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Justiça

As dívidas da amiga de Lulinha

Roberta Luchsinger e suas empresas acumulam cobranças judiciais e R$ 1,1 milhão em débitos tributários

Roberta Luchsinger
Credores relatam prejuízos enquanto empresária exibe viagens e rotina de luxo nas redes sociais Foto: reprodução/redes sociais

A empresária Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, acumula processos por dívidas em São Paulo e Minas Gerais e tem duas empresas com mais de R$ 1,1 milhão em débitos tributários.

As cobranças envolvem impostos, aluguel, mensalidades escolares, compras de roupas, serviços de publicidade e dívidas trabalhistas

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Em alguns dos nove processos, oficiais de Justiça tiveram dificuldades para localizar Roberta nos endereços informados e não encontraram dinheiro em contas ou bens suficientes para penhora.

Em duas ações, a empresária chegou a pedir gratuidade da Justiça sob a alegação de não possuir recursos para arcar com as custas processuais. 

O histórico ganhou atenção pelo contraste com a rotina publicada por Roberta nas redes sociais, onde aparecem viagens internacionais, hospedagens em hotéis de luxo, restaurantes e vinhos caros. 

R$ 1,1 milhão

Roberta é proprietária da RL Consultoria e Intermediações S.A. e da produtora Elephant 2 Produções Ltda.

As duas empresas acumulam aproximadamente R$ 1,1 milhão em impostos não pagos à União e à Prefeitura de São Paulo.

Dados da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional mostram que a RL Consultoria possui R$ 821.090,57 em débitos de tributos federais.

A companhia deve ainda R$ 199.713,99 em Imposto Sobre Serviços (ISS) à Prefeitura de São Paulo, que acionou a Justiça para cobrar o valor. O imposto municipal não vinha sendo pago havia cerca de cinco anos.

A Elephant 2, por sua vez, registra R$ 54.746,42 em dívida com a União e outros R$ 27.857,68 em ISS com o município de São Paulo.

Somados, os débitos tributários das duas empresas chegam a cerca de R$ 1,1 milhão.

Filme frustrado

Um dos maiores prejuízos relatados envolve o aposentado Lauro Escobosa Vallejo.

Em 2016, Roberta e uma sócia apresentaram um projeto para produzir um documentário sobre Horacio Pagani, criador da fabricante italiana de carros esportivos de luxo.

O filme teria orçamento de cerca de US$ 4 milhões, que seriam obtidos de um suposto fundo do Bahrein.

Enquanto o dinheiro não era liberado, o projeto precisava de um empréstimo de US$ 300 mil para iniciar a produção.

Lauro aceitou ser avalista da operação e colocou como garantia uma fazenda com pousada em São Tomé das Letras, em Minas Gerais. O imóvel foi avaliado em aproximadamente R$ 8 milhões.

O investimento prometido não chegou, o empréstimo não foi quitado e a garantia acabou executada.

Lauro tentou recuperar o imóvel na Justiça, mas perdeu as ações. Os magistrados entenderam que ele havia assumido o risco ao assinar o contrato.

O aposentado afirmou que a propriedade concentrava seu patrimônio e seus planos pessoais.

Roberta declarou que também teria sido enganada pelo responsável pelo investimento e sustentou que Lauro conhecia os riscos da operação.

Tapeceiro cobrou

Nas redes sociais, ela tem 26,6 mil seguidores no Instagram, cuja biografia possui uma hashtag de apoio à Lula.

Outro processo começou em 2011, quando o tapeceiro Nilton Cezar Pires foi contratado para reformar estofados, camas e revestimentos de uma residência de Roberta.

O serviço custou R$ 61 mil. Segundo Nilton, foram pagos inicialmente R$ 25 mil, mas o restante não foi quitado.

O profissional acionou a Justiça e obteve decisões favoráveis, inclusive no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Durante o processo, foram realizados acordos para pagamento, mas o tapeceiro afirmou que os compromissos foram descumpridos. A Justiça chegou a determinar a penhora de bens da empresária.

Nilton relatou que a falta do dinheiro atingiu diretamente seu negócio. Segundo ele, foi necessário vender um carro para manter despesas como funcionários e aluguel do estabelecimento.

Ao comentar as publicações de viagens de Roberta, afirmou que a situação provocava frustração.

Portinari falso

O processo do tapeceiro teve ainda um episódio envolvendo obras de arte. Roberta ofereceu uma coleção de 14 gravuras que afirmou serem originais de Cândido Portinari, avaliando o conjunto em R$ 70 mil.

As gravuras foram entregues ao credor e o processo foi encerrado em 2019. O Fantástico posteriormente procurou o Projeto Portinari, criado pelo filho do artista, que informou que as peças eram reproduções, e não obras originais de Portinari.

Nilton não havia conseguido contratar um perito para avaliar as peças quando as recebeu.

Outros credores

As cobranças também alcançam despesas pessoais e profissionais de Roberta. Em 2017, uma escola localizada no Jardim América, bairro de alto padrão de São Paulo, foi à Justiça cobrar R$ 91 mil em mensalidades da filha da empresária. Segundo o levantamento, o débito não foi pago.

No mesmo ano, uma loja de roupas cobrou uma compra de R$ 6.124. Em 2023, após correções, o débito já ultrapassava R$ 21 mil. A Justiça tentou localizar dinheiro e outros bens para pagamento.

Nesse processo, Roberta ofereceu como garantia uma obra que declarou valer R$ 100 mil. O quadro foi penhorado, mas não foi localizado antes do leilão.

O mesmo objeto apareceu posteriormente em outro processo e acabou avaliado por um perito em R$ 5 mil.

Campanha eleitoral

Ela virou alvo da PF no âmbito da Operação Sem Desconto e já sofreu mandados de busca e apreensão, bloqueio de bens e valores e determinação para uso de tornozeleira eletrônica.

Outra cobrança envolve a tentativa de Roberta de disputar as eleições de 2022. Uma agência de publicidade foi contratada para produzir fotografias, vídeos e outros materiais de sua pré-campanha a deputada federal.

O serviço custava R$ 42 mil, mas, segundo a ação, apenas R$ 4,2 mil foram pagos. Roberta posteriormente desistiu de concorrer naquele pleito.

Há ainda processos trabalhistas movidos por uma babá e uma empregada doméstica contratadas em 2016.

As duas afirmaram ter sido dispensadas sem receber verbas rescisórias e outros direitos, além da ausência de recolhimentos de FGTS.

A Justiça tentou localizar bens para quitar as dívidas, mas não encontrou patrimônio em nome da empresária.

Os processos acabaram prescritos, e as trabalhadoras não receberam valores que, somados, ultrapassavam R$ 50 mil.

Aluguel atrasado

Entre 2019 e 2023, Roberta também morou em um apartamento de alto padrão em Higienópolis, na região central de São Paulo.

Os proprietários, um casal de idosos que utilizava o aluguel para complementar a aposentadoria, entraram com ação de despejo em 2020 por falta de pagamento de aluguel, condomínio e IPTU.

Roberta deixou o imóvel em março de 2023 depois de sucessivos acordos. A dívida chegou perto de R$ 500 mil, mas, diferentemente de outros casos, acabou sendo integralmente quitada em maio de 2024.

Um dos proprietários morreu durante o andamento da cobrança, antes de receber o valor.

Vida de luxo

Luschinger supostamente se apresenta como uma pessoa com acesso a estrutura de poder importantes, com capacidade de influenciar decisões políticas.

Enquanto essas cobranças avançavam na Justiça, Roberta continuava publicando imagens de viagens e de uma rotina de alto padrão.

Existem registros da empresária em destinos internacionais, hotéis e restaurantes. 

No processo do tapeceiro, por exemplo, Nilton afirmou que acompanhava as viagens publicadas pela empresária enquanto aguardava o pagamento pelo trabalho realizado anos antes.

Amiga de Lulinha

Como mostrou O Brasilianista, Roberta também está sob investigação da Polícia Federal em inquéritos que analisam suspeitas de tráfico de influência e corrupção envolvendo sua atuação junto a órgãos do governo federal.

Segundo a PF, a empresária recebeu R$ 1,5 milhão para atuar em interesses de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS.

Os investigadores analisam se ela utilizava contatos com autoridades e com Lulinha para tentar abrir portas para negócios privados na administração pública.

A PF também apura pagamentos e despesas bancadas por Roberta para pessoas próximas. Entre os investigados está Lulinha, amigo da empresária, cuja defesa nega que ele tenha recebido valores em troca de influência dentro do governo.

As investigações criminais são independentes dos processos sobre dívidas apresentados pelo Fantástico. As cobranças judiciais não comprovam, por si, as suspeitas investigadas pela Polícia Federal.

O que Roberta diz

A empresária encaminhou uma lista com os números dos processos, seus respectivos status e informações sobre os valores discutidos.

No caso da fazenda em Minas Gerais, afirmou que também havia sido vítima de um golpe relacionado ao financiamento do documentário e que o avalista tinha conhecimento dos riscos do negócio.

Algumas das ações mencionadas já foram encerradas, seja por pagamento, prescrição ou outras decisões judiciais.

Outras registram valores que permaneceram sem pagamento aos credores.

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