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Justiça

Os contratos de Lulinha e sua amiga lobista

Empresa de empresário que contratou Roberta Luchsinger para prospectar negócios com o poder público acumulou mais de R$ 81 milhões em contratos e aditivos com órgãos federais

Lulinha
PF apura se Lulinha atuava em sociedade oculta com a lobista Foto: Reprodução

Uma empresa de tecnologia cujo dono contratou a lobista Roberta Luchsinger para intermediar interesses junto ao poder público acumulou mais de R$ 81 milhões em contratos e aditivos com órgãos federais.

A Polícia Federal (PF) investiga se a atuação da empresária nesses negócios ocorria em conjunto com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

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Os contratos são da 3Structure IT, empresa de Florianópolis comandada pelo empresário Cleber Ribas de Oliveira.

Portanto, não são contratos formalmente assinados por Lulinha ou Roberta. A suspeita sob investigação é outra, se a lobista foi remunerada para abrir portas no poder público e se Lulinha participava ou se beneficiava dessa atuação.

A PF afirma ter identificado uma possível “sociedade oculta” entre Lulinha, Roberta e Fernando Bittar, ex-sócio do filho do presidente.

Em outra representação, os investigadores disseram haver “comunhão de interesses econômicos” entre Lulinha e a lobista. A defesa do empresário nega qualquer atuação ilegal.

R$ 81 milhões

O levantamento da PF identificou seis contratos da 3Structure com órgãos federais. Cinco foram celebrados a partir de 2023.

O sexto foi assinado ainda em novembro de 2022, quando Lula já havia sido eleito, mas Jair Bolsonaro (PL) continuava na Presidência.

Esse primeiro acordo foi firmado com o Exército por R$ 21,8 milhões. Em julho deste ano, já durante o terceiro mandato de Lula, recebeu um aditivo de outros R$ 3,6 milhões.

A maior concentração está no Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, comandado por Wellington Dias.

Em dezembro de 2023, a pasta contratou a 3Structure por R$ 31,2 milhões. Em novembro de 2025, houve um aditivo de R$ 2,7 milhões.

Em abril de 2026, o ministério fechou outro contrato, de R$ 19,2 milhões. Considerando os dois acordos e seus aditivos, a previsão é de que a empresa receba R$ 53,1 milhões do MDS até 2031.

A 3Structure possui ainda um contrato de R$ 2,4 milhões com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), fechado em abril deste ano, e outro de aproximadamente R$ 177 mil com o Instituto Nacional de Educação de Surdos, ligado ao Ministério da Educação, firmado em 2024.

A empresa também foi contratada pela Telebras em outubro de 2024 para fornecer uma solução de armazenamento e gerenciamento de dados.

O contrato tem vigência até outubro de 2029, mas o valor total não foi divulgado. Por isso, o volume de negócios da companhia com órgãos federais é superior aos R$ 81 milhões identificados nos contratos cujo valor é conhecido.

Taxa de sucesso

Segundo a PF, Roberta Luchsinger cuidava das finanças de Lulinha

É a relação de Cleber Ribas com Roberta que colocou esses contratos no radar da Polícia Federal.

Mensagens obtidas pelos investigadores mostram que, em março de 2023, Ribas e a lobista discutiram um contrato de intermediação que previa uma “success fee”, ou taxa de sucesso, caso fossem concretizados negócios apresentados pelo grupo de Roberta.

A minuta previa remuneração pela “apresentação das partes para celebração de negócios”.

A PF identificou quase R$ 3 milhões em pagamentos à empresa de Roberta durante três anos, realizados por diferentes empresas relacionadas ao grupo de Ribas.

Em um recorte do período entre março de 2024 e dezembro de 2025, os investigadores estimaram em pelo menos R$ 2,5 milhões os repasses feitos pelo empresário à lobista.

Mensagens também são analisadas para verificar se parte do dinheiro foi utilizada para custear despesas de Lulinha, incluindo passagens aéreas.

O próprio Lulinha aparece em conversas orientando Roberta a emitir uma nota fiscal para cobrar Cleber Ribas.

Para a PF, mensagens desse tipo são parte dos elementos utilizados para investigar se a relação entre o filho do presidente e a lobista ultrapassava uma amizade e envolvia interesses econômicos comuns.

A existência desses pagamentos não comprova que os contratos públicos tenham sido obtidos ilegalmente. Essa é justamente uma das questões ainda sob investigação.

Visitas ao governo

A atuação de Roberta dentro do governo já havia sido detalhada pelo O Brasilianista. Levantamento baseado em registros de acesso identificou 42 visitas da empresária a órgãos federais, sendo 41 delas sem correspondente nas agendas oficiais.

O Ministério do Desenvolvimento Social foi um dos principais destinos. Foram registradas 17 entradas da lobista na pasta comandada por Wellington Dias.

Cleber Ribas também esteve no ministério. Segundo registros ele entrou na pasta em 8 de maio e 3 de julho de 2024.

Na primeira ocasião, a 3Structure já mantinha contrato com o MDS. Pouco depois, em junho, foi lançado o procedimento para uma nova contratação de serviços de backup que, após ser revogado e refeito, acabaria vencido pela empresa. O novo contrato, de R$ 19,2 milhões, foi assinado em abril de 2026.

A 3Structure afirma que não existe relação entre essas reuniões e as licitações. A empresa diz que já prestava serviços à pasta e que visitas entre fornecedores e clientes fazem parte de atividades de acompanhamento e pós-venda.

O Ministério do Desenvolvimento Social também afirmou que os procedimentos de contratação passaram pelas áreas técnicas responsáveis e negou que reuniões de Wellington Dias com Roberta tenham resultado em atos administrativos.

Negócios estaduais

A atuação de Roberta para Cleber Ribas não se limitava ao governo federal. Como mostrou O Brasilianista, a 3Structure também fechou R$ 5,8 milhões em contratos com órgãos do governo do Maranhão em 2024, incluindo negócios relacionados ao Porto do Itaqui e à Secretaria da Fazenda estadual.

Mensagens encontradas pela PF mostram ainda Roberta afirmando que Lulinha havia conseguido uma reunião entre o governador do Maranhão, Carlos Brandão, e integrantes do Palácio do Planalto.

A agenda oficial confirmou que Brandão esteve no Planalto em maio de 2024. Um mês depois, Lula anunciou R$ 59 bilhões em investimentos do Novo PAC no Maranhão. 

Brandão negou depender de Roberta para conseguir reuniões no governo federal.

Outros negócios

O empresário Cleber Ribas de Oliveira (Foto: @3structure_it/Instagram)

A investigação sobre Cleber Ribas faz parte de um conjunto maior de apurações sobre a relação de Roberta e Lulinha com empresários interessados em negócios públicos.

O Brasilianista já destacou que mensagens analisadas pela PF tratavam de tentativas de levar projetos ao Ministério da Saúde e à Dataprev.

Em alguns diálogos, Lulinha e Roberta chegaram a conversar sobre negócios e um eventual futuro na Suíça.

No Ministério da Saúde, três frentes ganharam atenção dos investigadores. A maior delas envolvia uma tentativa de comercializar R$ 627 milhões em medicamentos à base de canabidiol.

Outras tratativas tratavam de testes para dengue e demais arboviroses e de possíveis negócios envolvendo a Indústria Química do Estado de Goiás (Iquego).

Ao contrário dos contratos da 3Structure, essas três negociações não avançaram. O Ministério da Saúde afirmou que não houve contratação e que os processos de compra da pasta seguem os procedimentos previstos em lei.

Dinheiro e viagens

A PF também investiga se Lulinha foi beneficiário indireto de recursos movimentados pela lobista.

Como informou O Brasilianista, Roberta aparece em mensagens tratando de passagens, viagens e outras despesas do filho do presidente.

Os dois viajaram com suas famílias para Finlândia e Noruega em janeiro de 2025, e a investigação também acompanha pagamentos relacionados a outras viagens.

Em uma das apurações, a PF encontrou movimentações em dinheiro vivo realizadas por um operador ligado a Roberta.

Um depósito de R$ 50 mil feito em uma agência de viagens coincidiu com a emissão de passagens utilizadas por Lulinha e pela empresária. A defesa do filho do presidente afirma que não foi demonstrado que aquele dinheiro tenha bancado suas despesas.

PF investiga Lulinha

Atualmente, Lulinha é alvo de três inquéritos no Supremo Tribunal Federal relacionados a suspeitas identificadas pela Polícia Federal.

As apurações examinam possíveis crimes como tráfico de influência e corrupção, mas ainda estão em andamento.

Os investigadores sustentam que Roberta atuava para abrir portas em órgãos públicos e que Lulinha poderia exercer uma função de influência quando necessário.

Em uma das representações, a PF classificou o filho de Lula como possível “beneficiário indireto” da atuação da lobista.

A defesa de Lulinha nega que ele tenha atuado para favorecer Cleber Ribas ou qualquer outra empresa no governo.

Os advogados também criticam o que classificam como vazamentos seletivos da investigação e dizem que os fatos têm sido apresentados fora de contexto.

Empresas negam

A 3Structure também nega qualquer favorecimento. Em nota, afirmou que os contratos com o poder público foram obtidos por meio de procedimentos administrativos e licitatórios regulares, com transparência e sem interferência indevida.

A empresa sustenta ainda possuir capacidade técnica e certificações para prestar os serviços contratados.

A defesa de Cleber Ribas afirma que Roberta foi contratada para prospecção de clientes e identificação de oportunidades comerciais, uma atividade que considera legal.

Também sustenta que não há relação entre as visitas feitas ao governo e os contratos posteriormente conquistados pela empresa.

Roberta já afirmou, por meio de sua defesa, que trabalha regularmente com representação institucional de clientes perante órgãos públicos e que contatos com ministérios, autarquias e empresas estatais fazem parte dessa atividade.

O Brasilianista permanece aberto para receber manifestações, posicionamentos ou esclarecimentos de todas os citados nesta reportagem. Caso queiram se pronunciar sobre o tema, os canais da redação estão à disposição.

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