A Polícia Federal identificou elementos que apontam para a participação individualizada de integrantes da Diretoria Colegiada do Banco de Brasília (BRB) nas decisões relacionadas às operações com o Banco Master.
A informação consta de um novo laudo pericial produzido pela corporação, que apontou possíveis falhas de governança, concentração excessiva de risco e aprovação de operações fora dos procedimentos internos de controle.
Diante dos novos elementos, a PF pediu ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), mais 60 dias para concluir o inquérito.
O pedido também prevê a realização de depoimentos dos integrantes da diretoria que participaram das deliberações analisadas.
Os nomes não foram divulgados. A perícia passou a individualizar condutas que ainda não apareciam formalmente entre os investigados, enquanto a PF aguarda documentos do Banco Central sobre o prejuízo causado pelas operações ao BRB.
O elo entre Vorcaro e os dirigentes do BRB
A apuração sobre a cúpula do BRB já tinha como principal personagem Paulo Henrique Costa, que presidiu a instituição até novembro de 2025.
O Brasilianista mostrou que os acionistas do banco foram convocados para avaliar medidas contra antigos administradores envolvidos na gestão durante o período investigado.
Costa está preso sob suspeita de ter recebido R$ 146,5 milhões em vantagens indevidas para facilitar negociações entre o BRB e o Master.
A defesa nega irregularidades e sustenta que as decisões da instituição eram tomadas de maneira colegiada.
Agora, a PF analisa outros integrantes da diretoria que participaram das decisões.
O foco da nova perícia está no funcionamento interno do banco e na forma como determinadas operações foram aprovadas.
A operação que aproximou os dois bancos
A relação entre as instituições ganhou dimensão antes da tentativa de compra do Master pelo BRB.
O banco estatal adquiriu ativos e carteiras vinculados à instituição de Daniel Vorcaro em operações que passaram a ser examinadas pelo Banco Central e pela Polícia Federal.
O Brasilianista registrou que o Banco Central rejeitou, em julho de 2025, a aquisição do Master pelo BRB após identificar movimentações atípicas e exposição acima dos limites da instituição estatal.
O Banco Central havia identificado R$ 16,8 bilhões em carteiras de crédito transferidas para o Master.
O Brasilianista destacou que o impacto financeiro poderia alcançar R$ 30 bilhões. A estimativa considerava cerca de R$ 8,9 bilhões em carteiras consideradas problemáticas e outros R$ 21 bilhões em ativos adquiridos do Master que ainda precisavam ser absorvidos ou encontrar compradores.
Os ativos que ficaram no BRB
A qualidade das carteiras adquiridas passou a ser outro eixo da investigação.
O Brasilianista informou que aproximadamente R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito adquiridas pelo BRB foram consideradas falsas ou problemáticas pela investigação.
Outros R$ 21,9 bilhões em ativos comprados do Master encontravam dificuldades para encontrar compradores.
O Brasilianista mostrou que R$ 5,7 bilhões em créditos classificados como atípicos pelo Banco Central foram transferidos para fundos e para o BRB entre junho e agosto de 2025.
Desse montante, cerca de R$ 1 bilhão foi destinado ao banco estatal. A documentação também registrou R$ 2,9 bilhões direcionados ao fundo Máxima 2, ligado ao grupo Master, e R$ 1,6 bilhão para três fundos relacionados à Reag Investimentos.
O outro lado da investigação: o Banco Central
A apuração sobre Vorcaro não ficou restrita às instituições que participaram diretamente das operações.
Dois ex-integrantes da cúpula do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, são investigados por suspeitas de recebimento de vantagens indevidas e de atuação em favor dos interesses do banqueiro.
As defesas negam favorecimento e afirmam que ambos exerceram suas funções regularmente.
Em depoimento à Polícia Federal, o atual diretor de Fiscalização do BC, Ailton de Aquino, relatou que os dois participaram de reuniões com investigadores que tratavam de possíveis ilícitos relacionados ao Master.
Um dos assuntos discutidos nessas reuniões eram justamente as cessões de carteiras de crédito para o BRB. A outra frente mencionada envolvia fundos ligados à Reag.
A pressão sobre o caixa do banco
Os efeitos das operações também levaram o BRB a buscar alternativas para reorganizar seus ativos e reforçar sua estrutura financeira.
O Brasilianista registrou que o banco encerrou uma negociação com a Quadra Capital envolvendo R$ 15 bilhões em ativos relacionados ao Master.
A proposta previa um aporte entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões e a transformação do restante em cotas subordinadas de um fundo.
A operação não avançou nas condições inicialmente discutidas. O BRB informou que as diligências necessárias não foram concluídas e que alterações no projeto estavam sendo analisadas.
Paralelamente, o banco buscou uma estrutura de capitalização de R$ 6,6 bilhões e apoio do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e de outras instituições financeiras.
O Brasilianista também registrou a proposta do Governo do Distrito Federal para utilizar imóveis na recomposição financeira.
O pacote inicialmente estimado em R$ 6,6 bilhões acabou reduzido para aproximadamente R$ 3,6 bilhões depois de questionamentos jurídicos e de órgãos de controle.
Os depósitos judiciais
A situação do BRB alcançou ainda recursos administrados em nome dos Tribunais de Justiça.
O Brasilianista informou que o Conselho Nacional de Justiça solicitou informações sobre depósitos judiciais administrados pelo banco. O volume analisado chegava a aproximadamente R$ 30,6 bilhões.
A preocupação também apareceu entre magistrados de diferentes estados. Desembargadores de cinco Tribunais de Justiça procuraram integrantes do Tribunal de Contas do Distrito Federal para obter informações sobre os recursos administrados pelo BRB.
Os valores estavam ligados a processos de Alagoas, Bahia, Distrito Federal, Maranhão e Paraíba.
Na Bahia, o Tribunal de Justiça decidiu não renovar o contrato com o BRB para novos depósitos judiciais.
A partir de 28 de agosto, novos depósitos e bloqueios serão direcionados à Caixa Econômica Federal.
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