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Justiça

PF vê critérios diferentes de Mendonça para ACM Neto e Lulinha

Relatório de inteligência compara decisões do ministro nos casos Master e INSS e levanta suspeita de tratamento distinto conforme o espectro político

André Mendonça x ACM Neto x Lulinha
André Mendonça relata no STF investigações relacionadas ao Banco Master e às fraudes no INSS Foto: Marcelo Camargo/Valter Campanato/Agência Brasil/Creative commons

Um relatório de inteligência da Polícia Federal colocou ACM Neto (União Brasil) e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, lado a lado para questionar a atuação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), em duas investigações sob sua relatoria.

O documento, obtido pelo jornalista Matheus Simoni, do BNews, sustenta que o magistrado teria utilizado critérios diferentes ao analisar situações que a própria PF considera semelhantes.

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A avaliação aparece em uma seção intitulada “Indicadores de assimetria por espectro político”.

A conclusão faz parte de um relatório interno de inteligência e não comprova que Mendonça tenha efetivamente agido por motivação política. 

O documento é classificado pela própria PF como sem valor probatório e contém avaliações com diferentes graus de confiança.

Caso ACM Neto

Segundo o documento, Mendonça participou de uma reunião presencial em 13 de agosto de 2026 na qual teria manifestado uma avaliação preliminar sobre a atuação de ACM Neto no Caso Master.

O ex-prefeito de Salvador aparece nas investigações em razão de R$ 3,6 milhões pagos pelo Banco Master e pela Reag Investimentos à empresa de consultoria ligada ao político entre março de 2023 e maio de 2024.

ACM Neto confirma o recebimento, mas afirma que os valores correspondem a um contrato regular de consultoria político-econômica, com recolhimento de impostos e declaração à Receita Federal.

No relatório, a PF registra que Mendonça teria avaliado que Neto “aparentaria estar exercendo atividade de representação de interesses dentro dos limites do permitido”, registra o documento policial.

A observação chamou a atenção dos investigadores porque eles compararam essa postura com a adotada em relação ao filho do presidente Lula.

Caso Lulinha

Fábio Luís Lula da Silva aparece em outra investigação, relacionada aos desdobramentos da Operação Sem Desconto, que apura fraudes envolvendo o INSS.

A Polícia Federal abriu três inquéritos relacionados a suspeitas de tráfico de influência e corrupção.

Mensagens envolvendo Lulinha foram encontradas no celular da empresária e lobista Roberta Luchsinger, apontada nas investigações como operadora de Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.

A defesa do filho do presidente afirma que as acusações são “ilações sem lastro”, sustentam os advogados, e argumenta que houve utilização política e eleitoral da investigação.

Também questiona a legalidade da quebra de sigilo e acusa a PF de realizar uma “pescaria probatória”.

Ao comparar os dois casos, os investigadores afirmam que as situações possuem “similaridade relevante”, avalia a Polícia Federal.

Duas réguas

É a partir dessa comparação que o relatório apresenta uma das acusações mais sensíveis contra Mendonça.

Segundo a PF, haveria “adoção de standards probatórios distintos conforme o espectro político”, conclui o relatório de inteligência.

Na interpretação policial, o ministro teria demonstrado maior tolerância na análise de fatos relacionados a ACM Neto e adotado postura mais rigorosa quando a investigação alcançou Lulinha.

O documento, entretanto, não apresenta uma decisão judicial que reconheça favorecimento político nem prova, por si só, que os posicionamentos do ministro tenham sido motivados pela orientação partidária dos envolvidos.

O próprio relatório possui natureza analítica. O material não é assinado por delegado, declara não possuir valor probatório e trabalha com inferências que, em alguns pontos, recebem grau de confiança baixo ou moderado.

Rueda e Neto

O BNews revelou ainda outro episódio usado pela PF para sustentar a hipótese de tratamento assimétrico.

O caso envolve Antonio Rueda, presidente nacional do União Brasil, e ACM Neto.

Segundo o relatório, Mendonça teria sugerido que as apurações envolvendo os dois fossem divididas em petições diferentes, mesmo diante do que a PF chamou de “conexão aparente” entre as condutas analisadas.

Os investigadores compararam a orientação com uma situação ocorrida em julho, quando Mendonça teria se manifestado contra a separação de outra frente investigativa.

Naquela ocasião, segundo a análise policial, os fatos não apresentariam o mesmo nível de conexão.

A PF considera que essa diferença de postura reforça sua hipótese de que critérios distintos teriam sido aplicados em situações processuais comparáveis.

Crise no STF

O relatório foi incorporado à crise que colocou Mendonça e Alexandre de Moraes em lados opostos dentro do Supremo.

Moraes utilizou documentos produzidos pela Polícia Federal ao pedir ao presidente da Corte, Edson Fachin, providências diante do que classificou como indícios de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade na condução das investigações do Master e do INSS.

A PF também produziu relatos segundo os quais Mendonça teria interferido excessivamente na condução das investigações, solicitado apurações específicas e assumido funções que deveriam permanecer sob responsabilidade dos investigadores.

As acusações aparecem justamente depois de Mendonça determinar diligências que alcançaram a relação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.

A Procuradoria-Geral da República, comandada por Paulo Gonet, já questionou a legalidade de parte dessas diligências e defendeu a anulação de medidas determinadas pelo relator sem provocação da PF ou do Ministério Público.

Fachin decide

Fachin ainda terá de definir como a crise será encaminhada dentro do Supremo.

O presidente da Corte determinou que Moraes, Mendonça, a PGR e a direção da Polícia Federal se manifestem em cinco dias sobre os acontecimentos que provocaram o confronto institucional.

O gabinete de Mendonça ainda não apresentou uma resposta específica às acusações de assimetria envolvendo ACM Neto e Lulinha.

O Brasilianista permanece aberto a manifestações das defesas e dos demais citados nesta reportagem. Eventuais posicionamentos enviados após a publicação serão acrescentados ao texto.

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