Depois de alguns meses na mira da Polícia Federal (PF), bem como diversos vazamentos e revelações, o cerco em torno de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, parece mais fechado do que nunca.
Foram Três inquéritos abertos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em menos de uma semana. Mas há também notícias sobre a PF encontrando detalhes de supostos esquemas em conversas de WhatsApp.
Como se não bastasse, Lulinha, que sempre negou ter cometido irregularidades, tem que explicar os R$ 19,5 milhões movimentados em quatro anos e as tentativas de fechar mais de R$ 1,8 bilhão em contratos com o Ministério da Saúde.
Esses são os principais fios soltos nas investigações, que ainda não definiram se Lulinha lucrou diretamente com os negócios possivelmente fechados usando o sobrenome e influência do pai, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Tentativas que não saíram do papel
O núcleo mais recente das investigações da Polícia Federal aponta três tratativas de Lulinha, da lobista Roberta Luchsinger e do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, para fechar contratos no Ministério da Saúde.
A mais ambiciosa envolvia a venda de R$ 627 milhões em medicamentos à base de canabidiol. As demais incluem a entrega de testes de diagnóstico para dengue e outras arboviroses, bem como parcerias produtivas através da Indústria Química do Estado de Goiás S.A. (Iquego), laboratório público ligado ao governo de Goiás.
Nenhuma das três avançou. O Ministério da Saúde afirmou que as iniciativas não tiveram qualquer encaminhamento ou repercussão e que suas compras seguem concorrências públicas.
Nesse contexto, a PF sustenta um suposto crime de tráfico de influência, em que Lulinha atuava em "comunhão de interesses econômicos" com Roberta e seria beneficiário indireto das ações da lobista.
Reportagem da Veja obteve documentos que descrevem um grupo de atuação permanente formado por Roberta, Lulinha e Fernando Bittar — ex-sócio de Lulinha e um dos donos formais do sítio de Atibaia, caso que remonta à Lava Jato.
O trio se autobatizou de "Musaranhos", em referência a um grupo de WhatsApp. Nas mensagens, Roberta Luchsinger escreve que Lulinha "não faz nada" no dia a dia das tratativas, mas "entra em campo quando precisa" e funciona como "referência decisória".
O Brasilianista já havia mostrado que Roberta Luchsinger aparentava ter autorização para atuar em nome de Lulinha. Em uma das conversas analisadas pelos investigadores, a empresária afirmou: “Eu sou o Fabio”.
Segundo a apuração, Lulinha viabilizou uma reunião entre Roberta e o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, Swedenberger Barbosa. O mesmo encontro resultou, depois, no envio de uma minuta liberando a produção de canabidiol a Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula.
Vale lembrar que não há, até o momento, qualquer documento oficial, como contrato ou pagamento, que comprove tráfico de influência, ou que o valor tenha efetivamente entrado no bolso de Lulinha em razão dessas tratativas.
Assim como Lulinha, Roberta Luchsinger sempre negou ter cometido irregularidades.
O escândalo do INSS
O nome de Lulinha também está nas investigações da Operação Sem Desconto, que apura o desvio de cerca de R$ 6,3 bilhões de aposentados e pensionistas entre 2019 e 2024, encabeçados pelo Careca do INSS.
Uma testemunha, o ex-funcionário de Antunes Edson Claro, disse à PF que o Careca do INSS pagava a Lulinha uma "mesada" de R$ 300 mil e que teria repassado US$ 25 milhões ao filho do presidente Lula em algum momento. A defesa de Lulinha negou a informação na época.
Além disso, a PF apura se Lulinha usou influência para facilitar negócios de terceiros na Dataprev, estatal que processa dados de aposentados do INSS, pressionando o ex-ministro da Previdência Carlos Gabas para afrouxar travas tecnológicas que dificultavam descontos em folha.
No entanto, entre os quase 50 indiciados pela Operação Sem Desconso, Lulinha ficou de fora, por falta de provas concretas que comprovassem os pagamentos. O relatório final da CPMI do INSS, que pedia o indiciamento e a prisão preventiva de Lulinha por tráfico de influência, lavagem de bens, organização criminosa e corrupção passiva, foi rejeitado pelos próprios parlamentares da comissão por 19 votos a 12.
Quebra de sigilo bancário de Lulinha
O ministro do STF André Mendonça autorizou a quebra de sigilo bancário do filho do presidente a pedido da PF e depois também aprovada pela CPMI do INSS.
A investigação revelou uma movimentação de R$ 19,5 milhões entre janeiro de 2022 e janeiro de 2026 — R$ 9,77 milhões em créditos e R$ 9,75 milhões em débitos, somando 1.531 operações bancárias.
A maior parte dos créditos, R$ 4,4 milhões, veio de resgates de fundos de investimento; outra fatia expressiva correspondeu a rendimentos de duas empresas próprias: a LLF Tech Participações e a G4 Entretenimento e Tecnologia.
Também aparecem três depósitos do próprio Lula, somando R$ 721 mil, e repasses a ex-sócios ligados ao sítio de Atibaia.
Na ocasião, a defesa de Fábio da Silva chamou o vazamento de "crime grave" e argumentou que soma de movimentações bancárias não equivale a patrimônio ou lucro líquido.
Os advogados de Lulinha disseram ainda que os valores têm origem lícita, pois teriam sido recebidos a partir de rendimentos de empresas próprias, da herança da mãe, Marisa Letícia, e de um adiantamento de herança feito por Lula.
A volta dos holofotes em cenário eleitoral
Levantamento da Revista Fórum mostra que o nome de Lulinha voltou ao centro do noticiário político em cinco dos seis ciclos eleitorais desde 2006 — sempre em anos de disputa presidencial.
O primeiro caso, o da Gamecorp em 2005, envolveu um repasse de R$ 5 milhões da então Telemar a uma empresa de mídia da qual Lulinha era sócio. A suspeita de tráfico de influência levou sete anos para ser arquivada pelo Ministério Público Federal (MPF), sem que nenhum depoimento formal chegasse a ser tomado. O mesmo caso voltou à tona nas eleições de 2010, ainda emperrado por disputas de competência entre promotorias.
Em 2019, já no rastro da Lava Jato, a PF cumpriu mandados de busca contra Lulinha por suspeita de que a Telemar/Oi teria pago R$ 132 milhões a empresas de ex-sócios dele — entre eles os irmãos Bittar, hoje também citados no inquérito atual — em troca de decisões favoráveis do governo. O inquérito foi arquivado em 2022, quando a Justiça invalidou provas obtidas a partir de quebras de sigilo autorizadas pelo então juiz Sergio Moro, cuja suspeição foi reconhecida pelo STF.
A informação mais relevante desse cenário é de que Lulinha nunca virou réu. Ele nunca chegou a ser formalmente acusado, apesar de sempre investigado próximo aos anos eleitorais.
Vale lembrar que indiciamento não é denúncia, e esta por sua vez só produz réu quando aceita pelo Judiciário.
A defesa do filho do presidente sugere, sobre os inquéritos mais recentes, que os vazamentos de mensagens e o uso do nome de Lulinha no noticiário próximo às eleições não seja mera coincidência.
A lobista amiga de Lulinha
Herdeira de um ex-acionista do banco suíço Credit Suisse, Roberta Moreira Luchsinger é hoje uma das personagens centrais da investigação, ao lado de Lulinha.
Sócia da RL Consultoria e Intermediações, ela é descrita pela PF como peça "essencial" para movimentar valores e ocultar patrimônio ligado ao esquema do INSS e Ministério da Saúde.
O Brasilianista mostrou como ela tinha o objetivo de conseguir 20% de lucro na venda de cannabis medicinal ao Ministério da Saúde. Além disso, mensagens interceptadas indicam que um advogado amigo do ministro do STF Kassio Nunes Marques, atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), estaria ajudando no mesmo processo.
Roberta construiu uma imagem de proximidade com o alto escalão do governo e do Judiciário. Nas redes sociais, a lobista documenta uma rotina de viagens internacionais, produtos de luxo e serviços que já atenderam celebridades.
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