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Geopolítica

“Não nos ajoelharemos”: confira as falas mais polêmicas da Assembleia Geral da ONU

Masoud Pezeshkian rejeitou uma rendição aos Estados Unidos, defendeu o programa nuclear iraniano e condicionou a livre navegação no estreito

Falas Assembleia Geral da ONU
Macron contestou a situação em Gaza e Milei atacou a atuação da ONU e cobrou o Reino Unido pelas Malvinas Foto: reprodução

Um dia depois de Donald Trump usar a tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas para ameaçar “aniquilar” a República Islâmica caso não haja um acordo, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, respondeu do mesmo púlpito nesta quarta-feira (23).

Teerã diz que aceita negociar, mas rejeita qualquer acordo apresentado sob ameaça e mantém restrições à navegação pelo Estreito de Ormuz enquanto persistirem a pressão militar e as sanções americanas.

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“Nós apenas nos defendemos. Não somos terroristas”, afirmou Pezeshkian. Ao falar diretamente dos ataques americanos, acrescentou: “Sim, eles nos atingiram, mas não nos ajoelhamos”. 

Durante o pronunciamento, o presidente iraniano exibiu fotografias do falecido líder supremo Ali Khamenei.

A fala iraniana abriu o segundo dia de discursos com uma resposta direta à pressão apresentada por Trump na véspera, mas não foi a única intervenção a expor as divisões que atravessam a Assembleia deste ano. 

Irã responde

Estados Unidos e Irã estão em guerra há quase sete meses, ao mesmo tempo em que representantes dos dois países voltaram a manter contatos diplomáticos em Nova York.

Trump havia defendido no dia anterior a ofensiva americana e apresentado duas possibilidades para Teerã, um acordo ou uma nova escalada militar.

Pezeshkian respondeu acusando o presidente americano de adotar uma “mentalidade de intimidação”.

Segundo ele, ameaças não fariam o país abandonar suas posições. “O povo iraniano não se curvará à pressão”, declarou.

Ao mesmo tempo, repetiu durante o discurso que seu governo continua disposto a resolver o conflito por negociação, desde que não seja obrigado a aceitar o que chamou de linguagem da força.

A delegação dos Estados Unidos deixou o plenário no início da fala iraniana. Um dia antes, integrantes da delegação do Irã também haviam deixado o recinto durante as críticas de Trump a Teerã.

Pezeshkian dedicou parte importante do pronunciamento à versão iraniana sobre a origem e a condução da guerra.

Ele acusou Estados Unidos e Israel de terem atacado civis e mostrou imagens relacionadas ao bombardeio de uma escola primária em Minab, em 28 de fevereiro.

Autoridades iranianas dizem que mais de 175 crianças e professores morreram. Uma apuração interna preliminar das Forças Armadas americanas considerava provável que forças dos EUA fossem responsáveis pelo ataque; o Pentágono ainda não tornou pública sua investigação final.

A utilização das imagens serviu para rebater a descrição feita por Trump do Irã como patrocinador do terrorismo.

Pezeshkian afirmou que seu país foi, na realidade, vítima de terrorismo e de agressões externas.

A afirmação representa a posição do governo iraniano e é contestada por Washington, que acusa Teerã de financiar e apoiar grupos armados na região.

Ormz como moeda de negociação

Pezeshkian também colocou o Estreito de Ormuz entre os pontos mais importantes de sua fala.

Antes da guerra, cerca de um quinto do petróleo comercializado mundialmente passava pela passagem marítima, que conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã. O tráfego comercial permanece muito abaixo dos níveis anteriores ao conflito.

Segundo o presidente iraniano, não seria aceitável que outros países utilizassem normalmente a rota marítima enquanto o próprio Irã estivesse submetido a bloqueios e impedimentos sobre sua navegação.

Ele vinculou a retomada integral do trânsito pelo estreito ao fim das restrições impostas ao país.

Na véspera do discurso, um alto funcionário iraniano já havia informado que Teerã poderia reabrir Ormuz em até sete dias se Washington diminuísse a pressão militar e suspendesse o bloqueio sobre portos iranianos.

A delegação enviada a Nova York recebeu autorização para negociar um possível acordo, segundo essa fonte.

“Energia nuclear, não uma bomba”

Outro trecho extenso foi dedicado ao programa nuclear iraniano. Pezeshkian voltou a negar que Teerã esteja buscando uma arma atômica e afirmou que o país não aceitará abandonar tecnologia nuclear para fins civis.

“O Irã precisa de energia nuclear, não de uma bomba atômica”, disse. Em seguida, acusou Israel de possuir armamento nuclear enquanto o Irã permanece submetido a sanções e inspeções internacionais.

A formulação também apareceu de maneira resumida em outro trecho: “Nem armas nucleares, nem abrir mão do conhecimento nuclear”.

A mensagem estabelece a posição que Pezeshkian levou para eventuais negociações, o governo aceita reiterar que não produzirá bombas, mas rejeita abrir mão do domínio de tecnologia nuclear considerada pacífica por Teerã.

Esse ponto está entre os principais obstáculos de qualquer novo entendimento com Washington.

Trump afirmou na terça-feira que os Estados Unidos não aceitarão que o Irã obtenha uma arma nuclear e voltou a vincular um acordo ao futuro do programa iraniano.

Palestina

Pezeshkian ainda tratou da questão palestina e relacionou os conflitos atuais à incapacidade da comunidade internacional de produzir soluções políticas duradouras.

Na argumentação iraniana, a continuidade da ocupação e das disputas territoriais alimenta movimentos de resistência, mesmo quando organizações específicas são enfraquecidas.

Gaza foi apresentada pelo presidente iraniano como exemplo do fracasso de mecanismos internacionais na proteção de civis. 

Macron questiona “paz” em Gaza

Nesta terça-feira (22) em seu último discurso na Assembleia Geral, antes do fim de seu mandato, previsto para o próximo ano, Emmanuel Macron contestou a maneira como Trump apresentou a situação de Gaza.

“Alguns se gabam de uma suposta paz”, afirmou o francês. Macron disse que a proclamação de paz não havia produzido a reabertura do acesso humanitário ao território e classificou o que ocorre no enclave como um “espetáculo que deveria envergonhar a todos”.

A Casa Branca contestou a avaliação. Em resposta, afirmou que Trump encerrou a guerra entre Israel e Hamas, conseguiu a libertação de reféns e conduz a implementação de seu plano de 20 pontos para Gaza.

Macron também voltou a defender a criação de um Estado palestino e criticou a violência e a expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia.

Uma declaração do francês sobre a atuação do Hamas no território provocou reação de Israel; posteriormente, uma fonte diplomática francesa afirmou que ele se referia ao fato de o grupo nunca ter governado a Cisjordânia, e não à inexistência de operações do Hamas na região.

O francês ampliou a crítica para o próprio sistema internacional. Alertou para o “retorno à lei da selva” e defendeu que os países continuem apoiando a ONU e as regras multilaterais.

Ormuz também apareceu em sua intervenção. Macron afirmou que a passagem marítima não deveria ser utilizada como forma de “chantagem” e disse que a restauração da liberdade de navegação é prioridade para a França.

Milei chama ONU de “inútil”

Nesta quarta-feira, Javier Milei adotou outra linha de crítica às Nações Unidas. O argentino voltou a atacar o funcionamento da instituição e concentrou parte relevante de seu pronunciamento na disputa com o Reino Unido pelas Ilhas Malvinas, chamadas de Falkland Islands pelos britânicos.

“As Malvinas, para nós, são uma causa nacional”, afirmou. Em outro momento, disse que não faltavam manifestações internacionais sobre a disputa: “Não faltam palavras nem resoluções. O que falta são consequências”.

Milei classificou a ONU como uma organização “inútil” e argumentou que a instituição não conseguiu transformar suas resoluções sobre a disputa territorial em uma negociação efetiva entre Londres e Buenos Aires.

O pronunciamento ocorre em meio a uma nova escalada diplomática sobre o arquipélago.

O governo argentino abriu procedimentos para sancionar mais de 60 empresas e pessoas ligadas ao projeto de exploração de petróleo Sea Lion e apresentou um projeto de lei para endurecer punições contra atividades que Buenos Aires considera não autorizadas em áreas marítimas reivindicadas pelo país.

O governo britânico rejeita essa interpretação. Uma representante do Reino Unido afirmou que as medidas argentinas são “inaceitáveis”, reiterou que as ilhas são britânicas e defendeu o direito dos moradores do arquipélago de explorar seus recursos naturais.

Milei disse que a Argentina continuará pedindo ao Reino Unido a retomada das negociações, mas afirmou que seu governo não pretende apenas esperar por uma ação das Nações Unidas. 

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