobon, o resultado brasileiro e o americano podem ser examinados a partir da rejeição de parte do eleitorado a determinadas práticas políticas, sem pressupor uma mudança generalizada de preferência ideológica.

"Eu acho que é um bom sinal porque nós estamos conseguindo materializar um escudo, vamos dizer assim, uma forma de nos opormos a governos que são radicais e que, para chegar no poder, vendem soluções simples para problemas difíceis", ressalta o docente.

Na Espanha, o desempenho do PSOE de Sánchez, do Partido Popular e do Vox permitirá observar a distribuição dos votos entre esquerda, centro-direita e direita nacionalista.

Já na França, o resultado dependerá das candidaturas apresentadas e da formação de alianças entre os dois turnos.

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