A investigação da Polícia Federal que mira Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, avançou nas últimas semanas e passou a provocar uma reação incomum dentro do próprio campo político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Enquanto novas mensagens obtidas pela PF levantam suspeitas sobre relações entre o filho do presidente, a lobista Roberta Luchsinger e integrantes do governo, Lula e lideranças petistas passaram a defender publicamente a continuidade das apurações.
A estratégia ganhou força depois da divulgação de diálogos que citam despesas com uma casa usada por Lulinha e um quadro avaliado em 100 mil euros que teria sido solicitado pelo ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola.
Os envolvidos negam irregularidades, enquanto a PF ainda investiga o significado e o contexto das conversas.
Lula diz que filho deve responder se houver irregularidade
O presidente Lula afirmou que não pretende interferir na investigação que envolve o filho.
Em entrevista à Record, disse que “ninguém está acima da lei” e que Lulinha deverá responder caso tenha cometido alguma irregularidade.
A declaração foi dada após novas informações sobre os inquéritos conduzidos pela Polícia Federal e supervisionados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
A posição, porém, já havia sido apresentada pelo presidente. Em 14 de agosto, Lula declarou que acredita na inocência do filho, mas defendeu que as investigações continuem.
Ele também afirmou ter orientado os advogados a não pedir o encerramento dos processos.
A manifestação cria uma linha política que o governo tenta sustentar diante do avanço do caso, defender a apuração e, ao mesmo tempo, questionar a divulgação de informações que estão sob sigilo.
A defesa de Lulinha pediu ao ministro André Mendonça, do STF, que investigasse os vazamentos, e o magistrado determinou nova apuração sobre a divulgação dos dados.
Haddad transforma investigação em discurso político
Fernando Haddad afirmou que a investigação precisa avançar independentemente do vínculo dos envolvidos com o governo.
O candidato do PT ao governo de São Paulo já havia defendido, em 6 de agosto, que a resolução do caso e a transparência eram fundamentais.
Em 19 de agosto, Haddad reforçou a posição e disse ser favorável a “passar a régua em quem quer que seja”.
O petista também sustentou que Lula não interferiu na Polícia Federal e que a apuração deve alcançar Lulinha e Marcola caso existam elementos que justifiquem a investigação.
Haddad voltou ao tema nesta segunda-feira (24), durante sabatina promovida pelo UOL e pela Folha de S.Paulo.
Ele afirmou que Mendonça fez bem ao determinar a investigação sobre o vazamento de informações sigilosas e também ao manter a apuração sobre as atividades de Lulinha.
A defesa dessa postura tem também uma dimensão eleitoral. Ao comparar a conduta de Lula com a de Jair Bolsonaro em relação aos filhos, Haddad tenta apresentar o atual governo como diferente de administrações acusadas de interferir em investigações envolvendo familiares.
O argumento permite ao PT defender a apuração sem abandonar a defesa política do presidente.
Novas mensagens
A PF encontrou uma conversa na qual Roberta Luchsinger relata ao empresário Cléber Ribas que uma casa utilizada por Lulinha consumia cerca de R$ 100 mil mensais.
Na mensagem, a lobista também menciona a necessidade de interromper o pagamento de passagens aéreas do filho do presidente diante das despesas relacionadas ao imóvel.
A defesa de Lulinha nega que a casa fosse dele e afirma que ele apenas se hospedava ocasionalmente no local.
O advogado Marco Aurélio de Carvalho também sustenta que a investigação não encontrou recursos das empresas investigadas nas contas do filho do presidente.
Marcola aparece em conversas com Roberta nas quais pergunta sobre um quadro que, segundo a PF, teria valor estimado em 100 mil euros.
A lobista respondeu que a obra estava sendo emoldurada e seria entregue posteriormente. O relatório, contudo, não confirma que o quadro tenha sido efetivamente entregue.
A defesa de Marcola nega o recebimento de qualquer obra de arte ou objeto de valor. O ex-chefe de gabinete também afirma que os valores recebidos de Roberta eram empréstimos pessoais, já quitados.
PT tenta se afastar do histórico de escândalos
A defesa da investigação ganhou peso dentro do PT justamente quando o caso recoloca o tema da corrupção no debate eleitoral.
O partido tenta sustentar que, ao contrário de episódios envolvendo governos petistas no passado, as instituições têm liberdade para investigar integrantes do entorno presidencial.
A comparação aparece de forma explícita nas declarações de Haddad. O petista afirma que Lula não substituiu ministros, dirigentes da PF ou investigadores para proteger o filho.
Ele já havia defendido que era necessário “passar a limpo” a investigação sobre Lulinha.
A campanha petista, ao mesmo tempo em que defende a continuidade da investigação, critica os chamados “vazamentos seletivos”.
O secretário de Comunicação do PT, Éden Valadares, classificou os vazamentos relacionados ao caso como “covardes” e questionou a divulgação de informações antes de uma manifestação formal do investigado.
Investigação reúne três inquéritos no STF
Lulinha é alvo de três inquéritos relacionados a suspeitas de tráfico de influência e corrupção.
As apurações envolvem diferentes relações com empresários e lobistas interessados em negócios junto ao governo federal.
Um dos eixos envolve Roberta Luchsinger e as relações com empresas interessadas em contratos públicos.
Outro conjunto de informações examina contatos relacionados à Dataprev e outros órgãos federais.
As mensagens encontradas pela PF também levaram os investigadores a analisar possíveis benefícios e pagamentos relacionados a pessoas próximas de Lulinha.
Esquerda se divide entre defesa da apuração e críticas aos vazamentos
Dentro do campo governista, o secretário de Comunicação do PT, Éden Valadares, adotou uma postura diferente da defesa explícita da continuidade das apurações.
Ao comentar o caso, classificou os vazamentos envolvendo Lulinha como “covardes” e questionou a divulgação de informações de uma investigação que tramita sob sigilo.
A posição concentra a crítica na forma como o conteúdo chegou ao público, sem representar uma defesa do encerramento dos inquéritos.
Já Márcio França (PSB), candidato a vice na chapa de Fernando Haddad ao governo de São Paulo, também não apareceu entre os aliados que cobraram o aprofundamento das apurações.
Em manifestação sobre o caso, França saiu em defesa de Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula, e afirmou considerá-lo uma pessoa “extremamente idônea e hipersimples, humilde”. Ele disse não acreditar que o ex-assessor tivesse cometido irregularidades.
A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, pediu ao STF a abertura de um inquérito para investigar o possível vazamento de áudios de Lulinha.
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